Por um Portugal asseado!

Uma geração que consente deixar-se representar por um _____ é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
(Adaptado de Manifesto Anti-Dantas de José de Almada Negreiros)
*
a casinha

Que saudades eu já tinha
Da minha alegre casinha
Tão modesta como eu
Como é bom meu Deus morar
Assim num primeiro andar
A contar vindo do céu
O meu quarto lembra um ninho
E o seu tecto é tão baixinho
Que eu ao ir p’ra me deitar
Abro a porta em tom discreto
Digo sempre senhor tecto
Por favor deixe-me entrar
Tudo podem ter os nobres
Ou os ricos de algum dia
Mas quase sempre o lar dos pobres …
Tem mais alegria
De manhã salto da cama
E ao som dos pregões de Alfama
Trato de me levantar
Porque o Sol meu namorado
Rompe as frestas do telhado
E a sorrir vem me acordar
Corro então toda ladina
Minha casa pequenina
Bem dizendo o solo cristão
Deitar cedo e cedo erguer
Dá saúde e faz crescer
Diz o povo e tem razão
Tudo podem ter os nobres
Ou os ricos de algum dia
Mas quase sempre o lar dos pobres
Tem mais alegria
orgulho: isto não é os eua

Rock In Rio
Basta lembrar isto para demonstrar em 1m52s o colossal abismo da Senhora abaixo retratada no video para Marcelo, Costa e outras amebas políticas.
Oxalá que para além da luz não exista nada
Concedamos, para o efeito deste artigo, que existe vida depois da morte. Aceitemos que existe um lugar numa dimensão alheia aos vivos que permite acompanharmos os acontecimentos mundanos que preenchem os dias da nação. Consideremos que há um local onde reencontraremos os que há muito partiram e uma eternidade para acolher os que ainda se encontram sujeitos às privações do tempo terreno. Contemplemos a hipótese de um dia, nesse outro mundo, sermos confrontados por um coro da defunta Catarina Martins, do defunto Ferro Rodrigues e do finado Marcelo Rebelo de Sousa. Conseguirá alguém descrever melhor o conceito de Inferno?
justiça revolucionária «à la carte»
Em 2015, Sandro Santos, dirigente do Bloco de Esquerda de Guimarães, foi detido pela PSP por ser o cabecilha de uma rede de plantação de cánabis, organizada em quatro apartamentos onde cultivava essa planta. A produção e venda de cánabis são um crime público em Portugal.
Em 2018, um empregado da empresa de segurança 2045 espancou selvaticamente uma mulher, enquanto estava ao serviço nos STCP. Bater em pessoas é um crime de ofensas corporais, que, no caso, pode ser agravado por ter sido cometido por motivos raciais, que o Código Penal qualifica como circunstância agravante.
Hoje, no seguimento deste último acontecimento, a dirigente do Bloco de Esquerda Catarina Martins exigiu que a empresa 2045 fosse responsabilizada pelo comportamento criminoso do seu funcionário, pretendendo que o governo lhe retirasse a licença e, na prática, a encerrasse.
Aplicando a mesma lógica ao que aconteceu em 2015, o que acham que deveria ter acontecido ao partido da azougada Catarina?
Refugiados que são imigrantes, imigrantes que são refugiados
O assunto da temporada parece ser a imigração. Já passamos a fase em que o assunto era o asilo político e o refúgio temporário por conflito bélico: agora diz-se simplesmente imigrante. Ao mesmo tempo que se discute a alegada selvajaria da colonização europeia de uma forma homogénea – como se Angola fosse o Congo – e formas de expurgar a culpa dos progressistas de outrora, lida-se bem com a imposição de burkinis nas piscinas escolares do velho continente, tudo com o mesmo à-vontade e certeza que a superioridade moral ateísta permite para cruzadas contra crucifixos nas salas de aula. É sempre bom quando a linguagem mediática se aproxima da realidade, revelando que o que está em questão é o velho ódio leninista ao cristianismo misturado em doses certas com a fajuta urbanidade do cosmopolitismo compartimentado entre os nossos restaurantes e as mesquitas dos pobrezinhos.
Isto não vai acabar bem, mas o problema não é esse, se acaba bem ou mal: o problema é sempre o de se crer que algo se limita a acabar. Os supostos radicais caem todos no erro de anunciar a chegada do fim do mundo: é que o fim do mundo, se chegasse, resolveria todas as questões. O que torna tudo perigoso não é “o mundo acabar”, é ficarem cá aqueles que testemunharão que o fim da História é tão ilusório como o seu início.
Um banco público cheio de sumo
Os imigrantes ilegais
Certo dia a propósito do meu texto sobre o caso do pequeno Alfie, deixaram-me um comentário que tomei em consideração. Dizia, em resumo, que a lei pode ser dura mas que era a lei e assim, os ingleses, sendo cumpridores de leis (ao contrário de nós que só as temos para serem quebradas) podia-se contestar pela mudança da lei mas não pela sua execução. Aplicando este princípio que está certíssimo (pese embora o facto de no meu texto estar a criticar o poder exagerado concedido ao Estado e não a aplicação da lei) a qualquer nação, não podemos entrar em histeria parva só porque os EUA fazem cumprir suas leis fronteiriças. Das duas uma: ou somos sérios naquilo que defendemos ou não o somos.
Todas as nações têm fronteiras e compete a cada um dos países decidir como as quer manter na defesa pela segurança dos seus cidadãos. Ninguém de fora tem o direito de impor seja o que for nesta matéria. Na nossa “casa” mandamos nós ou mandam os vizinhos? Não seja hipócrita e responda com verdade. Você, na sua propriedade, só autoriza a permanência de quem lhe convier e sob regras impostas por si, certo? E também não tem a porta aberta 24 horas por dia acessível a qualquer um, pois não? Está a fazer discriminação positiva, certo? A questão da imigração ilegal é complexa e é precisamente por isso que não pode ser tratada de forma leviana porque põe em risco a vida das pessoas violando um dos princípios básicos da função do Estado: proteger. Tal como na sua casa em que toma medidas como fechar a porta à chave, vedar a propriedade com muros, para proteger sua família de invasões indesejadas e impedir a exposição aos perigos, as leis das nações servem exactamente o mesmo propósito.
