Batuques e pandeiros
Eu gosto imenso do Carnaval. Uns vestem-se com coisas divertidas, outros despem-se como as brasileiras numa demonstração do cosmopolitismo lusófono multicultural, eu observo. No caso particular das que se despem, em Fevereiro, mamilos enregelados com as alterações climatéricas que são arrefecimento global no Inverno e esgotamento do SIRESP no Verão, só desejo que a bênção da Graça Divina as mantenha ignorantes para a heresia das quotas de género e da emancipação da mulher que uma linda burca permite.
Está bem, o Carnaval brasileiro não é da tradição portuguesa, mas somos progressistas ou não? Um progressista que se preze não se torna naqueles chatos, um conservador dos que acha que nada disto tem algum jeito. Continuemos, que, em nome da ciência, ainda está por determinar se é morena que mexe o chocalho ou se é o chocalho que mexe com ela, seja de Angola ou seja do Brasil.
That’s so dumb
As redes sociais passaram a manhã e à tarde de um Sábado solarengo a discutir o significado de um político afirmar em entrevista que é homossexual. Este decapante que as redes sociais aplicam ao mundo e à vida, mais que demonstrar as necessidades de diferentes cliques em validarem agendas mais ou menos claras, é bastante patético em si mesmo: às tantas, não há motivação nenhuma além de responder a uma entrevista, mas essa mirabolante ideia, como pertencendo a uma das cliques, só pode estar errada independentemente do conteúdo do resto da entrevista, que não interessa nada, já que as redes alimentam-se do que não é dito em detrimento do que é.
Estou um bocado cansado disto tudo. Por mim, dava-se agora a palavra outra vez ao #MeToo para que a meia-idade feminina possa ocupar o lugar das revistas cor-de-rosa gratuitas e de “todos somos génios” que são essas redes efémeras de projecção da vaidade. Giro, giro, é a crítica ao “that’s so dumb” do Trump: feitas as contas, o que são as redes sociais se não uma plataforma para o dizer, por muito articulado que seja essa vã tentativa de provar o outro errado? Pois é: that’s so dumb.
RBI: vamos a contas
O Rendimento Básico Incondicional voltou a ser discutido por estes dias graças à moção que Carlos Moedas e Pedro Duarte irão levar ao congresso do PSD. Multiplicaram-se os textos no Observador sobre o tema. Curiosamente, todos esses textos apenas tocam ao de leve na questão de como pagar pelo RBI. Vamos então fazer umas contas simples. Imaginemos que o RBI teria o valor de 400 euros mensais, o mesmo valor mencionado pelo Luis Aguiar-Conraria, e que cumpre os mínimos para ser considerado um “rendimento básico”. Sendo incondicional, teria que ser dado aos 10.3 milhões de habitantes no país. Mesmo assumindo que não seria dado nas 14 prestações habituais, mas apenas 12, isto constituiria um custo de 49440 milhões de euros anuais. Claro que também haveria poupanças. Aqui vou ser optimista e assumir que todas as pensões e subsídios da segurança social (excepto as pensões de velhice contributivas) seriam eliminadas. Ou seja, o RBI substituiria o RSI, o CSI, o abono de família, o subsídio de parentalidade, o subsídio de desemprego, o subsídio de doença, as pensões de sobrevivência, as pensões de invalidez e todas as outras não contributivas. No total, pouparíamos 45% das actuais despesas da segurança social (fonte). Depois destas poupanças, o RBI “só” custaria 39543 milhões de euros, um pouco mais de 20% do PIB português.
Para colocar este número em perspectiva, podemos ver abaixo uma comparação com outras despesas/receitas do estado:
Toda a despesa planeada para o combate a incêndios em 2018 – a maior em 10 anos – daria para pagar 1 dia e 2 horas de RBI. Ficariam a faltar 364 dias. Se nacionalizássemos e voltássemos a vender os CTT, teríamos dinheiro para mais 8 dias. Se viesse novamente a Troika e fizéssemos a mesma consolidação orçamental que o governo de Carlos Moedas foi obrigado a fazer, teríamos dinheiro para mais 66 dias de RBI. Ficam a faltar 290 dias… Temos que ir aos grandes gastos… Vamos então acabar com a escola pública, afinal as crianças também recebem os 400 euros, o que chega para pagar a um colégio. Acabando com os gastos públicos em educação, podíamos pagar mais 66 dias de RBI. Ainda nem a meio do ano vamos. Acabemos então com o SNS também. Seriam mais 81 dias, permitindo-nos pagar o RBI até meados de Agosto. Não chega, faltam mais de 4 meses. Como não podemos acabar com a polícia e o exército, temos definitivamente de aumentar impostos. Vamos então usar o imposto que mais receitas dá: o IVA. A receita total de IVA actual dá para pagar 139 dias de RBI, que é mais ou menos o número de dias que faltam financiar. Se duplicarmos as taxas de IVA, conseguimos, finalmente, financiar o RBI. Ou seja, tudo o que precisamos para ter o RBI em Portugal é acabar com o combate aos fogos, privatizar uns CTT por ano, acabar com o SNS e com a Educação pública, e aumentar a taxa máxima de IVA para 46%. Ainda diziam que era impossível…
Life is bat.. boitif… beautiful
Dezembro de 2017 – ISCTE chumba Maria de Lurdes Rodrigues
A ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues foi avaliada com ‘Inadequado’ como professora do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, no período 2014–16.
Fevereiro de 2018 – Maria de Lurdes Rodrigues é a nova reitora do ISCTE
A ex-ministra da Educação de Sócrates ganhou a corrida às eleições para a reitoria do ISCTE. É a primeira vez que uma mulher comanda os destinos destes instituto.
Mas está a denunciar o quê?
Salma Hayek falou sobre os abusos que sofreu por parte de Harvey Weinstein, produtor acusado de diversos crimes de assédio e abuso sexual. À conversa com Oprah Winfrey, a atriz revelou que foi ameaçada constantemente por Harvey durante as filmagens de Frida, filme de 2002 sobre a vida e obra da pintora Frida Kahlo. “Disse-me que me queria matar. Que ia partir-me as rótulas”, contou.
O filme Frida foi rodado em 2002. Oito anos depois Salma Hayek ainda não tinha percebido a conversa das rótulas… Ou será que uma mulher adulta, com dinheiro e liberdade iria deixar-se fotografar assim feliz e sorridente ao lado da besta que anos antes a perseguiu e ameaçou partir-lhe as rótulas?

um burlão
Varoufakis, ou, segundo a deputada Isabel Moreira, «Varoufakis, o quente», um delinquente que quase pôs o seu povo a pão e água, é o verdadeiro ícone da esquerda-caviar. Na verdade, como qualquer membro dessa seita, «o quente» alia um discurso radical sobre a pobreza e as maldades do capitalismo a hábitos de consumo perdulários, dizendo coisas brutais, enquanto se passeia em motas de elevada cilindrada com loiras platinadas a tiracolo, papa lautos almoços e jantares, bebe vinhos de primeira, saltita por hotéis de luxo, enfim, vive fautosamente, à grande e à francesa, só lhe faltando mesmo um apartamentozinho no 16º de Paris.
