Três parágrafos sobre Kant
Quando morre uma figura pública de grande escala acontecem três coisas: 1) reportagens infindáveis com inevitáveis talking heads que devem demonstrar publicamente o luto de forma mais expressiva que o que falou anteriormente; 2) mobilização dos que não são talking heads naturais (vulgo anónimos) para demonstrarem que sofrem tão ou mais que os televisionáveis, amplificada pela falsa sensação de importância obtida nas redes sociais; 3) e culminando no ímpeto baptista de mudança de nome de tudo quanto existe para o nome do defunto, eventualmente ignorando que o nome da praça/estádio/aeroporto/rotunda já tem o nome de um defunto originado por ímpeto já esquecido.
Recordo as conversas que tantas vezes tive sobre isto tudo quando fazia o trajecto a pé da velha estação de Contumil ao Estádio das Antas e daí até à Praça de Velásquez; ou quando subia a Rua de Santo António para ir ao cinema Águia D’Ouro onde vi o meu primeiro filme na grande tela.
Trasladar Eusébio para a Igreja Eusébio, o panteão nacional da República Eusébio, custa umas centenas de milhar de euros ou alguns milhões dos novos Eusébios desvalorizados, disse Assunção Eusébio, a presidente da Assembleia Eusébio. Não fosse o tuga desconfiar, e com razão, de alertas despesistas oriundos da Assembleia Eusébio, conhecida casa de “deixem-me gastar”, repararia em algo fundamentalmente kantiano e/ou zen na atitude de Assunção Eusébio: se um notável morre no rectângulo e ninguém consegue angariar fundos suficientes para a sua transferência para o panteão, será mesmo um notável quem morreu?
Eusébio
Soares, o único imortal
É perfeitamente natural que Mário Soares tenha necessidade de referir a baixa instrução de Eusébio no dia da sua morte. Eusébio foi um ídolo acarinhado pelos portugueses durante o Estado Novo. Mário Soares também é um figura do Estado Novo, criado e engrandecido precisamente pela oposição ao regime. Sem Estado Novo não haveria Mário Soares.
No panteão da “luta anti-fascista” de Soares, só há lugar para ele próprio. Depreciar culturalmente pessoas que originavam alegria antes do 25 de Abril é apenas a forma que Soares tem para perpetuar o mito de que antes dele o país era só o degredo.
Adenda: Pelos vistos foi ainda pior do que “baixa cultura”. Soares garante que Eusébio “bebia muito whisky”.
“Devia ter-se começado pela reforma do Estado”
“Devia ter-se começado pela reforma do Estado” era uma frase muito em voga há 6 meses atrás. Entretanto o Tribunal Constitucional chumbou dois elementos fundamentais de qualquer reforma do Estado, a mobilidade com perda substancial de rendimento e possibilidade de despedimento, e a convergência de pensões entre a CGA e a Segurança Social. O primeiro chumbo aponta claramente para a impossibilidade de serem despedidos funcionários públicos com contratos anteriores a 2009 de forma unilateral. O segundo chumbo mostra que os juízes do TC não aceitam que o governo faça reformas sem o consentimento do PS. Ou seja, se o governo tivesse caído na armadilha de começar pela reforma do Estado ter-se-ia enredado num novelo engonhante sobre o qual não tem qualquer controlo.
O roubo legal e protegido (ou: oxalá não haja vento este ano)
Nas justificações da ERSE para o aumento do preço da energia, nenhuma delas diz respeito a qualquer racionalidade económica. Todas são o resultado de decisões políticas de protecção de interesses de produtores de energia e em prejuízo para os consumidores. O papel da ERSE é a de um organismo público que vela exclusivamente pelo interesse cooperativo em detrimento da verdade de mercado.
Um dos pontos invocados para o aumento do preço é mesmo totalmente falso: «A descida observada na procura global da eletricidade....». Na verdade, «o consumo da eletricidade aumentou 0,2% em 2013, após dois anos consecutivos em queda»…..
