Casa económica para geringonças
O dono prometeu fechar aquelas duas janelitas, que aquilo só dá despesa.
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O trogloditismo, nosso amanhã

Impostos sobre a luz e sobre o ar
No final do séc. XVII, foi criado no Reino Unido o chamado imposto sobre as janelas. Tratava-se de um imposto sobre a propriedade, tanto mais alto quanto maior o número de janelas num edifício.
Tratou-se de uma forma indirecta de taxar o rendimento (ou, pelo menos, a riqueza), numa época em que os impostos sobre o rendimento eram considerados demasiado inaceitáveis por se considerar permitirem ao Governo devassar a vida privada dos contribuintes (ao passo que o número de janelas estava à vista de todos). Tanto assim foi que só quase 50 anos mais tarde foi criado o primeiro imposto sobre o rendimento na Inglaterra.
O imposto sobre as janelas foi duramente criticado por sem um exemplo precoce de um conjunto de impostos sobre “light and air“, de que as novas regras do IMI são o mais recente exemplo.
Na Inglaterra, o imposto teve um impacto considerável na arquitectura (e na saúde dos ingleses): muitos proprietários taparam as janelas com tijolos, para escaparem ao imposto, com graves consequências na ventilação e iluminação de muitas habitações.
Será interessante ver o que sucederá por cá, com a agravante de os critérios de determinação do que sejam a “localização e operacionalidade relativas” serem consideravelmente mais subjectivos do que o número de janelas.
Julgavam que o sol era a última fronteira?
Enganaram-se! Segundo fontes bem informadas, o orçamento de estado de 2018 agravará o IMI nas casas com boa exposição lunar. Nada mais justo, de acordo com o deputado João Galamba, devido ao aumento de valor romântico-patrimonial que um banho de lua confere a qualquer habitação. E Estado Social não pode aliar-se desta valorização da propriedade, tributando-a necessariamente as suas mais-valias, e criando, desse modo, mais justiça social.

Lobisomem português a pôr-se a andar para um país mais werewolf friendly
Leiam, imprimam e colem na parede este texto do PÚBLICO. Quando estiverem deprimidos voltem a ler. Isto não é um texto mas sim uma terapêutica para a depressão.
«A ideia de que o mundo pode ser melhor cabe numa tenda. Tinham 15 e 17 anos quando participaram pela primeira vez no Liberdade, o acampamento de jovens do Bloco de Esquerda. A experiência foi tão marcante que não voltaram a ser os mesmos, a ver o mundo da mesma forma. Hoje, com 21 e 23 anos, Ana Rosa e Ricardo Gouveia, já militantes e uns dos organizadores do encontro, continuam a acreditar no mesmo: que naqueles dias estão a construir um mundo “livre de opressões”.
“No acampamento construímos um pouco a realidade que queremos no mundo – uma realidade alternativa, livre de opressões. É um pouco isso que ensaiamos no acampamento. Temos um programa com uma série de actividades, em que o objectivo geral é mesmo construir a liberdade que queremos ver no mundo”, diz Ana Rosa, que estudou Ciência Política e Relações Internacionais e se prepara para um mestrado em Antropologia. Ricardo Gouveia, estudante de Arquitectura, acrescenta: “Sai-se do Liberdade com a certeza de que é possível um mundo diferente.”
Embora o BE não tenha juventude partidária, este acampamento acontece há 13 anos. Desta vez, vai ser de 3 a 8 de Agosto no Parque de Campismo de São Gião, em Oliveira do Hospital, e são esperados 250 participantes. Não é preciso ser militante do BE. Há, no entanto, algumas regras: não se permite sexismo, homofobia, ou racismo, por exemplo. Depois há questões de funcionamento que implicam partilha de tarefas como limpeza ou segurança.
O acampamento tem uma filosofia. E uma ideologia. É um acampamento que se assume anticapitalista. E são cinco dias em que os participantes vivem o mundo que gostariam que existisse lá fora. De tal forma que, “quando se regressa do Liberdade, há quase um choque, de regressar à realidade”, descreve Ana Rosa. “Mas é também esse choque que é importante. Construímos ali uma zona e um espaço seguros, onde nos podemos abrir muito mais. E vamos trazendo muitas coisas que depois vamos incutindo na nossa vida”, acrescenta a militante, de voz serena mas segura, e uns olhos castanhos rasgados.