Esta semana atacaram violentamente a Presidência actual dos EUA por fazer cumprir a lei existente criada por Clinton, agravada depois por Obama e aplicada por todos. Para justificar a desumanidade da separação de crianças dos acompanhantes adultos, registada em 2018 socorreram-se de imagens tiradas em 2014 durante a administração de Obama (ups!) e fizeram correr uma estória de uma menina das Honduras que fez capa no Times como tendo sido falsamente arrancada da mãe quando na verdade apenas se tratava de uma mulher retida em 2013, fugida do pai das meninas (tinha três) e que usou a mais nova para conseguir entrar com mais facilidade na fronteira sem nunca terem sido separadas. Mesmo depois de devidamente desmentido pela Reuters a nossa SIC continuou a divulgar essas imagens como sendo de 2018. Porquê?
A verdade é que é preciso promover a todo o custo as imigrações ilegais e diabolizar quem se opõe porque há uma agenda política para cumprir. Mas não se explica, porque claro não convém, que a luta dos EUA não é contra os imigrantes (a sociedade americana só é multi-étnica porque promovem a imigração) é contra os ilegais (e quem os promove) que assaltam o país pelas suas fronteiras e invadem a sociedade americana de criminosos como o gangue MS-13 responsável por atrocidades indescritíveis espalhando terror e a quem Trump classificou, e muito bem, de “animais” para “horror” dos democratas. Basta analisar as declarações de Clinton, Obama, Hillary e Trump para verificar que todos estão em sintonia sobre esta matéria. Todos querem que a imigração positiva siga seus trâmites legais. Algum problema nisso? Parece que sim.
Os EUA não querem ser uma Europa que já conta com muitos países a braços com problemas sérios de invasão em curso onde só em França, por exemplo a população islâmica já representa 15% da população total e conta com 1500 zonas interditas as “no-go zones”. Dá que pensar.
Devemos aceitar imigração? Claro que sim. Mas sem desrespeito pelos cidadãos que já vivem nesses países. Dito e muito bem dito, por Obama em 2005: “Aqueles que entram ilegalmente no país e aqueles que os empregam desrespeitam o estado de direito. Eles estão mostrando desrespeito por aqueles que estão seguindo a lei. Nós simplesmente não podemos permitir que pessoas entrem nos Estados Unidos sem serem detectadas, não documentadas, sem controle e contornando a linha de pessoas que pacientemente e legalmente se tornem imigrantes.” Alguém arrisca contestar esta declaração? Claro que não. Porque foi dita por… Obama.
notícias sobre o novo psl
Fiquei tão entusiasmado com o anúncio de que Pedro Santana Lopes vai criar um novo partido, que fui imediatamente comprar os jornais para ler as notícias.

A mistificação
Esta notícia é uma mistificação: m zonas de Lisboa, como Benfica, onde não existe turista algum, o lixo amontoa-se. Não é a pressão turística que faz crescer o lixo (aliás será interessante comparar a produção de lixo por parte dos turistas coma dos residentes) mas sim a incapacidade da CML para fazer com que os serviços de recolha do lixo recolham o lixo.
sobre santana lopes
É o tipo que mais vezes anunciou que ia fazer um partido sem ter feito nenhum, e que mais vezes ia desfazendo um que ele não fez.
A sério que não pode?
Alguém consegue explicar porque não pode Cristiano Ronaldo ser candidato a PR? Então não somos todos iguais?
O “interior profundo”
Não o compreendi imediatamente, daí que tenha estranhado que o familiar de um familiar que serviria de guia na minha visita adolescente a Paris tivesse dúvidas se a Torre Eiffel se situava na margem norte ou sul do Sena. Um homem que, vivendo há 40 anos em Paris, não sabe exactamente onde fica o elemento arquitectónico mais famoso da cidade? Depois comecei a pensar: ele dizia viver em Paris, mas, na realidade, vivia em Noisy-le-Grand, a 23 km este da Torre Eiffel; isto é como se um tipo que vive em Lavra, Matosinhos, disser que é do Porto, o que está bem.
Os quarenta anos “de Paris” foram passados a carregar baldes de argamassa, não a fazer turismo. “É só uma torre, diz que é bonita, é porque é. Vem gente de fora ver isto. Bonito, para mim, é Amarante, não é isto”.
Sempre que se menciona “o interior profundo”, fico sem saber o que isso é. Quantas pessoas de Alfama não vêem a Torre de Belém há mais de dez, vinte, trinta anos? O que é o “interior profundo”? É o empresário da Guarda com um BMW 730 que consegue passar uma noite tranquila e chegar a Aveiro ou Porto às nove da manhã? Ou será a velhota de vestes pretas em São Pedro da Cova que uma vez na vida viu a Torre dos Clérigos por contingência da cirurgia realizada no Hospital de Santo António há já muitos anos?
Não sei se será cegueira ou inconsciência, mas qualquer cosmopolita dos que opina sobre “o interior profundo”, por muito pitoresco que o possa achar, não precisa mais que uma voltinha por partes da sua própria cidade, sem sequer necessitar sujar-se nos subúrbios, para o encontrar. Temo é que, quando o encontrar, não o saiba reconhecer.
Ah esqueci-me
… acham que o demagogo do Trump vai desatar a falar sobre o Mundial de Futebol com o nosso Presidente? Quiçá a fazer comentário dos jogos e fazer até de conta que é um treinador a desenhar estratégias de jogo?.. Deve ser realmente um tremendo embaraço para o professor Marcelo Rebelo de Sousa ver-se em tal situação.
Já agora se o Trump confundir Portugal com Espanha e perguntar pelo nosso muro em Ceuta e Melilha sugiro que o nosso Presidente diga que aquilo não é um muro para separar pessoas mas sim uma instalação artística que visa promover o diálogo. É um fake muro.