Pois bem, quase dois anos depois de ter sido corrido do governo grego, durante os quais publicou meia-dúzia de pastelões sobre economia que envergonhariam qualquer aluno do 1º ano desse curso, Varoufakis regressa ao palco da política, anunciando que vai fazer um novo partido para «devolver a Primavera Grega» ao seu país. No entretanto, enquanto o calor primaveril não chega, Varous, «o quente», continua a viver principescamente à pala dos outros, tendo espatifado 4.100,00 € por um simples fim-de-semana em Barcelona, onde foi apresentar as magníficas ideias da «nova esquerda» que diz representar. Quem pagou a festança foi a câmara municipal da cidade, ou sejam, os contribuintes espanhóis, pelo que, bem vistas as coisas, esta «nova esquerda» de Varoufakis é capaz de não ser tão nova assim…
E para as comissões da CGD já têm dinheiro, dona Delfina?
Delfina Vitorino apresentada pela LUSA como pessoa “que utiliza a estação dos CTT de Camarate” veio manifestar-se esta segunda-feira à porta da sede dos CTT, em Lisboa, contra o fecho das estações dos correios.
Delfina Vitorino veio com Hélder Rosa ao que parece “presidente das coletividades do concelho do Seixal, mais propriamente da Aldeia de Paio Pires” e Manuel Amaral que a Lusa não diz o que faz. E claro veio também Bernardino Soares presidente da Câmara Municipal de Loures, numa daquelas intermitências como manifestante profissional. Mas voltemos a Delfina Vitorino “que utiliza a estação dos CTT de Camarate”. Explica Delfina Vitorino que a dita estação atende “uma média de 200 pessoas por dia”, servindo uma “população idosa que tem de passar a ir à estação mais próxima de Sacavém e não terá mobilidade para se deslocar a pé”. “Muitas delas nem dinheiro têm para comprar o bilhete de cinco euros de camioneta”.
Daí conclui Delfina Vitorino “É uma sacanice o que estão a fazer à população pelo que vamos usar todas as nossas forças para que estação de Camarate não encerre”.
Ó Delfina Vitorino pessoa “que utiliza a estação dos CTT de Camarate” já que está em Lisboa não vai desperdiçar a boleia e com essa força toda vá até à sede da CGD protestar contra as comissões cobradas pela CGD. Não sei se o Bernardino Soares mais o Manuel Amaral e o Helder Rosa querem ir mas pelas almas Delfina não se acanhe. Vai até à sede da CGD e diz assim: Eu Delfina Vitorino, pessoa que utiliza a agência da CGD de Camarate que atende uma “população idosa que muitas delas nem dinheiro têm para comprar um bilhete de cinco euros de camioneta quanto mais para pagar as comissões da CGD”.
Daí conclui Delfina Vitorino “É uma sacanice o que estão a fazer à população pelo que vamos usar todas as nossas forças para que a CGD não cobre estas comissões. ”. Força Delfina Vitorino, uma pessoa sempre disposta a usar todas as suas forças na luta contra as sacanices.
As Mulheres Não São Burras
Em Janeiro deste ano legislou-se mais uma vez sobre a paridade de género nas administrações de empresas do Estado e empresas cotadas em bolsa. Desta forma pretende-se impor à força a nomeação de mulheres em lugares de topo sob pena de multas a quem não cumprir. Mas existe algo mais redutor, mais desprestigiante para uma mulher, do que ser colocada num lugar só para preencher um requisito legal? Isto é à priori rotular a mulher de coitadinha que só de empurrão lá chega. E eu como mulher não aceito esta discriminação.
A mulher é um ser extremamente inteligente, perspicaz e dotado de uma sensibilidade e força interior que a faz alcançar qualquer coisa que deseje. Porque a mulher além da sua inteligência ímpar tem um sexto sentido muito apurado que lhe permite ver detalhes que passam completamente despercebidos ao homem e isso dá-lhe uma vantagem extraordinária (os homens que me desculpem). E como se isso já não bastasse, é multi-tarefa. Por isso, parem lá de nos tratar por burras. Ainda não havia estas leis de paridade e já as mulheres depois da revolução industrial começavam a destacar-se de forma notável em todas as áreas conseguindo lugares de topo. Jane Adams, Corazon Aquino, Coco Chanel, Julie Child, Marie Curie, Indira Gandhi, Estée Lauder, Eleanor Roosevelt, Margaret Tatcher, Rosalind Franklin, Mária Telkes, Elisabeth Blackwell foram apenas algumas dessas mulheres que de modo algum caberiam neste texto de tantas e tantas que existem pelo Mundo fora. Mulheres que não precisaram senão do seu mérito e resiliência para conquistar fosse o que fosse.
A verdade é que se não há mais mulheres a lutar por cargos de topo, seja no público seja no privado, é porque elas preferem outras coisas. Porque as senhoras ao contrário dos cavalheiros pesam muito a questão familiar na hora de decidir seguir ou não uma carreira tão absorvente. A maioria prefere prescindir de cargos que lhe retire tempo para dedicar aos filhos e família. Essa é a principal grande questão. Elas já representam cerca de 60% dos estudantes universitários mas as preferências profissionais continuam a ser maioritariamente outras. São elas que se excluem. Não a sociedade.
Porque basta entrar em qualquer serviço, instituição, empresa para ver que as mulheres já são em maioria em quase todo o lado. Excepção feita à construção civil e similares onde não se vêem porque simplesmente elas não se candidatam. Sei do que falo. Enquanto administradora de uma indústria nesta área, nunca em anúncio de emprego onde nunca excluí mulheres, recebi uma única candidata feminina. Se nunca escolhi uma, foi porque nunca me apareceram. Eu mesma fui operadora de empilhador numa fábrica e desempenhava de tal forma a minha função que cheguei a receber propostas de outros patrões (homens)! Assim como recebi outras, pasmem-se, também de homens, por me destacar na cobrança de créditos! Esta realidade só não a vê quem nunca se fez verdadeiramente à vida.
O mais caricato disto tudo é o Estado inventar imposições legais para incluir mulheres no topo das administrações, fingindo estar sensível a esta questão, quando esses cargos, sabemos nós, estão TODOS reservados para amigos, familiares, e amigos de amigos e amigos de familiares que entram a CONVITE!!! Quem tem coragem de negar esta realidade? Brincamos ao faz de conta? Se esses lugares fossem atribuídos por concurso avaliando o CV, e depois feita uma selecção honesta com base nas qualificações do indivíduo, não estariam desta forma já naturalmente a abrir portas a TODOS os géneros com base nas suas capacidades? Para quê uma lei da paridade?