Mas o mais caricato e ridículo é o seguinte ponto «justificativo» para o aumento do preço da eletricidade:
«Custos da Produção em Regime Especial (PRE)
A PRE, ao abrigo da legislação específica, inclui para além da produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis e resíduos, a produção em processos de cogeração de energias elétrica e térmica e microprodução. A PRE tem beneficiado de um conjunto de incentivos económicos. O peso deste tipo de produção tem vindo a aumentar ao longo do tempo no preço de energia elétrica devido por um lado, ao facto das entregas desta energia elétrica à rede terem aumentado nos últimos anos e, por outro, pelo facto de, em termos médios, o custo de produção da PRE ser superior ao das tecnologias convencionais. Importa referir, pelo seu caráter excecional, o crescimento da produção em regime especial que se observou no primeiro semestre de 2013, particularmente de origem eólica e hídrica, devido a condições meteorológicas favoráveis para estas fontes de energia, o que teve reflexo no sobrecusto da PRE a repercutir no presente cálculo tarifário.»
Traduzindo: 1) a produção de energia de fontes renováveis/residuos/cogeração/microdução «em termos médios» é superior ao das tecnologias convencionais. 2) Apesar disso, esse tipo de produção tem vindo a aumentar nos últimos anos fruto de «incentivos económicos» pagos pelos contribuintes e consumidores. 3) a produção de origem eólica e hídrica no primeiro semestre de 2013 foi excepcional devido às condições meterológicas, pelo que sendo altamente subsidadas, quanto mais se produziu mais aumentaram os custos dos subsídios a pagar pelos consumidores.
Ou seja, verifica-se o escandaloso caso em que se utilizam tecnologias de produção economicamente ineficientes que apenas existem por serem subsidiadas pelos contribuintes, a que se acrescenta que quanto mais produzem, mais caro fica ao consumidor, o que evidencia bem toda a irracionalidade e imoralidade do esquema vigente.
O esquema é legal, existe em beneficio de uma pequena casta de parasitas que dispõem de um organismo estatal que assegura as suas rendas. À custa dos consumidores/contribuintes. Como sempre.
O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não
Houve um debate na blogosfera que não chegou às páginas dos jornais. Foi sobre as consequências sociais da austeridade, suscitado por um post de Pedro Magalhães. Parto desse tema para a minha crónica desta semana no Público:
Afinal há uma solução para a crise
A insustentável leveza da leveza insustentável
No dia 3 de Janeiro, há precisamente 52 anos, Fidel Castro era excomungado pelo Papa. Meio século depois, os revolucionários-peticionários citam as exortações apostólicas do sucessor de São Pedro.
O que mudou? Nada: se não os podes vencer, junta-te a eles (e forma mais um partido).
Aqui também não, ali nem pensar, acolá é fascismo
Não fechem isto. Não privatizem aquilo. Não transfiram isto para acolá. Não podemos perder isto. Ai de nós se perdermos aquilo. Isto é uma jóia da coroa. Aquilo é nosso. É um direito, pá. Eu, velho do Restelo? É preciso mudar de forma a que tudo fique na mesma.
Governo aumenta descontos da ADSE e alarga taxa de solidariedade.
Encontrado o multiplicador entre o défice e a dívida
Luís Reis Ribeiro merece destaque por meter esta idiotice por escrito da forma mais directa e idiota, revelando ainda que teve trabalho e fez contas para chegar a uma conclusão idiota:
Por cada euro a menos no défice, dívida sobe 1,1 euros
O período do ajustamento da troika, entre 2011 e 2014, será claramente marcado por uma redução do défice feita à custa de um aumento da dívida pública.
O bebé do ano nasce sempre ali ao lado
O JN decidiu que o bebé do ano nasceu convenientemente na Maternidade Alfredo da Costa.
Já a TVI optou por decidir que o bebé do ano pode nascer fora de Lisboa e, desta vez, escolheu Viseu.
Segundo o Centro Hospitalar de Lisboa Central, o número de partos na MAC foram 5244 (2009), 5328 (2010) e 5583 (2011).
| Ano | Total de Nascimentos | Partos na MAC | % de nascimentos na MAC |
|---|---|---|---|
| 2009 | 99.491 | 5.244 | 5,27 |
| 2010 | 101.381 | 5.328 | 5,25 |
| 2011 | 96.856 | 5.583 | 5,76 |
(Fontes: CHLC e Pordata)
Fascinante como uma maternidade onde nascem em média 5,4% dos bebés consegue obter o record absoluto de bebés do ano:
| Ano | Bebé do Ano é MAC? | Fonte |
|---|---|---|
| 2006 | SIM | JN, DN |
| 2007 | SIM | JN |
| 2008 | ? | |
| 2009 | SIM | JN |
| 2010 | SIM | JN, |
| 2011 | NÃO | DN |
| 2012 | SIM | JN |
| 2013 | SIM e NÃO | JN jura que sim, TVI jura que não |
Qual é a probabilidade de 1 de 5,4% dos bebés nascidos num dado ano acontecer no dia 1 de Janeiro entre as 0h00 e as 0h05, em Lisboa e na Maternidade Alfredo da Costa? Segundo o galardão bebé do ano, 75%. Encerrar a MAC parece ser uma má decisão para este prestigiado galardão.