Se bem percebo
o país mediático está angustiado com a possibilidade de o presidente dos EUA optar por manifestar os seus afectos, romper o protocolo, ser genuíno, ser ele mesmo quiçá desatar a cantar ou dançar… enfim copiar o estilo do nosso presidente.
Imobiliária Janus

No debate parlamentar da semana passada António Costa acusou Assunção Cristas de ter provocado uma calamidade no país com a lei do arrendamento de 2012. É uma afirmação bastante dura que me deixa ligeiramente confuso. Por um lado, como sabemos, a primeira coisa que António Costa faz quando uma calamidade se abate sobre o país é ir de férias para Espanha – e eu não me lembro que tenha feito alguma viagem quando a legislação de Assunção Cristas foi aprovada; por outro lado, como também sabemos, a estratégia seguida por António Costa diante de uma calamidade é não fazer nada até que ocorra uma segunda – e esse princípio parece estar a ser cumprido neste caso, uma vez que este Governo está em funções desde 2015 e ainda não tocou nos aspectos essenciais dos diplomas em causa. Os sinais são, por isso, contraditórios: a ausência de repouso no estrangeiro afasta a hipótese de ter ocorrido uma catástrofe, mas a presença de repouso nos gabinetes ministeriais sustenta o cenário mais sombrio.
Se o nosso primeiro-ministro fosse praticante da arte do descaramento, atrevia-me a dizer que estamos na presença de jogo duplo: enquanto se aproveita dos múltiplos benefícios da lei (fim da expropriação encapotada dos proprietários, reabilitação das cidades, promoção do investimento, renascimento da construção civil, fomento do turismo, crescimento económico, redução do desemprego, etc.), trata de empurrar para terceiros as responsabilidade pelas suas consequências negativas. É sempre uma boa estratégia. Ainda ontem, quando descobri que o miúdo tinha conseguido, depois do cocó vespertino, arrancar a própria fralda, me virei para a minha mulher, com cara de enjoo, e atirei: “já viste o que o TEU filho fez?” Infelizmente, o sentido ético de António Costa não lhe permite estas jogadas rasteiras, o que complica em muito o desempenho do cargo. Esperemos, para seu bem, que nunca lhe faltem os toalhetes.
Como um traficante de pessoas em Marrocos explica o seu trabalho: «Todo depende del presupuesto. Por 7.000 dirhams (631 euros) organizo convoys hacia Europa, con todo el material necesario para navegar (se refiere a una toy para siete personas y cámaras de neumático o chalecos de juguete a modo de salvavidas), seguridad a pie de playa y un mafia taxi que los deja al borde de la playa. A partir de ahí yo le voy indicando al grupo cómo deben actuar para que consigan tocar el agua. Después les digo que esperen 30 minutos, hasta que salgan de las aguas marroquíes, para avisar a Salvamento Marítimo».
Em resumo ele coloca as pessoas num caixão flutuante em aǵuas marroquinas e depois avisa as autoridades espanholas para as irem salvar.
por muitos e bons anos

Entre a edição do meu último post, há um par de horas, e este que agora publico, fui jantar com a minha filha, e, durante o repasto, recebi a notícia de que Bruno de Carvalho, nem 24 horas depois de suspender vitaliciamente a sua condição de sócio, anunciou a sua candidatura a presidente do Sporting! Já me tinha causado alguma estranheza essa figura jurídica da «suspensão vitalícia», que Carvalho tinha ontem anunciado. Uma suspensão indicia sempre um possível retorno, mas o termo «vitalício» fez-me lembrar o inesquecível «irrevogável» do dr. Portas, um outro grande artista português de variedades, cuja ausência muito se tem sentido. Fiquei então ciente de que Bruno regressaria, para gaudio de nós todos, alegria da pátria e, principalmente, para a boa saúde financeira do Correio da Manhã e do grupo Cofina. Mas o que não poderia prever é que ele regressaria antes mesmo de nos ter deixado, o que constitui um novo paradoxo nacional. Mas foi o que ele fez. Exactamente enquanto a minha filha comia meio frango de churrasco e eu aviava uma bela posta de bacalhau à lagareiro.
Pois bem. É uma verdadeira deslealdade para todos os comediantes profissionais uma instituição oferecer-nos, ainda que generosa e desinteressadamente, um património desta riqueza: um mafioso de urinol como o Bruno de Carvalho, um substituto que esmigalha vidros de carros de luxo com garrafas de água, um Sobrinho que se tem de enfiar nas retretes para não levar no focinho, a oratória do “Jasus”, um ataque do Daesh indígena para dinamitar o seu próprio património, Santana Lopes, um banqueiro falido a explicar como se gerem empresas, um treinador nazi, o Octávio Machado, Marta Soares, Ferro-caga-para-o-segredo-de-justiça-Rodrigues, os chineses do Futre, eu sei lá!
Há uns dias escrevi que o Sporting era um «um saco de lacraus». Foi um injustiça. É apenas uma troupe circense que não desiste de nos divertir. Que Deus Nosso Senhor os poupe por muitos e bons anos.
um outro nível

Quando pensava que nos íamos deixar de divertir com o Sporting, julgando que o clube passaria a ser dirigido por um tipo focinhudo e sem graça, como o Sobrinho ou o Ricciardi, tenho de confessar que me enganei: o regresso do saudoso Sousa Cintra, cuja entrevista à TSF, interrompida por um «lapso» com uma garrafa de água, ficará para sempre nos anais da comédia, é a garantia de que novos e melhores dias aí virão. Não deixando por mãos alheias os seus créditos, Cintra começou já hoje a prestar declarações públicas: “Aqueles que saíram, acho que bem possam voltar”, disse sobre os jogadores desertores. Soubesse eu disto há mais tempo e não teria senão apelado à defenestração leonina de Bruno de Carvalho. É que isto é um outro nível de comédia.
Parem com essas lágrimas de crocodilo!