Por outro lado mesmo querendo colmatar hipotéticas falhas na colocação feminina, não é com imposições que se constrói uma sociedade justa mas sim, promovendo incentivos (de preferência fiscais) a quem privilegia a diversidade. Porque é sabido que as mulheres pela sua natureza, faltam muito mais ao trabalho para assistir à família (quando a têm) e isso pesa imenso nos custos das empresas com trabalhadores. Que são preteridas muitas vezes devido a esse factor e muitas delas não engravidam sequer para não ser um fardo para o patrão. Sabemos todos bem disso mas fingimos que não é assim. Que são excluídas apenas por machismo.
Sou mulher e não há nada que me irrite mais do que ser tratada por incapaz numa sociedade em que até já há Universidades na Inglaterra onde se prevê dar mais tempo para terminarem os exames numa tentativa de melhorar os resultados do sexo feminino e diminuir discrepâncias de género, como se nós não fossemos tão ou mais capazes que os homens de chegar onde queremos!
Se isto não é chamar a mulher de burra, é o quê? Mulher inteligente não precisa destas leis para nada. Vinga de qualquer jeito. É minha opinião.
O hipster da gadanha está de volta
Já tardava o regresso do “debate” sobre a eutanásia. As aspas justificam-se, porque trata-se apenas de um monólogo de iluminados do Bem1 que, ao obterem a reacção do Mal1, validam o único argumento que apresentam: os obtusos brutos são contra, logo só pode ser bom. Claro, resta saber se “a Direita” é mesmo contra, que já vimos de tudo desde que as vacas começaram a voar, do Partido Comunista como garante da paz social à galantaria en pointes do doutor Rio para tentar o patriarca da Geringonça em atormentado affaire, isto passando pelos arrebates maoístas da reeducação do homem para “acabar definitivamente com o assédio” e propostas de paridade que validem a incapacidade da mulher em ascender por mérito próprio a cargos de chefia.
Francisco George, um ex-coiso, chegou a falar do (isto é uma citação) “interesse público” em concordar com o Bloco de Esquerda (o oximoro é óbvio):
Esta lei tem de ser aprovada no interesse público, porque no final da vida há abusos médicos muitas vezes, por pressão de administrações sobretudo no setor privado, onde se mantém a vida artificial, que não é aceitável nem no plano moral, nem no plano da ética, nem no plano médico, nem no plano económico. (TVI)
Note-se o que é dito: é do interesse público evitar o abuso económico que é o prolongamento da vida de pessoas. Apesar de tais declarações deixarem entusiasmado o Ceifador (“cá te espero, Francisco”), só podem nausear gente que tem o mais basal pico-respeito pelo valor da vida humana.
Náusea à parte, é triste que tanta carneirada — não é desrespeito: havendo quem quer matar gente, tratar por carneiro até é elogio — aceite como sendo eutanásia o acto homicida que o Estado quer trazer a si. Eutanásia consiste na facilitação do suicídio a quem não o consegue cometer — que sendo legal implica a não persecução do ou dos indivíduos que providenciaram os meios para este suicídio —, não consiste em administrar injecções letais mediante pareceres de comités de combate ao sal e ao açúcar, tratando-se apenas da versão fofinha da cadeira eléctrica, ou, por outras palavras, da execução legal em tudo idêntica à pena de morte.
Seja como for, que o circo está de volta à cidade, disso ninguém tenha dúvidas. Ponham os capacetes, que o hipster da gadanha já chegou.
1 “Bem” e “Mal” são conceitos antagónicos criados aquando das transições para regimes democráticos que perduram pela capacidade esotérica de todos (dei ênfase, sim) os media os perpetuarem. Em Portugal, “Bem” refere-se sempre ao Partido Socialista e “Mal” a todos os outros que se limitam a existir para tentarem ser como o Partido Socialista.
Lembram-se do saneamento exemplar?
Governo muda directora-geral do Orçamento. Manuela Proença ocupava o cargo desde 2012 e tinha sido reconduzida em Julho de 2014 por mais cinco anos. A ano e meio do fim do mandato, Mário Centeno decidiu avançar com uma recomposição na liderança da DGO,
Um nome a juntar-se a uma lista de afastados como Pedro Pimenta Braz, Presidente da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) , Luísa Maia Gonçalves diretora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) , João Marôco, coordenador em Portugal do estudo que avalia em vários países a compreensão da leitura entre os alunos que estão no 4.º ano…
A correcção desse desequilibrio é o cerne da questão
Vida para além do défice (o outro)

A economia deve crescer com base nas exportações.
O défice da balança comercial deve ser reduzido ou eliminado.
Alguém põe estas ideias e desígnios nacionais em causa ou, pelo menos, os relativize?
Não creio. Mesmo entre economistas é um discurso dominante e consensual.
É pena! Não havia necessidade de alimentar uma falácia há muito desmontada por David Ricardo e Adam Smith, entre outros.
No fundo, o mercantilismo está vivo e, diria até, pujante e em expansão. Continua a acreditar-se que riqueza é dinheiro. Defende-se como objectivo minimizar as saídas de dinheiro do país para pagar importações.
Esquece-se, no entanto, que o dinheiro é apenas um meio de troca e reserva de valor.
De que adiantaria acumular notas e moedas se não fosse para os transformar, mais tarde ou mais cedo, em consumo e usufruto de bens e serviços? O nosso bem-estar traduz-se nas coisas concretas a que temos acesso.
Deixou-se também que o uso de ferramentas e convenções contabilísticas quase nos impeça de perceber os fenómenos económicos implícitos à realidade que observamos. Do ponto de vista da acção humana, um défice comercial é algo que não existe. Por definição, qualquer troca que se verifique pressupõe uma diferente valorização do bem em questão pelas partes envolvidas. Ou seja, a troca acontece apenas se o bem recebido tem maior valor para a parte compradora do que o bem entregue em contrapartida. Não é um jogo de soma nula. Ambas as partes ganham. Cria-se riqueza.
Já agora, para os aficionados da álgebra aplicada à economia, o saldo da balança de pagamentos é sempre nulo.
*
O condomínio
As voltas que a vida dá
Aquela senhora professora de Coimbra dos reformados indignados que andava a lutar contra a miséria e a fome até 2015 agora está a viver tão bem que anda a denunciar os burlões. Só visto. Ele há milagres.
From #MeToo You
Tenho sido injusto com o movimento #MeToo. Dizem os arrependidos que mais vale tarde do que nunca, pelo que faço aqui a minha penitência admitindo a insensibilidade masculina de que padeci, prometendo conectar-me em pleno com o lado feminino que é pertença de todos os homens e que aprendem a reprimir por consequência do jugo opressor de um heteropatriarcado bruto de Direita.