Feliz 2014
E boas leituras para começar o ano.
nota: o link está certo. A LOE 2014 (que já está em vigor) é que não está acessível no site do Diário da República. Uma versão que não faz fé pode ser consultada aqui.
Feliz Ano Novo!

2013 in review
The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.
Here’s an excerpt:
About 1,000,000 people visit the Seattle Space Needle every year. This blog was viewed about 3,600,000 times in 2013. If it were the Space Needle, it would take about 4 years for that many people to see it.
Na iminência da revolução energética?
A revolução já estará a ocorrer nos Estados Unidos, de forma algo silenciosa. Pode daqui emergir um novo e longo ciclo de crescimento em que a América volta a ser a locomotiva e a Europa corre o risco de se tornar um permanente laggard. Seja por escassez de recursos, por rigidez das normas ambientais ou por indisponibilidade imediata da tecnologia de fracturação. Pode no entanto vir a beneficiar do excesso de petróleo e gás que países da OPEP (e não só) oferecerão a preços tendencialmente mais baixos. Mas a necessidade de manter níveis mínimos de independência energética, forçará novas políticas que poderão passar pelo reforço da energia nuclear com os verdes, principalmente os alemães, a terem de engolir muitos sapos, cobras e lagartos.
Uma coisa é certa, nada ficará como dantes. O que é normal no mundo da energia.
2013: assim chegámos ao fim
Balanço do ano. Tema do meu artigo no DE:
Perigo de queda. António Costa espera que Seguro caia; José Sócrates espera que António Costa se decida caso Seguro caia. Rui Rio espera que Passos caia. Marcelo Rebelo de Sousa espera que Passos caia para saber se Rio avança e se ele próprio avança também. Moral da História: quem vive à espera das quedas alheias pode, de tanto olhar para cima tornar-se um bom ornitólogo mas nunca conseguirá ver a oportunidade política que está à sua frente.
Os amigos. Em tempos que já lá vão, existiu em Portugal um grupo vocal do mesmo nome cujas canções faziam rimar mão com pão e explicavam às criancinhas a amizade que os operários lhes votavam. O resultado foi alguma discografia péssima mas perfeitamente actual. Basta substituirmos os operários e os lenhadores da canção pelos protagonistas da presente situação e constataremos que os amigos estão aí para as ocasiões. É apenas necessário saber aproveitá-las como soube Passos Coelho em 2013. O PM contou em 2013 com a forte amizade de Paulo Portas, Arménio Carlos e do Tribunal Constitucional. Portas proporcionou-lhe o pano de fundo de uma crise para aparecer como um imperturbável homem de Estado. Quanto a Arménio Carlos é óbvio: de cada vez que o líder da CGTP aparece na televisão – e aparece muito – Passos Coelho não ganha votos, mas passa a contar com o apoio tácito do silêncio. Afinal face à violenta irrealidade que sobressai das palavras de Arménio Carlos torna-se claro que nada deve ser pior que ficar nas mãos da turba ululante que vive de ser sindicalista profissional. Além do mais a turba não parece saber negociar com os credores e o povo pode ser “povinho”, mas de contas sabe bem mais do que se pensa. Por fim o Tribunal Constitucional deu a Passos o argumentário perfeito: se as coisas correm, mal correm mal por causa do TC. E se correrem bem, correm bem apesar do TC. Mais cedo ou mais tarde, o actual estatuto do TC será alterado, pois a transformação do TC numa espécie de parlamento não eleito, mas com poderes de veto, levará a que os futuros governos façam ao TC aquilo que noutros tempos os políticos fizeram aos militares: garantiram-lhes a fanfarra e as medalhas e arrumaram-nos no seu espaço.