Perdoem-me mas é absolutamente insuportável ouvir certas figuras políticas falar sobre a tragédia de Pedrógão Grande! Com ar sério fingindo-se preocupados e emocionados com aquele fatídico dia vêm passados 365 dias dizer alarvidades como se os portugueses fossem um bando de estúpidos sem qualquer capacidade de análise. Continuamos com o mesmo SIRESP apenas com umas “melhorias” e com a mesmas cláusulas vergonhosas que desresponsabilizam em caso de catástrofe; continuamos com 60% de casas por reconstruir; continuamos com vítimas sem água nem luz nem apoio psicológico; continuamos com os mesmos “boys” incompetentes na ANPC; continuamos em meados de Junho sem prazo de entrega de viaturas à GIPS e GNR para combates a fogos; continuamos sem saber onde estão os donativos; continuamos sem saber porque o Estado compra mais 4 Kamov por ajuste directo depois da experiência desastrosa com esse equipamento; continuamos sem saber porque o Estado ainda não foi formalmente acusado por negligência depois de três inquéritos independentes que o comprovam. Francamente!
Como se isto já não bastasse vem o Primeiro Ministro afirmar que “Portugal devia ter estado mais alerta a tempo e horas para evitar Pedrógão” quando foi ele próprio como ministro da Administração Interna que fragilizou o SIRESP alterando clausulas para diminuir custos. Foi seu comparsa Lacerda Machado o autor do brilhante texto que transformou o SIRESP naquilo que ele é hoje – uma nulidade absoluta – com a colaboração de Constança Urbano!! Foi ele também que acabou com os guardas florestais! Foi ele que já primeiro ministro autorizou que gente sem qualquer habilitação para o cargo – professores do ensino básico, advogados, licenciados em Desporto e Lazer, enfermeiros – integrasse as chefias do ANPC. Foi ele que fez os negócios ruinosos dos Kamov. Foi ele também que rumou para Ibiza enquanto Portugal ardia e morria gente e no regresso foi a correr fazer um Focus Group para avaliar sua popularidade e vem agora dizer que se podia ter evitado Pedrógão como se a culpa fosse dos proprietários dos terrenos que ele fez o favor de perseguir em vez de ajudar?! É preciso realmente fazer de nós todos parvos.
Por outro lado, Marcelo sempre politicamente correcto, a deixar a mensagem outra vez que tudo foi feito – claro, até os políticos foram roçar mato, coisa nunca antes vista – que todos manifestaram empenho e fizeram tudo o que era possível (e de facto o empenho foi tão grande que há bens e dinheiro doados sem controlo nenhum e até perderam rasto a donativos). Que “Houve um Portugal metropolitano que acordou para os “Portugais” desconhecidos, os “Portugais” do interior, que são vários. Começou a acordar em Junho e depois continuou a acordar em Outubro”. A sério?!! Como acordar se nunca dormiram sobre o assunto? O abandono do interior é um facto perpetuado ao longo de décadas por não trazer votos. Todos sabemos que poderá continuar a arder, poderá continuar a despovoar, que o abandono às gentes do interior não vai acabar. Porque aos olhos dos políticos, quem não compensa eleitoralmente é simplesmente ignorado. Vão mas é mentir para longe!
Entretanto, a lista de arguidos de Pedrógão que não pára de crescer, não tem um único político ligado ao governo, como muito convém. Nem mesmo Valdemar Alves, o Presidente da Câmara de Pedrógão Grande durante a tragédia faz parte dela como deveria. Esse, quase que por “milagre”, livrou-se de boa ao contrário dos outros autarcas. Há gente com “sorte”.
Se tudo está a ser feito é no sentido contrário ao que deveria ser. É para encobrir quem de facto teve responsabilidade e incriminar apenas a arraia-miúda. Arrastar depois o processo até entrar no esquecimento com uma condenaçãozita sem importância nenhuma. Fingir depois que nunca se fez tanto pela prevenção e combate aos fogos quando na verdade estão apenas a aplicar as mesmas fórmulas desastrosas com cosmética. Para depois, caso se registe nova tragédia, com lágrimas de crocodilo no canto do olho, dizer: “fizemos tudo mas as alterações climáticas, os eucaliptos, os raios, os proprietários com as matas por limpar, são culpados”. Outra vez. Eles? Nunca têm culpa de nada.
A política da miragem
Comércio e o interesse nacional

Se Adam Smith desmontou já há muito tempo a visão mercantilista sobre o comércio internacional, talvez o título da sua obra mais conhecida não seja o mais feliz para que se perceba que as trocas comerciais se fazem entre indivíduos e organizações e não entre países ou nações.
Não é Portugal que exporta para Inglaterra ou Portugal que importa de Espanha. Não são os países enquanto entidades abstractas que têm preferências, gostos ou que tomam decisões sobre os produtos a comprar e vender. Só indivíduos ou entidades que se organizam de forma intencional, planeada e segundo regras próprias de comando em torno de desejos e objectivos comuns (empresas ou organismos do estado, pex) têm relevância económica para análise da acção humana.
A sociedade (ou economia, se se preferir o termo), mais não é do que o conjunto não planeado das interacções entre estes agentes.
Ora, neste pressuposto, resulta obtuso que se possa tomar como desequilibrado ou pernicioso o agregado de trocas comerciais voluntárias e, portanto, mutuamente benéficas entre agentes individualmente considerados.
Dito de outro modo: se os agentes económicos consideram que para melhorar a sua condição económica é do seu interesse importar mais do que exportar, por que razão o conjunto de todas estas interações há de ser considerado prejudicial para o país?
Os sistemas contabilísticos e em particular o recurso à análise da balança de pagamentos não nos deve desviar da realidade económica que lhe está subjacente. Os países não perdem nem ganham com o comércio internacional. Isso só se verifica ao nível dos indivíduos e dos agentes económicos. E é cada uma destas unidades que tem de gerir os seus orçamentos e responder pelas suas escolhas económicas.