A política também passa pelo WC
Mas como seria esse mundo ideal? “Seria construído e partilhado colectivamente. Livre de hierarquias – procuramos erradicá-las ao máximo no acampamento – e em que tudo seja partilhado. Acima de tudo, livre de opressões, de constrangimentos, sexismo, machismo, homofobia, transfobia, racismo, xenofobia”, descreve Ana Rosa.
Conseguem mesmo construir esse mundo, ou já tiveram de lidar com situações adversas? Sim, já tiveram. Ricardo Gouveia recorda que, numa das edições, experimentaram tornar as casas-de-banho e os balneários mistos. Não correu bem, voltaram às casas-de-banho separadas, mas ainda não desistiram da ideia.
“Tivemos uma situação em que uma rapariga se sentiu desconfortável com rapazes que usaram esta experiência para olhar para elas. Voltámos às casas-de-banho separadas, mas continuamos a ter no nosso horizonte chegar um dia e poder dizer que vamos tornar isto misto, porque queremos mesmo desafiar os limites do género e os papéis de género e os pudores”, explica Ricardo Gouveia. Ana Rosa subscreve: “Para nós, não faz sentido ter casas-de-banho binárias. A separação homem/mulher é extremamente redutora.” Ler mais…
Coincidências
Estou na mesma casa onde estava quando Paulo Portas anunciou a sua demissão irrevogável. Na altura, graças à RTP Play, liguei-me ao mundo lusitano, muito mais afastado do que o que o mapa mostra, neste cantinho de Mediterrâneo (nota para o comentador Arlindo: Há muito mais praias e cantinhos pouco tocados pelo homem em Espanha que em Portugal, por muito que julgue toda a costa por Benidorm, uma pequena aberração no grande esquema das coisas).
Na altura, sabia que o governo cairia. Não caiu graças a um homem, o tão odiado na escala de Cavaco, Pedro Passos Coelho. Houve asneiras nesse governo, claro. Talvez não tantas em 4 anos como com este em 4 meses, mas houve. Nessa altura percebi que quando há vontade, ela prevalece, pelo que tem que ser, pelo que tem muita força. Daí que o meu desejo seja mesmo o da prevalência de Costa, pessoa que considero bastante imbecil e que, quando parece difícil que reforce essa percepção, nunca decepciona. Porém, seja António Costa tão homem quanto o outro foi e teremos geringonça por mais 4 anos. Porque também é assim que se separam os homens dos homenzinhos, mostrando que sabem lidar com as birras da miudagem. E miudagem a circundar Costa não falta.
Se é colar cartazes, isso eu faço
Ontem, a caminho de férias, passei no centro de Madrid às 4 da manhã espanholas. Há muitos anos que não vou a Madrid, só passo a cidade pelos túneis que ligam a A–6 à A–3, rumo a um habitual cantinho do Mediterrâneo ibérico. Saltou à vista o cartaz “refugees welcome” no Palacio Cibeles. Porque haveria alguém de desejar receber refugiados? A existência de refugiados não significa que estas pessoas escapam a alguma coisa? E, se escapam a alguma coisa, porque haveriam de suportar o sentimento racista dos que cá estão, preparado para demonstrar o quão bom nós somos por os recebermos, colocando um pindérico cartaz num edifício icónico e lavando as mãos com a chegada dos que consideramos pobres coitados – cá está o racismo – por não terem onde cair mortos?
Colocar cartazes é fácil. Mais difícil é oferecer a piscina pública e voluntárias para sexo consensual, para combater as violações. Mais difícil é escalar a frequência de locais públicos entre os agradecidos pelos refugiados e os desconfiados, para que o certificado maluco que se rebentar só matar pessoas que acham o risco aceitável. Mais difícil é proibir saias acima do joelho para pessoas – algumas dessas desgraçadas às vezes até usam crucifixos – das que não entendem que isso é um convite a um pobre refugiado a enfiar a mão num dia em que não lhe apetece enfiar outra coisa. Mais chato é arranjar voluntários homossexuais para serem apedrejados até à morte para que respeitemos a cultura deles, que isto de culturas inferiores não há, é tudo bom e ritualisticamente aceitável.