A Guerra dos Sexos não faz qualquer sentido, amigos com pança de cerveja. Precisamos de mulheres felizes, integradas, sem medo de interacções verbais com sujeitos broncos entre uma paragem e outra. Está mais que visto que não é na família, no emprego, na educação dos filhos e nos tempos livres que uma mulher encontra a felicidade; também não é na cultura, na educação, na criatividade e na originalidade: é na reciclagem da leitura bizarra que alguém fez da Simone de Beauvoir na certeza de que as irmãs de Hollywood podem representar as mulheres de todo o mundo, da sopeira à princesa. É, portanto, a identificação de classe. Para o efeito, teremos, como sociedade, que esquecer um bocadinho o violador de Telheiras e os gangues violadores da Índia e focarmos a nossa atenção nas leis da paridade e na educação dos homens, que tem sido uma lástima — apesar da preponderância de mulheres no ensino, traidoras da classe feminina. Esta educação cria agressores em cada esquina de Hollywood (e pelo menos uma em Telheiras, mas não vamos por aí) e cúmplices em todos os que não se mostram publicamente a dizer o quão chocados estão por um papel cinematográfico para uma jovem naïf do Kansas ter sido considerado pela facilidade com que se subjugou aos vícios libidinosos de um produtor há trinta anos.
Se todos nos juntarmos e gritarmos “Me Too”, começamos a resolver o problema, tal como resolvemos a esclerose lateral amiotrófica despejando um balde de água fria na cabeça. Não, não é com encarcerar o violador de Telheiras — lá estou eu a desviar as atenções para um problema menor em relação ao trauma que é a Oprah Winfrey descobrir tão tardiamente as companhias dos seus amigos íntimos; é educando os rapazes para que respeitem as mulheres assegurando que não se tornam em produtores de cinema de Hollywood. Bem sei que não conseguimos ensinar assassinos de mulheres a ler, mas não há motivos para não os conseguirmos ensinar a usar todos os talheres nos jantares onde se discutem as temáticas da condição feminina. Até porque, como dizia a Simone — a francesa, não a do “quem faz um filho fá-lo por gosto” —, “a opressão tenta defender-se pelo lado utilitário”, daí que é melhor escolher restaurante em que a elegante e heteropatriarcal função de empregado de mesa é desempenhada por gente do sexo masculino.
Para mim, a gota de água do meu papel como opressor-barra-cúmplice na destruição da mulher por defeito cromossomático foi a explicação da Catarina Furtado para a situação de assédio que viveu, tendo que fingir “que não estava a perceber bem” o que lhe propunham de forma a que, aniquilada no seu íntimo, lá conseguiu sair “arranjando desculpas e sorrindo para não nascerem conflitos irreparáveis”. Ficou orgulhosa de ter saído, e eu também, que percebi, com este relato, que também já fui vítima de assédio.
Em conversa com pessoa que outrora denominaria por “minha mulher” e agora denomino simplesmente por “a mulher”, conclui que também ela foi vítima de assédio. Assim, é com orgulho que ambos dizemos, para que todo o mundo saiba: #WeToo. Enquanto o leitor abriu o computador, leu este texto e se indignou como habitualmente, uma mulher foi violada na Índia, se contarmos apenas os casos reportados. Mas isto não é sobre ela, isto é sobre mim.
O Prédio Coutinho
Quando era miúda ele já existia. Imponente junto ao jardim, nunca conheci a cidade com outra paisagem. As polémicas à volta deste prédio eram muitas: umas a favor, outros contra tal e qual como nos dias de hoje. Contava-se que tinha sido embargado várias vezes aquando a sua construção mas o certo é que, dentro da volumetria estabelecida pelo concurso público que lhe deu origem, o “Coutinho” nasceu devidamente licenciado pela Câmara, no terreno do antigo mercado, que tinha sido vendido em hasta pública. Por trás deste, nascera depois, o novo mercado que ali permaneceu durante muitos anos.
Quando soube da notícia da intenção de demolição, fiquei apreensiva. Não se falava em problemas na estrutura, não se falava em perigo iminente dos moradores do edifício, falava-se sim, de demolir por questões paisagísticas! Um milhão de euros será o custo da implosão mas já vários milhões terão sido gastos nas indemnizações aos proprietários das fracções, assim como na construção dos “caixotinhos” onde os realojaram. Curiosamente, os mentores deste “projecto” começaram por dizer que aquele espaço era crucial para a cidade pois pretendiam fazer nascer um centro de eventos. Ironicamente, acabou este por ser construído noutro local sem precisar do “Coutinho” para nada. Entretanto, outro iluminado veio a público dizer que a cidade, em dias de feira era um caos com carros e pessoas entupindo as artérias principais e que era imprescindível tirar o mercado dali, mesmo por trás do “Coutinho”! Levaram-no para o outro extremo da cidade e ali permaneceu até hoje. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades e novamente os defensores da implosão, depois da catástrofe económica por demais evidente do centro da cidade em consequência de políticas mais direccionadas com questões paisagísticas, vêm agora dizer que aquele espaço é fundamental para a construção do novo mercado e consequente dinamização de Viana!!
Durante todos estes anos os políticos responsáveis por esta cidade andaram a brincar aos legos, construindo, destruindo, modificando, tirando, alterando não se importando, com essas decisões, pelas vidas das pessoas. Do ponto de vista estético, realmente o Coutinho não está bem ali. Nem ali nem em nenhuma parte da cidade: é grande e não se enquadra numa urbanização que se quer rasteira, junto à margem do rio até à encosta de Santa Luzia. Mas foi aprovado em 1970 assim como outras torres , do lado esquerdo da ponte, já mais recentes, também elas abortos estéticos e das quais, por enquanto ninguém fala. Principalmente depois de uma delas ter tido graves problemas de estrutura e ter inclinado como a torre de Pisa. Pois.
Aqui está em causa, acima de tudo, pessoas: as que moram no Coutinho e os contribuintes, ou seja, nós todos. Aos moradores foi-lhes dito de um dia para o outro que ficariam sem a casa que um dia compraram carregada de memórias de uma vida. É fácil opinar antes do mesmo drama bater às nossas portas. Mas alguém se imagina a ter de entregar ao Estado a sua casa a troco de seja lá o que for e viver noutro lugar qualquer onde não tem raízes ou não se identifica por uma questão meramente de … estética? A revolta é compreensível e a luta deles ainda mais. É uma vida a fugir-lhes pelos dedos sem razão plausível. Por outro lado há as questões financeiras que este projecto implica. Ora, pergunto se depois de tantos sacrifícios impostos pelo governo, todos dirigidos apenas e tão somente ao povo, se é justo que fiquem também a pagar uma implosão, indemnizações e construções milionárias por causa destes visionários da estética?
Por outro lado, não acredito nem um pouco que ao trazer o novo mercado para dentro da cidade, ela volte a respirar a saúde de outros tempos. Não foi só a saída do mercado que matou o coração de Viana. Um centro comercial dentro da cidade e os parques todos pagos incluindo à superfície, afastaram toda a gente do centro. E não é preciso ser-se perito em assuntos económicos para entender que não há veneno mais letal do que estes três ingredientes juntos! Sem mercado, com centro comercial cheio de lojas com descontos ao desbarato, reunindo um só espaço, lazer, compras e restauração, e estacionamentos todos a pagar, os consumidores, preferem, o tudo em um, no conforto dum espaço onde não há chuva nem vento e pagar parque por pagar, pois que seja no shopping onde as compras se fazem mais depressa!