Se não tivermos isto presente é porque partilhamos o ideal colectivista de atribuir maior importância à “nação” do que ao indivíduo. Só assim se poderá justificar a defesa da intervenção estatal no sentido de alterar ou “corrigir” os padrões de consumo e a livre gestão dos recursos próprios dos indivíduos.
Mas, em termos económicos, o “interesse nacional” existe? Ou o que existe é o interesse de cada uma das pessoas concretas que vive num espaço comum delineado por fronteiras a que chamamos habitualmente de “país”?
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dívida pública para totós

Despesa pública é aquilo que o estado gasta para desempenhar e suportar um conjunto de actividades e funções que entende só poderem ser desempenhadas por si (segurança, justiça, educação, segurança social, etc.).
Dívida pública é a quantidade de dinheiro que, entre despesas e receitas do estado, fica por pagar. Aqui há a considerar as despesas correntes do ano e as despesas com o passivo, isto é, com a dívida acumulada. Esta, por sua vez, é aquilo que o estado deixou de pagar ao longo dos anos.
Como o estado não é produtivo e, inclusivamente, destrói, com reiterada frequência, recursos que poderiam ser muito melhor geridos (veja-se, por exemplo, o relatório deste ano da Gulbenkian sobre o SNS) por uma entidade cuja finalidade fosse o lucro e não, por exemplo, a retribuição de favores partidários (veja-se, de novo, o citado relatório…), suscita-se o seguinte problema: donde lhe vem o dinheiro para pagar a sua despesa?
Quando os estados fabricavam moeda, o recurso habitual para suportar o aumento da dívida era pintar com cores garridas folhas de papel em branco e dar-lhes o nome de «dinheiro». A consequência imediata disso era a inflação, um processo normal de correcção do mercado pelo qual os produtores ajustam o valor de venda dos seus produtos ao valor (real) de mercado das unidades monetárias de troca. Bastaria conhecer um pouco de História Medieval para saber que «a quebra da moeda» nunca dá bons resultados. Mas, infelizmente, os governantes têm pouco tempo para ler História.
Em situação de desespero, alguns países fabricantes de moeda de fraca qualidade optavam por uma segunda medida «correctora» das «injustiças» económicas: tabelar os preços. Resultado? Falência dos produtores, que não conseguiam receita para suportar os custos da actividade, ou desvio de investimento de capital produtivo para países que permitissem uma melhor remuneração dos investimentos. Também a História ensina que, pelo menos desde o «máximo» da Revolução Francesa, essas medidas só servem para destruir um país.
Como, felizmente, já nada disto é possível (e, verdadeiramente, no plano dos resultados, nunca o foi…) em países civilizados, por exemplo, os que pertencem à União Europeia, o dinheiro para sustentar a conta dos estados tem de vir, necessariamente, numa percentagem esmagadora, dos impostos cobrados aos cidadãos e às suas empresas.
E donde vem este dinheiro cobrado pelo estado aos particulares? Do seu trabalho, da sua poupança e do investimento produtivo que fazem, obviamente, se valer a pena investir, isto é, se tiverem uma perspectiva de estabilidade económica e de obterem lucro. Pelo que qualquer governo minimamente racional tudo fará para que estes possam ganhar muito dinheiro e desenvolver as suas actividades produtivas.
Ora isto é o exacto contrário do aumento de impostos, das medidas que restringem as actividades económicas dos indivíduos e das empresas, em suma, de um clima económico incerto e inseguro para os investidores e para os que querem ganhar dinheiro com o esforço do seu trabalho e/ou das suas poupanças.
A solução que o governo do PS, com o Bloco e o PCP, apresentaram ao país, no início da legislatura, foi outra: ir buscar mais dinheiro aos contribuintes que ainda o têm e dá-lo a quem tem menos, para aumentar o consumo interno e, assim, desenvolver a economia. Só que nem esse dinheiro cobrado a mais foi entregue a quem tem menos (vd. os ridículos aumentos de pensões e salários do estado), nem o sofrível crescimento económico dos últimos anos lhe foi devido. Pelo contrário, ele resultou, essencialmente, de reformas do governo de Pedro Passos Coelho feitas sobre o imobiliário e o arrendamento, que transformaram essas actividades em actividades lucrativas, o que permitiu fazer renascer a construção civil, e, com isso, ganhar capacidade para receber turistas em grande quantidade, e desenvolver a restauração, a hotelaria, e aumentar a compra de imóveis e de produtos nacionais, etc.. E quais têm sido os resultados das novas medidas tributárias do actual governo: menos dinheiro no bolso dos portugueses ficarem para que eles possam poupar e investir.
Pois bem, quando ficamos a saber que a dívida pública portuguesa continua a subir exponencialmente e que o governo actual está a criar entraves ao arrendamento e aos negócios turísticos que têm sustentado o país, é de adivinhar o quê? Um enorme estoiro, a prazo, e o regresso do FMI. Preparem-se, pois então.
A táctica do costume
Como reage o socialismo-estatista quando um serviço público se degrada? Põe-se a discutir leis mais que perfeitas que garantem direitos mais direitos. Tudo gratuito, evidentemente. E sempre com os privados a serem apresentados como o inimigo a combater.
Começa esta sexta-feira o debate para mudar lei de bases da saúde
Futebol cirúrgico

Acompanhar as participações da Selecção Nacional nos grandes torneios é assistir em tempo real à forma como se desenvolve um paradoxo. Sou do tempo em que os portugueses se entretinham a debater, e até a celebrar, vitórias morais. A equipa perdia o jogo mas, dado o extraordinário desempenho durante os 90 minutos, era como se tivesse ganho. Entretanto, durante o Europeu de 2016, perante uma sucessão interminável de empates que nos conduziram à inédita taça, franzimos o sobrolho com o orgulho ofendido. E agora, perante vitórias como a que foi alcançada contra Marrocos, soltamos doses cavalares de azedume e de desgosto pela prestação dos jogadores. As saudades que temos da época do “jogar como nunca, perder como sempre” levaram-nos a fechar o círculo e a substituir as vitórias morais pelas derrotas morais, desfrutando do futebol na óptica do bloco operatório: quanto mais pontos, maior a cicatriz. É possível que nem o troféu mundial nos livre da depressão que se está a instalar.