Eu estou disponível para pendurar um cartaz desses. Arranjem-me só os voluntários necessários do parágrafo interior e terão em mim um aliado do “refugees welcome”.
Deve ser distracção minha
ou quiçá da grande ocupação em que tenho andado mas não dei ainda por manifestação, cordão humano ou simples tentativa de oferecer florinhas aos funcionários da embaixada da Turquia. Mas certamente que já houve qualquer coisa não houve?
A saber
Os turistas descaracterizam a cidade. Os turistas expulsam os habirantes dos bairros tradicionais. Os turistas assim e assado… Mas construir ciclovias porque é crescente o número de turistas que querem andar de biciclete isso sim é óptimo. Quanto aos nativos devem ser milhares os habitantes tradicionais dos bairros tradicionais Lisboa ou que tendo sido expulsos par a periferia por causa do turismo se deslocarão de biciclete do Cacém (que só agora com o turismo se encheu de gente) para Lisboa nestes dias de Agosto com temperaturas acima dos 30.
Grande concurso blasfemo
Está aberto, nos comentários a este post, o grande concurso ADIVINHE O TÍTULO DO PRÓXIMO LIVRO DO SÓCRATES. O concurso terminará mal seja divulgado o nome da obra. O prémio para os participantes será não serem obrigados a ler a coisa, quando publicada; o castigo para o vencedor será a oferta de um exemplar. Participe as vezes que quiser!
Eis as minhas tentativas:
- Compêndio de inglês técnico
- A minha luta
- Decoração de interiores para apartamentos
- Os melhores restaurantes em Paris
- Este livro foi mesmo eu que o escrevi-o
- Nomes de mulheres: de A a G
- Libertem o Willy! Eu libertei-o sempre que pude
- As minhas memórias de ver o Eusébio jogar
- Construção civil para emigrantes
- Alfabetização: precedendo a betagamização
- Saber delegar
- Desconfiança no sistema bancário
- Guia para uma amizade feliz
o novo herói português
Como era previsível, a União Europeia não aplicou quaisquer sanções a Portugal. Resmungou, fez cara feia, ameaçou, mas, no fim de contas, todos sabemos que não se tira o oxigénio a um moribundo, sob pena de o matarmos antes do tempo, com a comoção e hostilidade gerais, sentimentos de que ninguém precisa e de que todos prescindimos. No caso, a União e o governo português irmanaram-se tacticamente, desde o começo, em todo este bizarro processo, com evidentes proveitos recíprocos. O governo capitalizou, para consumo interno, com o discurso de que não cederia a Bruxelas, e Costa, o homem que bravamente enfrentou, nos jornais portugueses, a Comissão Europeia, é o novo herói português: demonstrou que as pernas dos banqueiros alemães tremem, quando um socialista português lhes fala grosso. Cai quem quer, mas não faltará quem queira, como as próximas sondagens certamente revelarão. Já a Comissão Europeia justificará a condescendência pelo mau estado geral de conservação do cadáver, garantido à Alemanha e aos países do norte que para o ano é que vai ser. Promessa que, de resto, o governo português aproveitará para nos ir aos bolsos em 2017 e para pôr em sentido os seus parceiros de coligação. Enfim, tudo está bem quando acaba bem. Honra e glória aos heróis da pátria!
Paz, amor e concórdia! É possível! Ligue já! Só 9,99€.