O amigo secreto. Isolado entre os jornalistas e ainda mais isolado entre os socialistas visíveis, o maior e talvez único amigo de António José Seguro é Cavaco Silva. Cavaco é no plano social genuinamente social-democrata e toda a sua vida foi funcionário público (ou, numa designação mais próxima do seu imaginário, servidor do Estado). Não andasse a actual liderança do PS obcecada com a gerontocracia que se reuniu na Ala Magna – desde as reuniões do desaparecido Politburo da também desaparecida URSS que não se via uma similar aglomeração de anciãos furiosos com o mundo e com o povo – e Seguro teria feito do PR um seu aliado na luta contra o Governo. Ainda vai a tempo.
E também quem em 2013 foi A Fénix Renascida. Ou teve A Derrota política auto-inflingida.
Por fim dois mistérios deste ano que agora finda: “Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso!” E a conversão súbita ao Papa Francisco que leva a que peça Deus nos livre dos prosélitos
Brinde ao fracasso
Sobre o mais relevante de 2013, várias pessoas apontarão o facto x ou y, a morte de sicrano ou beltrano, a estatística preferida para o preconceito que pretendem validar ou uma série de produtos de entretenimento. Para mim, nada disso é particularmente relevante em relação à subserviência que o português demonstrou pelo fracasso.
Efectivamente, em 2013, tudo o que ficou de capas de jornais, programas de televisão e intervenções de “especialistas” foi o sabor ácido de um povo que anseia pelo seu próprio fracasso. Isto tem duas vantagens: a primeira é que, em caso de “fracasso do fracasso”, não é necessário considerá-lo um “sucesso”; em segundo, permite desvalorizar qualquer esforço efectuado perante a perspectiva de promessa antecipada de um sucesso que todos sabem não passar de um fracasso.
É bastante cómico, se visto de fora.
Brindemos então ao nosso fracasso, ao nosso eclipse civilizacional e à nossa regressão à idade média. Brindemos à nossa extinção, à destruição do país e ao fim derradeiro de qualquer noção vaga de conforto, substituindo-o pelo fétido esgoto da desumanização pela vil austeridade. Só não mexam na pensão do Bagão Félix.
Ver o que se deseja
É sempre assim. Passada a fase de entusiasmo com a Primaver árabe – agora podem morrer e matar-se à vontade que ainda falta tempo para que os jornalistas-activistas voltem à fase da exaltação mística com as varreduras na Praça Tahir – tivemos o arrebatamento com o comunicado da ETA. A Rádio Renascença noticia com trombeta angelical: Etarras detidos pedem desculpa. A TSFanuncia que O coletivo de presos da ETA reconheceu pela primeira vez o «sofrimento e os danos» causados com os seus ataques terroristas durante 40 anos de violência. E o Expresso garante que Presos da ETA assumem culpa Infelizmente nada disso é verdade. Em parte alguma do comunicado os etarras pedem desculpa ou sequer referem a palavra terrorismo. O máximo que concedem é isto : Reconocemos con toda sinceridad el sufrimiento y daño multilateral generados como consecuencia del conflicto.
Esta frase é clara: reconhecem o dano multilateral causado pelo conflito. Ou seja reconhecem que o outro lado tb sofreu. E ponto. Não há desculpas e muito menos se assumem culpas. Como frequentemente aqui escrevi os terroristas raramente mentem. (Revejam mais uma vez a entrevista de Pedro J Ramirez a Soares Gamboa seu antigo colega de escola que se tornou etarra e o tentou assassinar) Mas há quem se queira iludir e leia nas suas palavras o que não está lá. Ou seja estamos perante uma organização terrorista que foi derrotada e que agora luta pela sua sobrevivência dentro do estado democrático. Mas que nunca pediu desculpa pelo que fez. Que anunciou o abandono das armas mas não as entregou. Que sob a capa do multilateral pretende colocar-se em plano de igualdade com o Estado espanhol e com as vítimas do terrorismo. É apesar de tudo opção estratégica que representa um avanço na luta contra a barbárie: à garantia de que não acontecem mais atentados – o que é claramente positivo para a sociedade espanhola no seu todo – junta-se agora uma outra garantia: os presos podem negociar individualmente os seus processos: «Estamos dispuestos, dentro de un plan de actuación global, a estudiar y tratar la posibilidad de que el proceso que culmine con nuestra vuelta a casa se efectúe de manera escalonada, mediante compromisos individuales y en tiempo prudencial. » Esta alteração, a maior anunciada neste comunicado, é muito importante para os membros da ETA pois estes acabam reféns da organização. Embora esse lado raramente seja referido as organizações terroristas exercem um controlo férreo sobre os seus membros, executando-os quando entendem necessário e chantageando-os a eles e às suas famílias quando são presos. Ou seja estamos perante um comunicado que revela a dificuldade crescente da ETA em controlar os seus membros presos. Quanto ao resto nada de novo: não pedem desculpa e não entregam as armas. Não fazem mais atentados mas mantêm a capacidade para tal e também porque a guerrilha do Direito a par da kale borroka – agora sob a patine dos indignados – lhes garante melhores resultados.