A guerra: imigrantes e cultura

Ao escrever algo quando um tema está “ao rubro” na opinião pública corre-se o risco de os argumentos que se elaborem, mais do que nunca, serem treslidos, hiperbolizados, distorcidos ou pura e simplesmente ignorados. É difícil manter uma conversa intelectualmente honesta. Rapidamente se resvala para o plano pessoal e a catalogação dos intervenientes de acordo com estereótipos e caricaturas pré-estabelecidas.
Relativamente à questão da imigração ainda não percebi se os principais receios são de natureza cultural ou económica. É que quando se argumenta sobre a questão cultural, logo se contra-argumenta com a questão económica (ou vice-versa).
A objecção cultural que se vai observando por aí fica a dever-se ao facto de os imigrantes serem:
- Islâmicos?
- Pretos?
- Islâmicos e pretos?
Ou será por quererem alterar o nosso modo de vida, os valores europeus e minar a sociedade tal como ainda a vivemos hoje em dia?
De acordo com a objecção cultural, a recusa de entrada de imigrantes deve ser aplicada a que grupos de pessoas?
- A islâmicos?
- A pretos?
- A pretos islâmicos?
E esse não-acesso deve ser aplicado a todos os desse grupo? Ou há um número pré-definido de imigrantes que podem ser aceites?
Que tratamento dar a gente que queira alterar o nosso modo de vida, os valores europeus e minar a sociedade tal como ainda a vivemos hoje em dia, mas que já cá estejam dentro? Comunistas e Bloquistas devem ser expulsos de Portugal? O Pablo Iglesias ou o Varoufakis podem imigrar para cá?
Aos imigrantes deve ser vedado o direito de voto por forma a que não possam ter influência directa na escolha de políticas públicas?
Quem e de que modo se avaliam os critérios culturais acima mencionados para cada pessoa que queira entrar? O Estado através da discricionariedade de funcionários públicos? Se é fácil perceber quem é preto e quem é branco, que tratamento dar a mestiços? Vai-se perguntar que religião professa cada imigrante? Presume-se que as respostas que forem dadas sejam verdadeiras? Quem define o número de pessoas a entrar, o governo?
Devem ser colocadas a referendo estas questões? A Assembleia da República ou o Governo estão legitimados politicamente para tomar decisões nesta matéria?
Com base em que argumento moral se funda a objecção cultural à entrada de imigrantes?
Estas são algumas questões que não tenho visto serem respondidas com clareza e isso ajudaria à reflexão sobre o tema. Sei que o problema é complexo e nenhum de nós tem obrigação de ter a solução milagrosa para o assunto.
Todavia, será dispensável atribuir segundas intenções a estas minhas dúvidas, dizendo que estou a contribuir para o branqueamento do Islão, a defender o multiculturalismo ou a ceder a argumentos politicamente correctos. Não dou para esse peditório!
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A ler
Do casamento
Há poucos livros que me tenham marcado mais do que o Selfish Gene. Não pelo que lá está escrito, mas por todas as implicações do que lá vem para a forma como se percebe as instituições e os sistemas de valores, fugindo às amarras do pensamento reinante.
Por exemplo, o casamento. Porque é que o casamento, nas suas mais diversas formas, surgiu em todas as sociedades actuais de forma espontânea? Terá sido coincidência? Não, simplesmente as sociedades que não descobriram a instituição não sobreviveram para entrar nas estatísticas. O casamento é tão essencial porque a humanidade passou a esmagadora maioria da sua história com taxas de mortalidade infantil extremamente elevadas. Não precisamos de ir muito longe: há 200 anos, metade das crianças nascidas na Europa morriam antes de chegar ao primeiro aniversário. Se andarmos mais para trás na história da humanidade, as taxas são ainda mais elevadas. Nós hoje habituámo-nos a associar as taxas de mortalidade infantil ao rendimento dos pais, mas em grande parte da história da humanidade as diferenças de rendimento eram escassas. O verdadeiro determinante nas possibilidades de sobrevivência das crianças era o número de pais que providenciavam por eles. Ou dito de outra forma, se o pai ficava ou não a ajudar a mãe a tratar da criança. Problema: existia um forte desequilíbrio de forças e assimetria de informação entre homens e mulheres. A mulher fazia um investimento inicial bastante maior na concepção da criança (gravidez, amamentação, etc) e tinha, ao longo da vida uma capacidade reprodutiva mais limitada que o homem. Ao mesmo tempo, a mulher era a única a ter a certeza de que uma criança nascida era mesmo sua filha. Os incentivos da mulher eram de copular com o homem que tivesse os melhores genes e convencer um homem (qualquer um) a cuidar da criança como sua. Por outro lado, o homem tinha uma capacidade reprodutiva virtualmente ilimitada, mas nunca poderia saber ao certo se um filho era seu. Os incentivos do homem eram de copular com o maior número possível de mulheres e deixá-las sozinhas a cuidar dos filhos (mesmo com uma taxa de sobrevivência mais baixa, a possibilidade de ter mais filhos compensaria). Sem sequer ter a certeza se o filho era seu, o homem tinha poucos incentivos a gastar energias providenciando para aquelas crianças. Sem a instituição casamento, teríamos uma sociedade de mães sozinhas e homens que tudo o que faziam era guerriar-se pela possibilidade de copular com o maior número de mulheres possível. O casamento surgiu como forma de resolver esse problema. A mulher obrigava-se a ser fiel ao marido e o homem obrigava-se a providenciar pela mulher e pelos filhos daquele casamento. Em muitas culturas, ainda hoje, o pior crime que uma mulher pode cometer é ser infiel e há menos de meio século um homem em Portugal estava autorizado a assassinar a mulher se a encontrasse em flagrante infidelidade. A própria subserviência histórica da mulher e a clausura do lar resultava em parte disso: dar uma garantia ao homem que o contrato de casamento era cumprido. Mesmo culturas que aceitaram a poligamia, fizeram-no no pressuposto de que o homem teria que providenciar por todas as mulheres. A Poliandria não existe em nenhuma sociedade relevante, e nos nichos em que existe normalmente a mulher é partilhada entre irmãos (que tem implicações em termos de propagação de genes diferente).