O Islão é uma religião de paz. Desde que não sejam publicados cartoons, se acabe com missas, se fechem as esplanadas, sejam abolidos concertos, acabem com aglomerados de gente no geral e se integrem os estrangeiros no maior respeito multicultural determinado pela interpretação de cada um da Sharia através do extermínio de todos os que nela não se identificam, haverá paz, tranquilidade e amor. A primeira medida do ocidente para a paz deverá ser acabar com o discurso de ódio, deixando que cada comunidade resolva os seus próprios problemas através de inevitáveis homicídios de honra. Mulheres que mostrem o cabelo deverão ser assassinadas em tranquilidade pelo seus pais e irmãos, sem interferências pestilentas e colonizadoras dos países de acolhimento. Humanistas locais deverão providenciar a sua sensibilidade homossexual para homens oriundos dessas culturas, partilhando o amor ecuménico que transforma violações em consentimento, consentimento em gula, gula em SIDA. Senhoras que choram nos jornais poderão fornecer sevícias sexuais que mantenham a sensibilidade cultural e o nível de testosterona bélica controlada, originando alegria a todos, mesmo os que não querem malucos estrangeiros nos seus países, assim como da comunidade de pornógrafos do género “arab male white female”. Pequenos crimes como degolar obsoletos padres deverão ter o destaque que merecem, depois das notícias referentes à selecção nacional de halterofilismo e da nova tendência em tatuagens. Aconteça o que acontecer, não votem em populistas demagogos que propõem soluções, nem que tontas, para o problema. Votar é em patriotas multiculturais que combatem as regras da União Europeia com a mão direita enquanto a esquerda continua estendida para a esmola. Tudo correrá bem, se ouvirmos as pessoas que sempre nos trouxeram à necessidade extrema de ouvir pessoas que nos trazem à necessidade extrema.
Pergunta o Observador
E se António Costa processar mesmo Bruxelas?
Ora, ora se António Costa processar mesmo Bruxelas nós pagamos o advogado
A monomania terrorista
Eu estava errado, como tantas vezes antes
A execução orçamental do primeiro semestre é maravilhosa. O governo – que sempre considerei mais perigoso de que uma praga de gafanhotos – demonstra ser de uma sagacidade nunca vista no cargo executivo nacional. Eu estava errado, admito. É mesmo verdade: as vacas voaram e o muro de Berlim foi derrubado. Perante resultados tão avassaladores, é imperativo combatermos as tentativas de derrube desta estrutura a que carinhosamente chamamos de “geringonça”, tudo fazendo para que concluam a legislatura na normalidade democrática que asseguraram aquando da vitória da democracia parlamentar sobre a tradição castradora do bi-partidarismo. A geringonça é prova cabal que o homosocialismo polipartidário gera os afectos que levam a consensos e que elevam o país ao patamar tão almejado de desenvolvimento económico, social e moral. Se, perante o risco de sanções e a inerente desconfiança dos mercados conseguimos este tipo de resultados, para 2017, ao serem confrontadas as instituições com a constatação da mudança, só podemos esperar mais daquilo que nós gostamos e não conseguimos através de anos duros com a austeridade que mata. O cinismo de uma certa direita irresponsável do “quanto pior, melhor” poderá forçar eleições através de hipnose que leve o dr. António Costa a demitir-se sem querer e sem motivo. É importante não permitirmos que estas jogadas palacianas originem resultados.
Viva a geringonça! Viva António Costa! Viva Portugal!
Homem morreu, coitado
Homem morreu – paz à sua alma – porque a bomba que transportava e fez detonar acabou por explodir, ceifando a vida deste inocente e de outro palerma qualquer que agora não interessa para nada.
(Via @joaops)
Ainda bem…
São coisas que acontecem
Calma aí com os julgamentos precipitados. Só porque um senhor sírio aparece de machete na rua não significa que o amor não deva prevalecer perante o ódio. O mais certo é ter sido um senhor sírio refugiado e portador de machete de extrema-direita a comemorar os 5 anos do atentado do norueguês nazi. Até porque ninguém comemora os atentados do Che excepto em t-shirts giras. Se a mulher morta o tivesse amado, poderia ainda ter uma cabeça para nos alertar do perigo de não amar preventivamente. Esta mulher foi vítima do seu próprio preconceito à posteriori. Se calhar nem estava grávida. Talvez tenha sido um senhor sírio refugiado portador de machete que é maluco, como o de ontem e o de segunda-feira. Toda a gente sabe que não faltam malucos à solta. Quais as probabilidades de um maluco ser um refugiado sírio portador de machete? Como diz a Helena Araújo, são só coisas que acontecem.