Por fim convém que ninguém ponha na boca de um terrorista as palavras que se querem ouvir pois esse é um engano que se costuma pagar com cadáveres.
O herói e o vilão
A indústria do entretenimento da crise tem o vilão, o primeiro-ministro, mas, para construir a sua narrativa, necessita de um herói. A Merkel, o BCE, o euro… tudo personagens secundárias demasiado distantes. O herói é um durão capaz de livrar as criancinhas do terror e os suores frios das mães envoltas nos trapos que envergam enquanto amamentam as crianças da vizinha subnutridas pela putrefação da austeridade. A imagem é só ligeiramente apimentada em relação ao que por aí se diz.
Alguém tem que fazer alguma coisa. Isto é um trabalho para um politólogo.O herói é o previsivelmente improvável burguês, atirado para uma situação moral além do seu controlo, uma espécie de Gandhi que abraça a sua condição de salvador com as suas petições e os seus movimentos com nomes oriundos do marketing. O gajo bom, o herói pelas circunstâncias que, apesar dos seus defeitos pessoais, é charmoso na sua arrogância boçal. O herói assume diferentes formas, sob a máscara de comentador da desgraça, a que não se aguenta. Está todos os dias nas televisões que transmitem 24 horas por dia, 7 dias por semana; conhece sempre alguém a passar pela pior das misérias mas nunca troca o seu tempo de antena pelo testemunho de um destes desgraçados que lhe ofuscaria a ribalta. O herói olha-se ao espelho e prepara o seu desempenho heróico perante o segundo espelho, o da câmera de televisão, reflectido nos ecrãs das vítimas, as que o herói vai salvar, via manifesto, pela televisão. O herói pode ter dois ou três nomes, sendo que no último caso indica uma proveniência mais deliberadamente aristocrática na hierarquia do entretenimento da crise.
O vilão é também o eleitor que parece ter votado no governo. É o traidor, o “não-povo”. É facilmente personificado em pessoas que dizem coisas óbvias, fazem trabalho meritório com quem precisa, empregam milhares e facultam variedade na escolha de bens de consumo… Qualquer um que estrague a narrativa do entretenimento da crise, do “isto não se aguenta”, efectivamente aguentando em vez de mostrar (também aguentando mas isso não importa) que isto não aguenta.
A indústria do entretenimento da crise faz crer que “o povo” é governado por déspotas que, apesar de todos os esforços e milhares de mártires, não podem ser vencidos sem a intervenção do herói, via manifesto, que gerará a indignação tal que transformará a sociedade como a conhecemos. Nada disto é novo; a única novidade é que alguém descobriu ser mais barato produzir informação em canais 24/7 que filmes de acção.
Esmiuçando as razões do Tribunal Constitucional
Este é um dos temas do meu artigo desta semana, sobre o acórdão do Tribunal Constitucional.
O Euro, essa moeda moribunda…
Euro sobe mais de 1% e aproxima-se de 1,39 dólares
Já foi objecto de múltiplos epitáfios, principalmente por parte de economistas americanos com o Nobel Krugman à cabeça. Certo é que a sua resiliência tem sido notável e o ajustamento não inflaccionário das contas externas feito em moeda forte pelos países sob resgate, está a pôr em causa as teorias tradicionais. Continuamos em recessão e com elevado desemprego? Sem dúvida, mas a economia já inverteu e poderá entrar numa nova fase de crescimento sustentado. E quiçá num patamar superior de especialização, produzindo bens e serviços com maior valor acrescentado, o que nos fará entrar num novo paradigma de competitividade, suportado mais no valor do que no preço.
Daqui a alguns anos veremos se a política do BCE, mais virada para o longo prazo, é ou não preferível ao imediatismo do FED. Assim se mantenha o rumo e não haja asneiras e cedências ao facilitismo por parte da nossa política interna.
Passem Marco Paulo
Em tempos contei esta história num comentário. Visitando jornais ou blogues e, por azar, caindo ao engano nas caixas de comentários, a relevância da história torna-se evidente: daí que mereça um post próprio.