Devolver o mercado ao centro da cidade é imperioso pois depois de tantas más decisões seria uma forma de minimizar os danos já provocados e restituir alguma cor e dinamismo de que a cidade tanto precisa. Mas há alternativas ao Coutinho. Quiçá não ficasse muito mais em conta, realojar as pessoas naquilo que já era delas, no Coutinho, e precisamente no local onde já era o mercado e passou a ser o habitáculo daqueles moradores, readaptá-lo para ali se instalar o mercado. Curiosamente, tem arquitectura que se encaixa perfeitamente e no sítio exacto onde estava o anterior.
O que me parece é que, caso esta implosão siga em frente, estaremos a abrir um precedente no futuro. Estaremos todos a contribuir para que outras iniciativas deste género venham a acontecer não por questões de segurança das pessoas mas tão somente pelo imperioso interesse público que tanto pode ser por uma questão de estética como por interesse de um lobbie.
É preciso recordar que o mesmo ex-ministro do ambiente que ordenou a demolição do Coutinho por questões ambientais, “Engº” José Sócrates, autorizou o Freeport em reserva ecológica provando assim que as políticas mudam-se à mercê dos interesses.
Resistem a isto 14 moradores. A Câmara garante que avança com demolição em Março e tudo isto com o dinheiro de TODOS os contribuintes! Outra vez.
É criminoso.
Governar é mais proibir croquetes e talheres de plástico
O governo legisla sobre e tudo e mais alguma coisa no que às empresas privadas diz respeito. Intromete-se na nossa vida decidindo tudo, desde os bolos que podemos comprar ao sal que comemos. Outra coisa bem diversa é o Governo decidir sobre as comissões cobradas pelo banco público. Se a CGD fosse privada Costa teria anunciado um conjunto de medidas, multas e ofícios que iriam acabar com a vergonhas das comissões na CGD.
Procura-se operador de portagem (M/F)
A Via Verde foi introduzida em 1991. É uma tecnologia simples, facilmente replicável. Segundo a lógica de alguns políticos e académicos mais excitados, a tecnologia deveria ter acabado com a profissão de operador de portagem. Passaram-se 26 anos, muitos dos portageiros que iriam perder o emprego já entraram na reforma, alguns terão morrido. Entretanto, em 2018, uma das principais concessionárias de auto-estradas anda a recrutar operadores de portagem. Estranho terem vagas para um emprego que deveria ter acabado há 20 anos. Em muitos países ligeiramente menos desenvolvidos que Portugal, apesar de a tecnologia existir e ser relativamente barata, ainda não foram implementadas tecnologias semelhantes quase 3 décadas depois da introdução em Portugal. Os mais excitados com um futuro sem emprego talvez devessem parar para pensar um pouco, tirarem os óculos de realidade virtual e simplesmente olhar para trás. Talvez aprendam algo.
Para ler entre uma paragem e outra
Every man, deep down, knows he’s a worthless piece of shit. Overwhelmed by a sense of animalism and deeply ashamed of it; wanting, not to express himself, but to hide from others his total physicality, total egocentricity, the hate and contempt he feels for other men, and to hide from himself the hate and contempt he suspects other men feel for him; having a crudely constructed nervous system that is easily upset by the least display of emotion or feeling, the male tries to enforce a `social’ code that ensures perfect blandness, unsullied by the slightest trace or feeling or upsetting opinion. He uses terms like ‘copulate’, ‘sexual congress’, ‘have relations with’ (to men sexual relations is a redundancy), overlaid with stilted manners; the suit on the chimp.
(…)
There is no human reason for money or for anyone to work more than two or three hours a week at the very most. All non-creative jobs (practically all jobs now being done) could have been automated long ago, and in a moneyless society everyone can have as much of the best of everything as she wants.
(…)
Although the male, being ashamed of what he is and almost of everything he does, insists on privacy and secrecy in all aspects of his life, he has no real regard for privacy. Being empty, not being a complete, separate being, having no self to groove on and needing to be constantly in female company, he sees nothing at all wrong in intruding himself on any woman’s thoughts, even a total stranger’s, anywhere at any time, but rather feels indignant and insulted when put down for doing so, as well as confused — he can’t, for the life of him, understand why anyone would prefer so much as one minute of solitude to the company of any creep around. Wanting to become a woman, he strives to be constantly around females, which is the closest he can get to becoming one, so he created a `society’ based upon the family — a male-female could and their kids (the excuse for the family’s existence), who live virtually on top of one another, unscrupuluously violating the females’ rights, privacy and sanity.in S.C.U.M. (Society for Cutting Up Men) Manifesto, Valerie Solanas, 1967
O código saiu pela culatra

Logo na sequência de abertura do filme Os Salteadores da Arca Perdida, Indiana Jones, depois de recuperar o ídolo de ouro das mãos do guia que o traíra, é perseguido por uma gigante bola de pedra da qual tem de fugir a toda a velocidade por forma a não ser implacavelmente esmagado. Havendo algum fundo de verdade nas abordagens psicanalíticas de Freud, Jung e outros, e eu julgo que há, é extremamente provável que, ultimamente, o ministro das finanças Mário Centeno ande a acordar a meio da noite, ensopado em suor, depois de ser assombrado por pesadelos que o colocam nessa correria febril à frente do monólito redondo, desempenhando o papel que, na fita, era de Harrison Ford.
Ser esmagado por uma bola, mesmo que de futebol, como é o caso que tem enchido as páginas dos jornais, não é um fenómeno raro no nosso país. Ainda há pouco tempo, por causa de uns jogos da Selecção Nacional no Campeonato da Europa, três secretários de Estado foram obrigados a arrumar a secretária e a mudar de vida, levando o Governo a, posteriormente, aprovar um código de conduta ligeiramente pueril e beatinho que proíbe os seus membros de aceitarem qualquer oferta de valor superior a 150 euros. Mas agora que Centeno, a estrela da companhia, teve a infeliz ideia de pedir uns bilhetes para ir ver o Benfica, o moralismo deixou de ser conveniente e de todo o lado surgem as mais divertidas interpretações do referido código.
De todas essas interpretações, a minha preferida, de longe, é a “teoria do não está à venda”. Como o ministro solicitou lugares na tribuna presidencial, que não são comercializados nas bilheteiras, dizem ser impossível fazer o enquadramento do limite dos 150 euros. Ficamos assim a saber que se a Gulbenkian oferecer ao secretário de Estado da Cultura um daqueles pósteres dos cães a jogar bilhar encaixilhado numa moldura bonita, este está tramado; no entanto, se no lugar dos simpáticos canídeos a Fundação lhe der um dos Amadeo de Souza-Cardoso da colecção, já não há qualquer problema, uma vez que as telas do famoso modernista não estão disponíveis no mercado.