Recentemente, várias instituições sobrepuseram-se ao casamento nesta função de garantir a sobrevivência das crianças. Embore continue a existir uma diferença de mortalidade infantil entre crianças em famílias monoparentais e com dois pais, a taxa é tão baixa que hoje o risco é considerado quase nulo. Com a maior esperança de vida, há muitas pessoas que se casam sem intenções de ter filhos ou já impossibilitadas de os ter. A inutilidade do casamento ficou definitivamente demonstrada quando a infidelidade deixou de ter efeitos legais e o divórcio unilateral passou a ser possível. Quebraram-se assim os dois pressupostos principais da instituição casamento: a fidelidade da mulher (que se tornou irrelevante depois de surgidos os testes de paternidade) e o compromisso do homem (que, ainda assim, se ainda vai vendo com as pensões de alimentos nos divórcios). Ou seja, a instituição casamento acabou. É hoje pouco mais do que um acordo civil de partilha de activos entre duas pessoas. Não faz por isso nenhum sentido que um tipo de contrato civil esteja vedado a duas pessoas do mesmo sexo (ou três, quatro ou cinco pessoas de qualquer sexo). É contraditório dizer que se defende o casamento tradicional e não ser contra a existência de divórcio, a punição legal da infidelidade, o casamento entre inférteis ou todas as outras combinações que afastam o casamento da sua versão original, quando era uma instituição essencial à sobreviência da sociedade. Quem o fizer está a cair na contradição de defender a existência de algo que na verdade, por outras vias, já há muito aceitou que não existia.
Assassinos de Bom Coração
A Quarta Vaga de Emigração Cubana ficou conhecida como Crise dos Balseros. Em 1994, milhares de cubanos arriscaram a vida em minúsculas e precárias embarcações, as balsas, com o objectivo de alcançar a costa da Florida. A crise durou algumas semanas e durante esses dias centenas de cubanos desapareceram no mar.
A debandada terminou quando as autoridades americanas, cumprindo ameaças anteriores, decidiram transportar de volta à ilha todos os imigrantes encontrados no mar. A razão dessa recusa em aceitar os migrantes nada teve a ver com políticas de imigração. A situação de debandada da Cuba socialista para a América capitalista era uma robusta demonstração da falência do socialismo, mais efetiva que mil discursos, debates ou artigos de opinião. A razão pela qual os EUA devolveram os emigrantes a Cuba foi apenas uma: era preciso que a torrente estancasse. Enquanto os candidatos a balseros acreditassem que a probabilidade de sucesso era significativa, continuariam a arriscar a vida no mar. O que o presidente Clinton fez na altura foi erigir um muro no Estreito da Florida.
O que se passa actualmente no mediterrâneo mostra que a lição não foi aprendida. A única política que poderá por termo à mortandade no mar é a Tolerância Zero. Todos os imigrantes devem ser recolhidos e salvos do mar, mas de imediato devolvidos ao país de origem. Só quando a convicção generalizada nos países emissores for que a probabilidade de sucesso é nula é que o Mediterrâneo deixará de ser um cemitério.
Repare-se na hipocrisia ocidental: fecham-se os aeroportos aos imigrantes, mas se eles se atiram ao mar em barcaças recebemo-los de braços abertos. E ainda lhes oferecemos dinheiro e diz-se em voz alta que são bem-vindos. A mensagem que chega aos países de origem é clara: A única forma de chegar ao El Dorado é arriscar a vida no mar.
A opção de Pedro Sanchez em receber os imigrantes em Valência com discursos de bom samaritano pode parecer humanista, mas é criminosa. Se Pedro Sanchez quer que a Espanha receba os imigrantes, dê-lhes um visto e receba-os em Barajas. Assim, é só hipocrisia e incentivo à tragédia.

Poesias

Tenho passado os últimos dias ensarilhado numa avaliação de danos. O móbil da reflexão é o cumprimento de promessas, não daquelas em que uma pessoa resolve ir a Fátima a pé sem incomodar ninguém, mas de um outro tipo muito mais problemático, mais ou menos como se alguém se comprometesse com Deus a ir a Fátima às minhas cavalitas. Mas, como diria o barbeiro Sweeney Todd, vamos por partes.
De acordo com as notícias o Governo prometeu aos professores contabilizar, para efeitos de progressão e de salário, todos os anos de congelamento das carreiras. Posteriormente, talvez por intervenção de um daqueles chatos do ministério das finanças que sabem fazer contas, declarou que só há verbas para assumir uma pequena parte desse período de tempo e rematou o assunto com um sonoro “não há dinheiro”. Eis então que, quando julgava o assunto gasparianamente encerrado, surge o PSD a reclamar que “o prometido é devido”, transformando a questão num embate entre a poesia lírica de Rui Veloso e a poesia tísica de Vítor Gaspar. Soubesse António Costa desta preocupação social-democrata com a efectivação dos compromissos socialistas e teria inscrito no seu programa eleitoral que a limpeza do gabinete de Rui Rio seria da responsabilidade dos Super Dragões.
A pergunta que me coloquei, no âmbito da avaliação de danos acima referida, foi bastante simples. Na verdade, o que interessa neste momento é optar entre a credibilidade dos governantes e a saúde das contas públicas. Por outras palavras: é melhor o Governo falhar a promessa que fez aos professores e diminuir desta forma a confiança que os eleitores têm na política, ou é preferível o Governo cumprir a promessa que fez aos professores e diminuir desta forma os euros que os contribuintes têm na carteira? Na dúvida, fui à mercearia e perguntei à D. Rosa se podia pagar os legumes e a fruta com confiança, ao que ela me respondeu que preferia fazer a transacção em euros. Desconfio que, para a senhora, pior do que um político que não cumpre as promessas só mesmo um político que as cumpre. Quanto a mim, já decidi: ou o PSD tem géneros alimentícios para me colocar na mesa sem recurso ao vil metal ou então acho preferível evitarmos o regresso ao descalabro de 2011.