Vou-te às trombas, Maria Bruxelas
Maria, vai lavar a louça. Vai lá e despacha-te que eu estou entesoado e preciso que venhas rápido para a cama. Vais ter sorte. Anda lá, avança com isso. Queres levar um murro na fronha? Dói-te a cabeça? Não te pusesses a ouvir aquela trampa em estrangeiro. O bebé não pára de chorar. Já não aguento mais. Vai lá ler-lhe uma história pungente da Helena Araújo para ela adormecer multicultural. Estás a ficar com as pernas rechonchudas para skinny jeans, Maria. Traz os chinelos. Traz o carregador do MacBook. Dá-me carinho, Maria. Cheiras mal dos pés. Vai-te lavar. Este bebé não se cala, dá-lhe um abanão. Anda cá, não me sanciones; dá-me carinho, Maria.
Admito processar-te se não pinarmos imediatamente.

Consequências lógicas não referidas pela Helena Araújo
- O homem do machado equipara-se a Deus no julgamento dos justos;
- O homem do machado concluiu existir pelo menos um não-justo na carruagem chacinada;
- Devemos amar o homem do machado como a nós próprios.
Toma um balão, pequeno palhacito
Há uma série de palhaços que, perante a matança de Munique, salientaram o quão ridículo é a Europa falar de sanções enquanto acontecem estas coisas, muito mais graves que umas décimas de défice. Numa meta-crítica – já que estes palhaços falaram eles próprios de sanções durante a ocorrência de algo muito mais grave que umas décimas de défice -, articulada com o gabinete de lubrificação da geringonça, indicam três coisas: 1) os socialistas querem sanções não simbólicas; 2) os socialistas querem eleições; 3) os socialistas querem um motivo para eleições.
O motivo vai ser sempre difícil de arranjar. Mas, é por isso que temos palhaços, não é? Para vos tratar como criancinhas. Toma lá mais um balão, petiz.
escusam de se preocupar
Todas as guerras ofensivas têm um fim e o fim de todas as guerras ofensivas é sempre derrotar um inimigo para lhes conquistar alguma coisa. A recente vaga de terrorismo islâmico demonstra que há uma guerra a decorrer no meio de nós, que apenas o nosso receio natural nos leva a relativizar ou mesmo a fazer de conta que não está a acontecer. Contudo, a Europa está em estado de guerra, os EUA estão em estado de guerra, a Turquia está em estado de guerra, e muitos outros países, vítimas do terrorismo islâmico, estão em estado de guerra. Porquê? Ainda por causa do Iraque? Mas o que têm a Tunísia, a Costa do Marfim, a Indonésia ou o Brasil a ver com isso? São alvos estrangeiros, turistas ou nacionais de países europeus, que são visados nesses ataques? Talvez. E isso justifica que os ataques sejam feitos nesses países? Provavelmente sim, mas só se for para passar a mensagem de que já estamos a viver uma guerra global, a primeira verdadeira guerra mundial de sempre, onde nenhum país ou lugar podem considerar-se seguros, e todos eles podem transformar-se, de um momento para o outro, em teatros de guerra. Ainda assim, fica a pergunta principal por responder: o que quer o inimigo com isto? Se é para vingar o Iraque, por que é que nunca houve atentados terroristas no Irão, que teve uma guerra com esse país ainda mais violenta do que a invasão americana? Por fanatismo religioso? Choque de culturas e de civilizações? Sem dúvida que a esmagadora maioria daqueles que perpetram os ataques deve acreditar que está a cumprir um desígnio de Deus, do seu Deus, contra ímpios e infiéis. Mas tudo isto parece curto para justificar um plano tão bem orquestrado e executado como aquele a que estamos, quase impávidos, a assistir. Até porque um esforço de guerra ofensiva visa sempre objectivos muito claros e bem delineados. A pergunta inicial volta, então, a colocar-se: o que pretende, quem ataca, com esta guerra? Provavelmente, se levarmos a sério as anunciadas intenções do Daesh, teremos a resposta: retomar a fatah de Maomé e do Império Árabe, recuperando o que lhe pertenceu e acrescentando-lhe o que for possível. Para tanto, começa-se por desmoralizar e desorientar o inimigo, abalando-lhe severamente o seu modo de vida e os seus valores civilizacionais, ficando à espera que ele cometa alguma imprudência. Depois, continuar a guerra e abrir novas frentes. Há tempo: não se trata de uma guerra para demorar poucos anos, como não o foi a expansão muçulmana, que durou séculos, e a progressão do terror islâmico tem sido constante. Neste cenário, como é habitual na hipocrisia ocidental, há quem procure desvalorizar os acontecimentos, sempre a tentar encontrar outras razões para os factos que não o terrorismo («pode não ser um atentado?», perguntava, ainda há pouco, uma locutora da RTP1). E há até mesmo quem, fazendo humor negro em circunstâncias tão sérias, se diga muito apreensivo com uma possível guerra que possa resultar da eleição do exótico Donald Trump. Mas escusam de se preocupar com isso: nós já estamos no meio de uma.