Miguel Sousa Tavares, defendendo Mário Centeno no seu comentário televisivo, afirmou que, por causa deste tipo de exigências, qualquer dia ninguém quer governar Portugal. Não podia estar mais de acordo com o comentador. É uma observação tremendamente perspicaz e basta analisar o que se passou nas últimas legislativas para a confirmar. Neste país, o desapego ao poder é já tão grande, que foi preciso ir pedir encarecidamente ao 2º partido mais votado nas eleições que fizesse o sacrifício de assumir as funções executivas, sob pena de ficarmos para sempre numa situação de sede vacante. Felizmente para todos, António Costa, num bonito acto de abnegação, sacrificou a confortável reforma antecipada que o esperava, e acolheu as súplicas em prol da felicidade da nação. Assim sendo, é de toda a justiça que não o incomodemos muito com os aborrecidos diplomas legais que ele próprio elaborou.
E agora, algo de completo mau-gosto, porque sim

No cânone da loucura dos “excessos de um artista”, expressão devidamente ilustrada na canção “Baile da Paróquia” de Rui Veloso e Carlos Tê, figura no topo da página um certo incidente ocorrido durante o Seattle Pop Festival em 1969. Ao que consta, uma bonita groupie1 ruiva foi atada nua a uma cama onde membros não nomeados da banda Led Zeppelin a penetraram com um peixe. Membros da banda Vanilla Fudge também se identificaram como autores da instalação artística, mas, à parte de um mítico filme — cuja existência é mais do que plausível —, tais declarações podem ser um mero aproveitamento de obra alheia. Há, contudo, algumas divergências acerca da espécie de peixe utilizada no happening, sendo que o galhudo-malhado da história original parece ser uma aproximação romantizada (os tais excessos de um artista) de um comum arenque.
O que é sabido é que, algures, uma sexagenária anda a conter-se de se associar ao movimento #MeToo. O seu silêncio ensombra a aura de delação vanguardista que faz substituir tribunais por bonitos vestidos em desfiles de galardões cinematográficos e, lamentavelmente, impede a correcta catalogação ictiológica do evento.
Como diz a canção, “já ninguém mais tem respeito pelos excessos de um artista”.
1 Groupie é um termo que designa um tipo de rapariga que, não tendo sido levada pelos pais para o programa Supernanny porque tal violaria os seus direitos, tendia a aparecer por geração espontânea em quartos de hotel onde estrelas hospedadas lhes oferecem um cházinho enquanto ouvem uma ou outra história com lobos maus.
À atenção das redacções (se não souberem ler francês nós traduzimos)
Mas o Obama não fechou Guantanamo?
A América é “grande outra vez” e vai manter Guantánamo a funcionar
Então o Obama não fechou Guantanamo? O parlamento português até saudou o fecho: Parlamento saúda posse de Obama e encerramento de Guantanamo, PCP e PEV abstêm-se
O soviete de Arroios
2018 Janeiro Autoridades despejaram prédio ocupado por grupo de cidadãos em Arroios
Este é mais um capítulo na saga começada em Setembro Assembleia de Ocupação de Lisboa ocupou prédio para alertar para os problemas da habitação em Lisboa
Não há cidadãos nem meio cidadãos. Trata-se do BE a pressionar o PS. Esta fantochada vai custar-nos caríssimo
por mim deixava o centeno, vulgo ronaldinho lusitano, em paz
As notícias da manhã levam a crer que a história dos bilhetes para a bola dados pelo Benfica a Centeno será apenas um fait-divers perante uma hipótese de corrupção que pode envolver futebol, magistrados e a máquina fiscal.
A ser verdade, não seria de estranhar. Pelo poder imenso de que dispõe, que foi ao ponto de ter conseguido inverter «legalmente» alguns dos mais importantes pilares do Estado de direito – a presunção de inocência (vd. o crime de abuso de confiança fiscal) e o princípio de que quem acusa prova (a inversão do ónus probatório em todos os crimes fiscais) – o fisco português aterroriza de tal modo os cidadãos, que muitos deles, principalmente aqueles que estão em incumprimento perante ele, estão dispostos a tudo para se verem livres de uma ameaça que lhes pode levar tudo o que ganharam na vida e fechá-los numa cela por muitos anos. Como a ocasião cria o ladrão, é exactamente neste tipo de situações que aparece quem se aproveite da desgraça alheia, cobrando-se, generosamente, por serviços prestados. Não será, pois, de espantar que funcionários deixem prescrever dívidas ou até as façam desaparecer, e que juízes profiram sentenças amáveis para que se «chegar à frente».
Por outro lado, os benefícios fiscais, mais ou menos lícitos, concedidos pelo estado aos clubes de futebol também não são coisa nova. Veja-se, por exemplo, a vergonha que foi o tratamento fiscal dado ao Benfica pelo ministério de Manuela Ferreira Leite, em que dívidas de milhões de IRS foram objecto de parcelamento «garantido» pelas acções da SAD do próprio devedor, para que o clube sacasse as declarações de regularidade fiscal que o habilitariam aos fundos comunitários para a construção do novo estádio. Enquanto empresários respondiam, nas barras dos tribunais, por dívidas infinitamente inferiores, o novo secretário de estado das finanças – por sinal acabado de largar o cargo de director financeiro do Benfica – aprovava esse extraordinário acordo. Infelizmente, nunca ninguém o investigou.
Posto isto, parece-me apenas que confundir os dois bilhetes dados a Centeno com o que se poderá aqui, de facto, estar a passar, é confundir a árvore com a floresta. Não só por ser por demais evidente que nenhum ministro das finanças do mundo – nem mesmo do Kinshasa, se deixaria sujar por tão pouco, como pode até a coisa ter sido posta cá fora como nuvem de poeira para se não ver o que mais importa. Como envolve um ministro, e logo o ministro mais importante deste governo, dá pano para mangas e para muita conversa. Mas mangas de um fato de péssima qualidade. Até porque Centeno, além de ser um ministro sensato, é a única barreira entre os cofres do estado e o Bloco de Esquerda, que anseia, de há muito, colocar os seus homens nesse ministério. Por isso, faria bem a direita em deixar estar o ministro onde está, enquanto a geringonça estiver como tem estado. Mandá-lo embora e manter o governo da frente de esquerda seria suicídio. Que todos pagaríamos bem caro.
Sobretudo não se podem esquecer as aspas
A Polémica SuperNanny
Começo por dizer a este propósito que abomino todo o tipo de reality shows seja com crianças, com jovens ou adultos. Jamais me inscreveria num nem deixaria filhos meus menores, fazê-lo. Fique claro. Porém, a existirem é inevitável espreitar para poder de forma bem ponderada emitir uma opinião fora da caixa sem seguir as massas. E foi precisamente o que fiz assim que soube do tão polémico SuperNanny.