Mais um ataque da poderosa indústria do automóvel
Droga, loucura, morte: campanha oficial ou marketing?
Publiquei no Observador um artigo sobre o consumo de drogas em Portugal nos anos 70.
O título do filme em português aproveitou a campanha oficial de combate às drogas ou foi tudo publicidade ao filme? Alguém se lembra disto?
É muito querer!!!!
Iniciativa Azeiteira
Uma das perguntas que me acorda no Verão é se a bandeira portuguesa pode ser mais azeiteira. Hoje acordei com esta imagem, o que deve responder definitivamente a questão: a partir de agora, não, não é possível azeiteirar mais a bandeira.

Houve uma marcha cujo objectivo parece ser exigir amor. Eles dirão respeito, mas quem não se dá ao respeito pela opinião dos outros exigindo o fim da nãoseiquêfobia lida é mal com as suas opções. Querem é a bênção. Eu dou-vos a bênção, meus filhos, podeis continuar a azeiteirar como bem entenderdes nessa menopausa cultural.
E se fosse Barack Obama?
Compreendo que seja difícil reconhecer mérito em alguém que se odeia e em que se apostava que iria arruinar o Mundo com sua loucura, narcisismo e prepotência (sim, ele tem isso tudo). Mas uma coisa é não gostar da pessoa Trump outra coisa é não admitir a eficácia dos seus métodos para conquistar a paz mundial. Dizer-se que foi mérito da China, que foi desespero de Trump (esta foi hilariante!), que foi a Coreia que vergou os EUA (com esta ainda não parei de rir!), que Kim chega numa posição de força melhor que a do Trump como afirmou Miguel Sousa Tavares (valha-me Deus!), que a ideia de paz nem sequer foi dele, é de uma desonestidade intelectual sem limites. Os factos não mentem e é só preciso lê-los com seriedade.
O episódio que culminou neste momento histórico do aperto de mãos entre EUA e Coreia do Norte, foi a posição severa e intransigente de Trump em relação Kim Jong-un quando num ultimato que todos se apressaram a classificar de louco e irresponsável, e que provocaria a III Guerra Mundial, Trump avisava que se o “rocket man” não parasse de fazer experiências com mísseis nucleares, faria desaparecer a Coreia do Norte do mapa! Foi esta posição impopular, politicamente incorrecta que foi decisiva na mudança de planos de Kim. Nunca ninguém tinha tido a coragem de se dirigir a esse pequeno ditador coreano desta forma. De “diálogos em diálogos” o menino mimado que se achava acima de qualquer acordo, brincava aos poderosos provocando o Ocidente. O ódio aos EUA ensinado nas escolas era o combustível que alimentava a loucura de Kim. Até ao dia em que outro louco como ele o enfrentou, sem medo. Kim Jong-un ainda testou Trump com mais uns lançamentos para fingir que era um “poderoso destemido” e estava preparado para “destruir os EUA”. Mas quando Trump imediatamente endureceu as ameaças e fez avanços de tropas para posições estratégicas. Kim recuou e cedeu. Todos assistimos a isto. Porque negar?
Não foi a China nem a Coreia do Sul que pararam a loucura de Kim. Foi o bluff de Trump que resultou na perfeição. Porque o poder começa no indivíduo e só depois acaba no governo. Se Trump não tivesse sido credível na sua determinação, jamais teríamos assistido a esta viragem clara na união das Coreias e desarmamento nuclear. A própria Coreia do Sul o reconheceu.
Tal como Trump, Reagan no passado, igualmente com um bluff bem montado de que iria dar início a um projecto de Iniciativa de Defesa Estratégica – um sistema defensivo com mísseis colocado no espaço que asseguraria que nenhum míssil disparado pela URSS atingisse os EUA – numa altura em que o império socialista se estava a desmoronar por falência económica, conseguiu pôr fim à Guerra Fria que ameaçava o mundo. Mikhail Gorbachev, tal como Kim, consciente da sua incapacidade para fazer frente aos EUA, cedia. Curiosamente, porque a nossa História tem destas coisas, foi Gorbachev (o líder comunista que cedeu à pressão) e não Reagan, que recebeu o prémio Nobel da Paz por “ter posto fim” à Guerra Fria. Ironias.
Não tenho qualquer dúvida que se mudássemos de protagonistas nesta história e tivesse sido o Obama a conseguir igual feito, o Mundo inteiro iria render-se aos seus pés. As televisões iriam fazer directos, ao minuto, a acompanhar cada movimento do Presidente, cada palavra, cada expressão. Qualquer coisa por muito insignificante iria ser enaltecida e o momento comentado em mais de uma hora de telejornal, durante vários dias, várias semanas até, com todos os comentadores televisivos histéricos a bater palmas dizendo que nunca se vira nada igual: EUA a apertar as mãos à Coreia do Norte e esta em simultâneo à Coreia do Sul até agora desunida! Mas não. Tinha de ser o Trump, o homem mais odiado do planeta a conseguir o que não foi conseguido em 70 anos. Logo é preciso desvalorizar.
Curiosamente também, Obama não precisou senão de belos discursos visionários por um mundo livre de armas nucleares para ganhar um Nobel da Paz, em 2009, com menos de 9 meses de presidência e sua candidatura entregue à tangente a menos de um mês depois de assumir o cargo. Ou seja, foi premiado pelas belas intenções que ainda não tivera tempo de concretizar antes do prémio (não me lembro de alguém que tenha contestado isto). Mas já não se aceita que quem efectivamente concretize essa paz sequer sonhe com isso.
Goste-se ou não é um marco histórico que terá ainda grandes desenvolvimentos e cujo o mérito é tão somente dos dois homens que o protagonizaram: Trump e Kim Jong-un. Habituem-se à ideia.