Era eu miúdo, brincava no corredor da casa, enquanto o rádio, sempre ligado, passava um daqueles programas de discos pedidos. Muitos fados, fadunchos e, sobretudo, canções portuguesas, a chamada “música ligeira” anterior à revolução Chico Fininho.
Um senhor ligou, disse a frase publicitária da praxe e, antes de fazer o pedido, indignou-se, como agora é frequente, não com a compra exagerada de fritadeiras Rowenta, sim com a programação da estação. “Vocês só metem chungaria”, dizia, num tom Catarina Martins com timbre másculo. “Eu não quero ouvir essas coisas chungas que vocês passam; eu quero ouvir Marco Paulo”. Após uma breve explicação do apresentador sobre critérios editoriais, algo sobre escolherem canções que acreditam ser as que melhor fomentam a fidelidade dos ouvintes, perguntou qual era o disco que pretendia ouvir; a resposta foi “Marco Paulo, quero ouvir Marco Paulo, não quero ouvir essas chungarias que vocês passam”. Por breves momentos, dois a três minutos, o mundo fez sentido para aquele senhor que, graças a um telefonema com declamação de frase publicitária – ó vil capitalismo – se permitiu ouvir Marco Paulo, versão canção indiscriminada, desde que Marco Paulo e não a chungaria habitual.
Não sei se a atitude do ouvinte serviu para alguma coisa. Não creio que a estação passasse a emitir quase só Marco Paulo depois disso; no entanto, o homem zangado, o indignado, lá fez o protesto, ciente do serviço público prestado à sociedade em nome da sua própria noção de bom gosto.
Esta história ocorre-me sempre que encontro o homem zangado com o que alguém escreve, por este escrever sobre histórias radiofónicas dos anos 80 em vez de escrever sobre o Marco Paulo que o zangado quer, neste preciso momento, não só ouvir como pretender que os outros também ouçam.
Sem link é publicidade ineficaz
Apesar de ainda não ter tido oportunidade de ver (que é como quem diz: se para uns a oportunidade faz o homem, para outros o homem faz a oportunidade), disseram-me que Pacheco Pereira já conhece a nova linha de T-shirts da Grande Loja Blasfema.
Infelizmente, e talvez por esquecimento, como não referiu o link para o Blasfémias, não será possível oferecermos uma (é uma transferência inaceitável do círculo grande para o círculo pequeno). No entanto, prometemos que se na próxima Quadratura do Círculo colocar um ursinho Hayek na mesa, a T-shirt será devidamente entregue.
Regime semi-constitucionalista
O movimento extremamente democrático que exige a demissão do Presidente da República (vulgarmente conhecido por “ala socrática”) tem novo fôlego, graças ao comportamento expectável deste oriundo das suas não-funções executivas no que diz respeito ao orçamento.
Duas coisas interessantes decorrem:
- Socráticos não gostam da Constituição e preferem um regime presidencial;
- A Constituição é boa e para respeitar excepto nas partes que não se gosta, como as funções presidenciais.
Existirão, eventualmente, muitos motivos de crítica ao Presidente da República: porém, nenhum deles será o desrespeito deste pela Constituição; e isto é particularmente giro vindo de quem vem.
Feliz Natal!

Cartoon do Tugas (1)

Um ícone da crise
Não se fala de outra coisa nas redes sociais. O icónico gráfico do Pacheco Pereira está a ter um profundo impacto na nossa percepção da crise.
Há muita especulação sobre o que terá inspirado Pacheco Pereira a fazer esta representação. Existem várias pistas e diversas teorias. Há quem ache que Pacheco Pereira foi influenciado pela sua passagem por Bruxelas, quando esteve no Parlamento Europeu:
Outros vêem influências da banda desenhada de Moebius:

do movimento de arqutectura e planeamento urbano “Garden Cities”:
nos tripods da Guerra dos Mundos:
O gráfico de Pacheco Pereira está a ser profundamente influente tendo já dado origem a uma linha de massajadores:
ao conceito de “árvore artificial”:
a uma nova visão sobre os bancos centrais:
a teorias sobre um golo anulado ao Sporting:
e até a uma nova teoria sobre os círculos nos campos de trigo (provavelmente é o Pacheco Pereira que os anda a fazer):

Novos produtos na Grande Loja Blasfema
É com prazer que anunciamos uma nova linha de produtos para a pessoa humana com consciência social. As transferências injustas e a problemática da economia do Estado estão na ordem do dia; uma representação gráfica vale mil palavras, mesmo na Quadratura do Círculo.