Está um indivíduo na SICN…
…a dizer que é preciso combater a islamofobia. Por algum motivo que me escapa, está a dizer isso aos telespectadores em vez de o dizer aos muçulmanos que amigavelmente se rebentam nas esplanadas.
uma vergonha?
O senhor ex-ministro Correia de Campos tinha supostamente garantida, por negociação entre PS e PSD, a sua eleição para o cargo de presidente do Conselho Económico e Social (CES). Posta a coisa a votação na Assembleia da República, alguns dos votos necessários para a maioria que o elegeria não se verificaram e Sua Excelência ficou sem a sinecura o cargo que lhe tinham prometido. Vai daí, um alto dirigente do PS considerou o caso «uma vergonha», porque o PSD teria falhado a votação a que se «comprometera»
Ora, salvo melhor opinião, «uma vergonha» é tratar os deputados como gado sem vontade própria, nem autonomia em relação aos directórios dos seus partidos em questões tão elementares como a eleição do titular de um cargo político. Por qualquer razão que ignoro, alguns deputados terão considerado que Correia de Campos não era a pessoa adequada para o exercício de tal cargo e não lhe deram o voto recomendado pelo partido a que pertencem. Isto, que em qualquer parte do mundo democrático seria visto como uma normal decorrência da liberdade de consciência de deputados eleitos pelo povo, foi considerado um acto desonroso por não obedecer à disciplina partidária. Uma vergonha, de facto, é que haja por cá quem assim pense.
Batistas da Silva há muitos

Depois dos atentados de Nice esta senhora de seu nome Isabel Romero presidente da Junta Islámica e directora do instituto Halal Romero fez várias declarações a televisões espanholas. A dado momento resolveu citar um relatório da UNESCO que segundo ela classifica o Islão como a mais pacífica das religiões.
De imediato vários jornalistas, activistas, pacifistas… replicaram essa informação: segundo a UNESCO o Islão é a mais pacífica das religiões. (Aliás nem tem parecido outra coisa nos últimos anos. O nosso problema são mesmo os católicos e os budistas!)
Pouco depois lá veio a UNESCO declarar que o estudo não existia. mas enfim a senhora não deve ter mudado de fé. E no próximo atentado lá estaremos no mesmo. Nem sei como seria o islão se fosse uma religião um tudo menos pacífica!
as 50 sombras de garcia pereira
Havendo desenvolvimentos recentes sobre o affaire Arnaldo Matos/Garcia Pereira/MRPP e por estarmos a entrar na silly season e não me estar a apetecer escrever nada, tomo a liberdade de republicar um texto, com alguns meses, sobre tão particular ajuntamento de cidadãos.