Sejamos honestos: só existe inscrições para este programa porque mais uma vez o Estado falha quando lhe pedimos ajuda. Temos imensos organismos cheios de gente credenciada a receber salários para apoiar as famílias e crianças mas na verdade não servem na hora da aflição. Quase todos já experimentamos esta realidade portuguesa seja em que área for. Com muita sorte vamos para uma lista de espera onde se desespera de tanto esperar. As mães que chegam a estes programas são pessoas desesperadas, exaustas, desgastadas, já completamente desequilibradas, e que tentaram ajuda. É o desespero que as move. Se assim não fosse, o programa nem sequer arrancava. E só esta realidade já deveria envergonhar o Estado social.
E não. Não é ficção como alguns sem ver o programa afirmam. Antes fosse. Estas famílias vivem mesmo um drama tremendo que lhes provoca mau estar familiar e tristeza profunda. As mães colapsam mesmo com as birras inaceitáveis e violentas dos filhos sem saberem como agir. É a desorientação total. E o que choca as pessoas é mais o facto de saberem que esta realidade existe mesmo, do que a própria exposição em si. Senão como explicam o Instagram, o Facebook, a publicidade, a moda, as novelas, os concursos na TV onde as crianças se expõem ou são expostas pelos próprios pais com tenra idade, sem oposição da CPCJ? No fundo o programa veio pôr a descoberto uma realidade atroz desta sociedade moderna em que vivemos e sobre a qual ninguém quer falar: a tirania dos nossos filhos. Porque falar sobre isto obrigaria a reflectir sobre as modernices educativas que ao invés de educar, transforma os jovens em pequenos ditadores.
O programa veio ainda revelar que os pais de hoje não sabem ser pais. E este fracasso reflecte-se depois na educação. Porque lhes foi dito que uma palmada na fralda era violência, que um bom pai tem de ser sempre o melhor amigo, que a criança tem de crescer feliz e logo não a podemos frustrar. Há anos que repito que estas dicas patetas seriam a receita perfeita para o caos familiar. E acertei em cheio. Criança, ainda no berço precisa de amor firme. Amor doseado com regras, com limites, com obrigações, com metas, com tarefas, partilha e responsabilidade regado com muito diálogo, sim, mas acompanhado dumas consequências (castigos de amor) certeiras sempre que se esquecem dos seus deveres. Frustrar a criança é obrigatório para o seu bom desenvolvimento. Porque tal como tudo na vida, sem uma boa liderança, a anarquia instala-se. Seguindo-se o caos.
Independentemente da exposição das crianças ( que agora o tribunal obriga a corrigir e bem) há um facto inegável que salta a quem vê o programa: com umas simples técnicas pedagógicas de uma psicóloga credenciada, ao fim de alguns dias, aqueles seres indomáveis quase selvagens, tornam-se crianças educadas. Milagre? Não. Apenas foi corrigido um défice no entendimento entre pais e filhos, porque ao ensinar os pais a agir, estes tornam-se menos stressados e a criança interioriza melhor o que lhe é exigido sem despertar raiva. Os pais, ao agir de forma mais segura com liderança firme e assertiva, transmitem mais afecto, mais segurança, ao mesmo tempo que os ensinam. Tão simples quanto isto. Foi extraordinário ver ainda a reaproximação entre mãe e filha adolescente orientadas pela psicóloga, de forma tão simples e bonita, que no caos era completamente impossível de resolver.
A verdade é que os pais não sabem educar porque lhes ensinam coisas erradas sobre a parentalidade. E os mesmos profissionais que hoje se insurgem contra estes programas são aqueles que de forma indirecta contribuíram para esta desordem social com suas psicologias modernas.
O programa depois de corrigido o formato (ocultando identidade das famílias) deveria continuar pois é didáctico para os pais e promove o bem estar familiar que se reflecte inevitavelmente no resto da sociedade. Porque com melhores pais, teremos melhores filhos que serão melhores alunos e em adultos, melhores cidadãos… e pais. Permite ainda a reflexão sobre este flagelo social que todos preferem negar em vez de resolver, numa sociedade em que permitem um filho bater num pai, e o contrário é crime público.
Querem acabar com programas deste tipo? Acabem com as sinalizações quase perpétuas de famílias necessitadas, nas CPCJ, eternamente em banho-maria e criem equipas de intervenção rápida para apoio efectivo e CONTINUADO, dentro dos mesmos moldes do programa, feito de forma individual e verão as inscrições desaparecer completamente.
Até lá deixemo-nos de hipocrisias.
Canto IV adaptado ao pós-Sócrates
Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
— “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
— “Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
— “A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D’ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás, figura estóica?
Que triunfos alcançarás indo além da Troika?
Cisma Blasfémias e RBI
Há temas incontornáveis, mas confesso que sobre o assunto em epígrafe a minha posição oficial é fluída, tal como é moda em questões de género.
Umas vezes sou a favor, outras contra. Depende.
O Carlos Guimarães Pinto desculpar-me-á, mas sobre estas matérias tendo a seguir a opinião de especialistas consagrados como o da figura anexa.
Registo apenas que aquele que para muitos é/era considerado um líder futuro do PSD em stock (Carlos Moedas) vai no bom caminho na adesão às grandes causas progressistas.
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rbi: a minha posição
Eu gostava de me posicionar nesta querela sobre o RBI dizendo, olhos nos olhos dos meus colegas do Blasfémias, que sou absolutamente contrário à sua existência. RBI para aqui, RBI para ali, RBI para acoli, francamente, já não há pachorra: sou contra, pronto! Só não sei exactamente em que consiste o RBI (Rádio Beira Interior?), pelo que se alguém tiver a generosidade de me explicar, fico grato.
Fogueira com ele, para o bem comum
Eu sempre fui contra a inclusão no Blasfémias de realistas, pragmáticos e, no geral, de pessoas que passam a vida a antecipar consequências para as coisas. A opinião publicada deve basear-se em dizermos algo que nos faz sentir bem, pela procura do calor humano e da empatia por pessoas que, como nós, sonham com a transformação do mundo num paraíso terrestre sem interferência de reaccionários conformados com a condição humana.
Sou totalmente a favor do RBI, não necessariamente para mim, que o aceito só para não fazer a desfeita a quem sonha o mundo, mas para os meus filhos, que, como estão em idade escolar, escusam de perpetuar a diferenciação do Homem pelo Homem através de “mérito” escolar (entre aspas, já que baseado puramente em critérios economicistas como desempenho em exames e não no potencial de emoção subjectivo que seriam capazes de alcançar sem a opressão destes).
Também sempre quis escrever um poema épico sem rimas sobre a inexistência de assédio homossexual, o que só provará, para as pessoas eruditas que lerem os cinco volumes, que os homens só oprimem mulheres, nunca outros homens, tornando óbvio que o lesbianismo é a única opção viável para qualquer mulher de Bem, e tal só me parece possível, pelo menos a parte de transformar a obra numa opera circense e itinerante por todos os concelhos do país e além-mar, algo que me parece indispensável para a sua divulgação, se não andar a perder tempo com o enriquecimento ilícito de empresários que me escravizam para seu próprio benefício.