Com design moderno e recorrendo ao novo símbolo da contestação, a Grande Loja Blasfema lança uma linha para a mulher, criança e até homem, linha esta que expressa tanto a preocupação do pensionista comum como do patriota indignado. Com variantes em tom revolucionário e padrões arrojados, expresse as suas preocupações sociais mantendo-se na moda.

Para o verdadeiro patriota, temos o símbolo da contestação em verde e rubro, permitindo também serem usadas como peças de apoio à selecção de futebol no Mundial de 2014.
Para o verdadeiro revolucionário e fashionista, temos disponíveis versões em vermelho com um lindo padrão em pele de girafa, animal conhecido por esticar o pescoço sempre que precisa de se alimentar no topo de uma árvore.
Visite a Grande Loja Blasfema e participe neste movimento verdadeiramente patriótico.
Chamavam-lhe vandalismo, agora chama-se protesto

Impossível fazer rábulas deste tipo hoje em dia: poderia ser interpretada como uma notícia séria.
O Processo Revolucionário de Estupidificação em Curso gerou mais uma indignação, a dos esfomeados-desempregados-com-acesso-à-internet; estes pretendiam a mutualização de produtos do Pingo Doce através da irreverência atribuída à bonomia da estupidez.
Denunciando o que consideram uma terrível fuga de impostos para a Holanda (de todas as empresas geridas correctamente?), utilizaram para a organização do “evento” a plataforma Facebook pertencente a uma empresa com subsidiárias na Holanda, Irlanda e Ilhas Caimão, numa meta-trauleitada de incoerência irreverente típica do Processo Revolucionário de Estupidificação em Curso.
Não é de surpreender o fascínio dos média por estes casos de polícia, tratando delinquência como “acção de protesto”: o que não falta nos próprios média são casos de polícia; surpreendente é não se rastrear a organização destes “eventos” às mentes brilhantes (e nada esfomeadas) que manipulam estes peões desprovidos de dois dedos de testa.
300
Li ontem que havia sido feita uma inspecção aos mais de 300 cursos que existem nas escolas superiores de educação em Portugal.
300! Trezentos!
Tendo em conta a existência de excesso de oferta de professores no mercado de trabalho e tendo em conta a diminuição do número de alunos e da população em geral (que irá acentuar crescentemente a redução de alunos), não seria de ponderar uma moratória por 5 anos e suspender os ditos 300 cursos? É que sempre se evitava a continuação do logro sobre quem os frequenta e seria sobretudo uma boa medida de contenção de despesa pública desnecessária.
Papá-Estado, parti um vidro, ajuda-me!
Quando me sinto particularmente vocacionado para cumprir escrupulosamente a Constituição, procuro formas de aferir o número de latifúndios que ainda possam existir. A minha pequena obsessão com esta particularidade da Constituição portuguesa é apenas uma sinédoque para o logro que é o comentador-constitucionalista: ou se aceita a Constituição no seu absoluto – é o que é, respeite-se – ou, aceitando como tola esta ou aquela norma, fica por definir qual o critério que permite determinar o que é para respeitar e o que é para ignorar. Naturalmente, neste último caso, permite-se que sejam ignoradas todas as normas.
De qualquer das formas, com ou sem latifúndios, a minha parte preferida da Constituição não é o tal artigo 94 dos latifúndios e sim o artigo 67 dedicado à família, em particular o ponto 2, alínea c:
Incumbe, designadamente, ao Estado para protecção da família:
(…)
c) Cooperar com os pais na educação dos filhos;
Nas escolas, em reuniões com os pais, não é isto que nos é transmitido. Professores da escola pública, que nos asseguram existirem para ensinar e não para educar crianças, estão constitucionalmente errados. No fundo, incorrem numa inconstitucionalidade ao descartarem-se de uma responsabilidade consagrada, a do Estado cooperar com os pais na educação dos filhos. Dito de outra forma, sempre que na escola pública se decide punir o Paulinho pela rudeza dos seus actos – coitadinho, não sabe mais, não teve a devida ajuda do estado na sua educação – viola-se o princípio da confiança que determina ser função do Estado cooperar com os pais na educação dos filhos. Estes casos são dramáticos e é imperioso ouvir o Joaquim sobre isto.