Custa ler o artigo, ontem publicado na revista Sábado, sobre o MRPP e a zanga entre Arnaldo Matos e o seu obediente discípulo Garcia Pereira. O género de relações existentes no pequeno grupo de dirigentes de um partido que, em legislativas, ainda recolhe mais de 50 mil votos, faz lembrar mais as práticas de um grupo sadomasoquista hardcore do que as de um agrupamento político. Em breves palavras, o MRPP era (é?) dirigido, na sombra, por um <em>dominatrix</em> chamado Arnaldo Matos, tratado, com veneração e temor, pelo nome másculo de «Espártaco», ou, em alternativa, por «”O” camarada». Neste último caso, o artigo definido é colocado em maiúscula para afirmar devidamente o ascendente que aquele cujo nome não pode sequer ser dito mantinha e mantém sobre uma verdadeira horda de palermas chefiada, até há pouco, por Garcia Pereira, um sujeito que ensina Direito em várias Faculdades. Depois, como numa relação sadomaso de grau extremo, «”O” camarada” tratava mal os seus submissos, insultava-os, ameaçava-os, torturava-os psicologicamente e obrigava-os a trabalhar para o servirem pessoalmente, com sacrifício, dor e humilhação. O medo que os escravos tinham do dono era imenso e, mesmo quando ele não estava fisicamente presente, os mecanismos de submissão e sujeição total à sua personalidade dominadora não desapareciam. Por sua vez, quando “O” senhor queria castigar os escravos, e isto acontecia mesmo que eles nada tivessem feito para o merecer, obriga-os à «autocrítica». A «autocrítica» consiste num exercício de pura humilhação pessoal dos escravos de Matos, que, em resposta à voz do dono, confessam, publica e submissamente, as «faltas» que obviamente não cometeram, como aconteceu recentemente com Garcia Pereira, que, depois de um enxovalho público que lhe infligiu «”O” camarada», redigiu estas singelas palavras: <em>«Camaradas, esta é a justa crítica que o camarada Arnaldo Matos me dirigiu (…) Tenho de conseguir reflectir seriamente em todas as minhas tarefas e responsabilidades»</em>, escreveu o pobre diabo, numa carta dirigida aos colegas de partido. O que é mais admirável nesta história toda não são tanto as relações de escravidão a que Arnaldo Matos submetia Garcia Pereira e os seus submissos. O sadomasoquismo é uma prática antiga como o mundo que atrai incontáveis adeptos e, numa sociedade livre, deve ser tolerada, desde que não afecte mais ninguém para além seus adeptos. Todavia, os cultores do sadomasoquismo mantêm relações consentidas, das quais retiram, quase sempre, prazer físico e sexual. Aqui, no MRPP, que se saiba, «”O” camarada» nem sequer ia com eles para a cama. É só mesmo apanhar porrada pela porrada.

Pequeno incidente sem a mínima importância
Os adolescentes são problemáticos. Lá porque um desses, refugiado, entra num comboio com um machado aos gritos de Allahu Akbar, isso não significa que tenha a ver com religião. Podia ter gritado abracadabrante, Isabel Moreira tatua-me ou dá-me o teu pénis rechonchudo. Seja como for, importante é que a família dos feridos seja compreensiva, tolerante e não se meta aí a votar nas Le Pens ou nos Trumps, que isso seria muito errado.
afinal, a austeridade é para continuar e remoçada
Lemos e pasmamos. Afinal, a austeridade não tinha terminado? Afinal, não era possível outro caminho no Tratado Orçamental e na União Europeia? Afinal, não bastavam meia-dúzia de medidas keynesianas para pôr as pessoas a consumir e a economia a crescer? É verdade que as contas públicas têm sido severamente prejudicadas pelo sector financeiro, graças aos sucessivos problemas do BPN, do BPP, do BANIF, do Novo Banco e da Caixa. Descontando as responsabilidades pessoais dos políticos que governaram Portugal nos últimos vinte anos (tema que explicaria muita coisa e que teria mesmo impedido, a montante, alguns dos prejuízos ocorridos, mas que agora, a jusante, de nada serve para pagar facturas), ignorava o governo actual a dimensão dos problemas do país? Será que, quando nos prometeram um caminho fácil, os actuais governantes desconheciam o que toda a gente comum já sabia: que o Novo Banco não se venderá sem enorme prejuízo para o estado e que a Caixa está falida e precisa urgentemente de capital? Parece que não. Parece que todos ignoravam que, afinal, a austeridade não só continuará, como será mesmo reforçada com novas medidas no orçamento do próximo ano, e que só se encontrarmos petróleo no Beato o país resistirá à política da geringonça.