Assim sendo, junto-me à Helena na denúncia deste artigo tão despudoradamente insultuoso para a opinião livre de pessoas que sonham com um mundo bom.
Cisma no Blasfémias
Tinha de acontecer: o Blasfémias vive um cisma. Sou claramente a favor do RBI. DEsde já declaro que se o mesmo for instituído vou fazer campanha para que dez milhões de portugueses passem a receber RBI. O RBI é o futuro: o Governo administra o RBI, o Rio discute a criação no Porto da Agência do RBI, a Catarina propõe um RBI progressivo para os palhaços e palhaças, o Jerónimo e o Arménio Carlos vão a Cuba divulgar o RBI.
Se todos, todas e tod@s tivermos RBI acaba-se o problema da exploração capitalista.
Há que colocar o RBI no centro da discussão política em Portugal
Na discussão sobre o Rendimento Básico Incondicional há dois lados. De um lado as pessoas sofisticadas e generosas, que têm um conhecimento profundo das últimas tendências da tecnologia, sabem que se aproxima uma era nunca vista na história da humanidade de substituição de trabalhadores humanos e que têm consciência social. Por isso, defendem que todos deveríamos receber um rendimento sem precisar de trabalhar. Do outro lado estão uns grunhos egoístas, gente burra que provavelmente nem sabe o que é a internet, não percebe os efeitos do aumento do consumo na economia e que não vê os benefícios óbvios do acesso de todos a uma vida de ócio. Os intelectuais dos partidos de esquerda, como sempre, já há muito lideram o grupo das pessoas sofisticadas e generosas. Mas o PSD não demorou muito a chegar lá. Os muito sofisticados e generosos Carlos Moedas e Pedro Duarte preparam-se para apresentar uma moção em que propõem que se estude a possibilidade de implementar o RBI. Aqueles que se queixavam da falta de renovação de gerações no PSD acabam de ser provadas erradas: está aí uma nova geração de líderes muito prá frentex que não se deixa influenciar por grunhos como Passos Coelho e Vítor Gaspar, sempre agarrados aos números.
No Mundo da masturbação intelectual, aproxima-se a grande velocidade uma realidade em que faltarão empregos e a economia deverá começar a pagar prestações não contributivas a pessoas em idade de trabalho. No mundo real, temos uma população a envelhecer rapidamente e uma economia com dificuldade para pagar pensões contributivas que garantam um fim de vida decente aos mais velhos. No Mundo da masturbação intelectual, estamos a umas décadas de podermos ficar todos em casa agarrados ao Netflix. No Mundo real, a geração dos filhos únicos vai-se ver grega para produzir o suficiente para sustentar pais e avós em idade de reforma. No Mundo da masturbação intelectual, a produtividade irá aumentar de forma nunca vista. No Mundo real, a produtividade nunca cresceu tão pouco nos países desenvolvidos. No Mundo real, idosos com demência ou dificuldades de mobilidade vivem sem condições porque a economia não produz o suficiente para libertar recursos humanos que cuidem deles a preços decentes. No Mundo da masturbação intelectual, iremos em breve poder abdicar de parte da população em idade de trabalho porque há um robot que até conseguiu a cidadania num país qualquer. Mas não deixem que este grunho egoísta que vos escreve arruine os sonhos de um RBI no futuro próximo. Certamente os intelectuais sofisticados e generosos já encontraram a solução para todos estes problemas.
Indignações selectivas
Durante anos aquilo a que hoje se chama violência doméstica foi menosprezada pela imprensa dita de referência. Eram os chamados crimes de faca e alguidar que, afiançavam esses antepassados dos actuais activistas que davam pelo nome de intelectuais comprometidos, não teriam lugar na sociedade sem classes, no caminho alternativo do terceiro mundo, no fim do capitalismo… Décadas depois a violência contra as pessoas continua a ser um não assunto, excepção feita à violência doméstica. Ou, mais propriamente, à violência de homens contra mulheres num contexto de relações heterossexuais. E assim, armados de zelos inquisitoriais, os ditos activistas vasculham agora acordãos em busca de frases comprometedoras, pedem medidas excepcionais e formação para os agentes da justiça, traduzindo-se no caso “a formação” por sessões de agitação e propaganda. Ou, para usar a terminologia da secretária de Estado da Cidadania e Igualdade, Rosa Lopes Monteiro, vai-se “avançar numa “missão civilizacional” para mudar “culturas demasiado interiorizadas”.
Danos colaterais
Na sua crónica desta semana, Alberto Gonçalves menciona as explicações apontadas para estes fenómenos do #MeToo. O artigo é excelente, como sempre. Pessoalmente, não creio é que qualquer destas explicações mencionadas — não é o autor que as aponta, apenas enumera as que vão circulando — seja abrangente o suficiente para justificar seja o que for. A explicação que me parece mais plausível e abrangente é a da adolescência dos média modernos, substituídos pela estranha noção twitteriana e facebookiana de que cada pessoa é uma história, uma opinião num igualitário sistema de difusão do eu. Factos são batidos por anedotas, reportagens destituídas por alegorias emocionais e delações recompensadas com likes. Quando abrir a boca (ou escrever algo) do foro pessoal passa a ser visto como coragem, é natural que qualquer um deseje a sensação de ser reconhecido como corajoso.
Estando as redes sociais na sua adolescência, não é de admirar que estejam neste momento a experimentar o choque inevitável que é descobrirem que os pais tiveram sexo e que este foi animalesco, suado e cheio de fluidos causadores de náusea para idades tão precoces. Daqui a uns tempos, como é natural, as redes (e, consequentemente, os “media tradicionais”) esquecerão a ideia romântica de amor à primeira vista com cruzamento de olhares num sítio escuro e estarão, sem qualquer pudor, a chuparem-se mutuamente no carro dos pais num daqueles pinhais de sobreiros modernos. Até lá, termos que gramar. Não deixa de ser cómico que a preocupação dos pais se desvie de uma gravidez indesejada para a exposição aplaudida do eu em público.
E a vida continuará, como dantes. Excepto para os desgraçados acusados e condenados sem recurso na praça pública. São os chamados danos colaterais.
Fim à privatização da CGD. É urgente nacionalizar a CGD
A CGD vai cobrar as operações ao balcão com caderneta
… Camarada Arménio, camarada Avoila e todos os camarados e camaradas sem esquecer o João Galamba por favor lutem para que a privatização da CGD seja revertida. Se a CGD fosse nossa, se a CGD fosse pública nada disto acontecia. Avante pela nacionalização. A vitória é difícil mas um governo de esquerda não pode tolerar esta actuação infame da CGD. Abaixo a submissão ao poder do capital. A CGD há-de ser pública!