A fase seguinte serão os museus, os livros, os filmes, os palácios…?
Swedish parliament removes Baroque artist’s bare breasted painting for offending feminists and Muslims Baroque painter GE Schroder’s (barely) bare breasted “Juno” has been taken down by the Swedish parliament for offending feminists and Muslim visitors in a widely derided move. (Via Insurgente)
Quantos hectares fazem exactamente 3,14 latifúndios?
Como é que o argumento “é preciso respeitar as leis” se coaduna com “é preciso uma revolução”? Não coaduna, não encaixa, não faz qualquer sentido. Exigir o respeito por leis em qualquer circunstância significa aceitar qualquer ditadura, coisa que os adeptos da revolução não aceitam: só aceitam, claro, a ditadura por eles imposta com a tal revolução desejada.
As leis são artifícios semânticos que pretendem modelar os preceitos do funcionamento dinâmico do colectivo, e, por isso, falíveis até como aproximação grosseira. Se as leis não são dinâmicas, adaptadas consoante as circunstâncias e, sobretudo, mediante a vontade popular, então o respeito por estas é uma forma de devoção fechada, do tipo top-down, vulgarmente denominada por teocracia.
Não que isto seja particularmente relevante para as decisões do Tribunal Constitucional: à falta de uma lógica unívoca, esta substitui-se pela “interpretação do espírito” da coisa; ou seja, governar a reboque de decisões baseadas na interpretação pessoal do topo das instituições é uma forma interessante de reconhecer que a democracia portuguesa não é mais que a delegação das decisões do colectivo num grupo não-eleito de intérpretes do espírito dado a um documento elaborado num período pós-revolucionário de dança de cadeiras.
Continuo à espera de saber quantos hectares fazem um latifúndio. Decerto o espírito da constituição pode ser invocado pelos anciões de toga para me fornecer uma resposta cabal: aposto em 42.
Eu, neoliberal e fanático, me confesso…
fractura aí, mariano!
Em Espanha, o governo conservador de Mariano Rajoy prepara a aprovação de uma lei que, não proibindo, nem de perto nem de longe, o aborto, o condiciona a requisitos que obrigam a que ele deixe de ser, em termos práticos, um método anti-concepcional, para passar a ser uma forma de reparar um eventual dano ou um perigo objectivo para a mulher e, ou, para o feto. O aborto deixa de ser, em Espanha, uma livre opção da mulher? Pois deixa e, segundo uma lógica conservadora a que pertence o partido que está no poder (a medida resulta de uma promessa eleitoral), não tem de o ser. Ele deve estar associado a perigos e danos evidentes, e à responsabilidade dos adultos envolvidos. É esta a lógica, esta sim verdadeiramente fracturante perante a atitude politicamente correcta dominante no nosso tempo sobre o aborto, de uma posição liberal-conservadora moderna sobre este assunto, e que poderá resumir-se numa palavra: responsabilidade. Mariano Rajoy foi eleito tendo feito esta promessa ao eleitorado que o elegeu, e, como homem de palavra, está agora a cumpri-la. A democracia é assim, e todos devem respeitar as decisões soberanas do povo.
Aguarda-se, agora, que o nosso governo, onde os democratas-cristãos têm uma posição de grande predominância, se posicione sobre esta nova tendência fracturante.
Solução: aumenta-se a dívida. Quem paga? Os pensionistas de amanhã
we wish you a merry christmas…
Acordão do TC em 2025
A manutenção da estabilidade das pensões dos beneficiários em 2013 garantiu aos presentes pensionistas tempo de ajustar os seus projetos de vida às novas regras. A saber as suas pensões têm um valor simbólico mas tiveram tempo para se preparar psicologicamente para tal. Materialmente não puderam porque tiveram sustentar as pensões dos então beneficiários. Mas isso não viola qualquer princípio porque os direitos dos beneficiários foram consagrados por eles mesmos e apenas por eles. As gerações futuras foram em 2013 devidamente informadas da sua condição de pagantes e de beneficiários simbólicos. Aconselha-se assim a actual geração de beneficiários a constituir um gigantesco empréstimo de modo a garantir a si mesma um nível de pensões similar ao dos seus pais, avisando desde já os seus filhos que terão de pagar o endividamento daí decorrente. A que se junta o da geração dos seus avós.