Uma Europa chamada Roma
Perceber as motivações
“Perceber as motivações” de criminosos é moderno. Olhe, o senhor passou a ferro mais de uma centena de pessoas com um camião. Quer explicar-me o motivo? Você deitou fogo à floresta que continua a arder, obrigando ao realojamento de populações e causando a morte a três bombeiros. Explique-me o porquê. O senhor recebe malas de dinheiro que diz ser emprestado sem sequer saber quantificar quanto deve. Qual é a razão? Vocês entraram na casa da velha, que incendiaram depois de a violarem à vez. Foram oprimidos por tijolos de direita? Os senhores reuniam-se numa casa onde havia meninos à disposição para enfiarem as pilas. Porquê? É uma resposta ao estigma da infertilidade?
Porém, “perceber as motivações” é importante. Em particular, é importante perceber as motivações dos palermas que querem “perceber as motivações”.
Explicação neo-feminista plausível
Isto são coisas que acontecem. Às vezes, na vida conjugal, a tensão é tão grande que uma pessoa passa-se por completo. É de saudar a atitude deste homem, que para evitar dar mais uma chapada à desgraçada que com ele vivia, foi dar uma voltinha no seu camião. Foi ver o mar, desanuviar, contemplar a beleza infinita do universo que coloca todas as preocupações em perspectiva reveladora da insignificância cósmica de simples adversidades mundanas.
Precisa-se
Homem branco, louro e católico. De extrema-direita. Para fazer ataque terrorista.
Basta que simule explodir-se apenas a ele mesmo.
Em seguida deixarão de ser os camiões, a pobreza e a discriminação a matar. Será ele mesmo: o racista, xenófobo, fascista… o terrorista enfim. Sempre será um avanço na discussão do assunto.
A isto temos de acrescentar a crise, a precaridade, a vida nos subúrbios ou no centro e a falta de apoios sociais

Eu diria até que está fortíssima
Hollande: “A França chora mas é forte e será sempre mais forte do que os fanáticos”
Nice
É extremamente importante que não se noticie o nome do indivíduo que cometeu a atrocidade em Nice. Temos que compreender as motivações, para relativizar o que se passou à luz da homofobia, do heteropatriarcado, do Brexit, da colonização de África, das cruzadas e da omnisciência repressiva da civilização ocidental desde o paleolítico. Uma coisa é certa: a culpa é da Merkel, do Passos Coelho, do Schäuble, do neoliberalismo, do tratado orçamental e do capitalismo que mata – agora só temos que o provar.
A excepção
Os franceses são um povo dado às excepções. Por exemplo, estão em fúria com a ida de Durão Barroso para o Goldman Sachs. Curiosamente mantiveram-se em contrastante silêncio quando Gerhard Schroeder foi trabalhar para a russa Gazprom.
Um agradecimento sincero
Hoje tive uma conversa franca com o meu filho mais velho. “Que pensas que gostarias de fazer na vida”, perguntei. Respondeu-me coisas ligadas à engenharia, como cálculos de estruturas e recuperações de casas velhas. “Não gostavas de compreender mais sobre a nossa história? Ou sobre as interacções sociais dos indivíduos numa sociedade”, perguntei, a armar-me em estúpido. “Não, queria fazer um curso em que aprendesse ciência”. “Mas estas são as ciências sociais”, retorqui, perante um esgar cúmplice de quem compreende a comicidade da resposta. “Isso só dá para comentadores de televisão”.
O meu muito obrigado a figuras ilustres do nosso país, como o dr. Rui Tavares ou o prof. Fernando Rosas pelo esforço de promoção das ciências sérias aos jovens.
o barbeiro de figaro
O governo francês, pela voz do secretário de Estado dos Assuntos Europeus, pediu a Durão Barroso que desista do cargo que aceitou na Goldman Sachs, por se tratar de um escândalo «moral, político e ético». No afã de moralizar a coisa pública, certamente que o governo de M. Hollande não deixará de despedir o cabeleireiro do presidente, que, soube-se por estes dias, ganha 10 mil euros mensais para lhe escovar a careca. Ficando esse lugar vago e seguindo os conselhos que lhe foram dados pelo governo francês, quem sabe Barroso não possa vir a ocupar o substituir o barbeiro. Certamente que o salário não ficaria muito atrás do que receberia na Goldman Sachs.


