bipolaridade austeritária
O PS vive momentos de animada bipolaridade política com alguns dos seus dirigentes e responsáveis a fazerem de conta que Mário Centeno não é presidente do Eurogrupo e com Mário Centeno a fazer de conta que aquilo que agora diz é igual ao que disse no passado e ao que fez e faz no presente. O nó cego é, essencialmente, o da célebre «austeridade», mas diga-se em abono da verdade que o vídeo do presidente do Eurogrupo, que pôs a esquerda da geringonça a simular achaques e ataques de indignação, é somente uma singela cereja em cima de um enorme bolo que já dura há três anos. É que nem a austeridade acabou em Portugal, nem acabou na Grécia, nem o que Centeno diz sobre a saída grega contraria o que ele por aqui faz, embora contrarie muito do que ele por aqui disse. Mas o que interessa é a cena de palco, o teatro com que os protestantes julgam poder amealhar algum crédito na opinião pública e dentro dos seus partidos. Depois de Galamba, que parece não ter ainda percebido por que deixou de ser porta-voz do PS, dos bloquistas e de outros do género (por acaso, não dei conta do PC…), agora foi a vez da Senhora Ana Catarina Mendes, a nº 2 do aparelho socialista, meter a sua colherada, em suposta defesa de Centeno, tendo bocejado esta frase estonteante:
Vamos decompor isto, para melhor entendermos a indigência da coisa:
«saudar esta saída é perceber que na Europa se desenha um novo futuro». Porquê? Qual futuro? Em que consiste essa esperançosa promessa? E que raio tem o facto da Grécia ter começado a pôr as suas contas públicas em ordem e a pagar as suas dívidas aos credores com «um novo futuro para a Europa»? Nonsense.
«a reforma da zona euro se impõe». Esta afirmação é ainda mais enigmática do que a anterior. O que significa «reformar a zona Euro»? Será acabar com a moeda única? Isso não seria uma reforma, mas uma extinção. Será deixar de impor limites aos gastos orçamentais dos estados? Isso seria igual ao fim do euro, pelo que voltamos à hipótese anterior. Consequentemente, não é possível perceber o que diz a deputada Ana. E julgo que ela mesma não terá compreendido o que disse.
«a solidariedade é mais importante que a austeridade». Quando se celebra o fim, supostamente bem sucedido, pelo menos é o que diz o ministro Centeno, de um programa de austeridade, como se pode dizer que o que se está a comemorar é o seu oposto? A não ser que a deputada Catarina Santos ache que esta austeridade foi solidária, no que não estaria longe da verdade, tendo em conta os muitos milhões que os credores puseram nos cofres públicos gregos para que estes pudessem pagar os custos das suas muitas asneiras. Mas acredito que não fosse isso que lhe ia no espírito. Nem isto, nem coisa nenhuma.
De asneira em asneira, de disparate em disparate, o PS, o Bloco e o PC continuam a fazer de conta que Portugal não vive em austeridade, que tudo vai bem, que os portugueses já não passam dificuldades e que as cativações de Centeno são melhores do que os cortes de Gaspar. De tempos a tempos têm de fazer-se de virgens púdicas e ofendidas para os eleitores não repararem que fazem deles lorpas. É só isto.
Novíssimas Cartas Portuguesas

Ilma. e Ex.ma Senhora Madonna Louise Ciccone
Mão amiga fez-me chegar aqui a Santa Comba Dão a sua última entrevista à Vogue italiana e não queria deixar passar a ocasião sem lhe dirigir algumas palavras. Sinto que há pontos em comum nas nossas mundividências, algo que talvez encontre explicação no facto de ambos termos nascido em terras pequenas da província antes de nos estabelecermos na grande capital do Império Português. E acho curiosa a relação que mantemos com esses sítios, Santa Comba, em Viseu, e Bay City, no Michigan: no meu caso, os locais querem construir coisas em minha homenagem e os restantes portugueses opõem-se; no seu, a generalidade dos americanos quer construir coisas em sua homenagem e são os locais que não deixam! Vá-se lá entender o povo.
Não sei se sabe mas eu sou, tal como a senhora, filho (embora adoptivo) de um italiano. Chamava-se Benito e também ficou conhecido pelas turnês, nomeadamente as que fez em território africano (o meu outro pai é o Afonso Costa, mas, aí, tratou-se de um acidente, uma gravidez não desejada, uma falha na contracepção, coisa muito normal na primeira metade do século XX). E embora tenha vivido numa altura em que não existiam redes sociais, geria a minha imagem à maneira da sua conta de Instagram: as pessoas só sabiam onde eu estava depois de eu já lá não estar. Como os jornais só diziam que o Presidente do Conselho esteve aqui ou acolá, deram-me a alcunha de “Esteves”. Peripécias de pop star a que os fãs nos obrigam.
Apesar de não ser minha a expressão dos 3 F´s – Fado, Futebol e Fátima –, sinto-me muito orgulhoso por ser do seu agrado. Pelo que vou vendo, muitas das pessoas que, cheias de moral, os usam para criticar a política do Estado Novo, andam simultaneamente a enriquecer à conta deles. A vida é assim, repleta de surpresas. Ainda agora, por causa de uma francesa de quem gosto (desde que passei férias com a Christine Garnier que tenho um fraquinho por mulheres do Hexágono), tivemos os meus maiores detractores agarrados ao conceito de liberdade de expressão que sempre defendi. Como a minha cara amiga já explicou devidamente, podemos perfeitamente sentir-nos like a virgin e dar boas cambalhotas ao mesmo tempo.
Antes de me despedir, permita-me uma sugestão: a dupla consoante do seu nome próprio denuncia uma origem estrangeira que não me parece compatível com o grau de portugalidade entretanto adquirido. Gosto de pensar em si, nos últimos tempos, como a herdeira ideológica que nunca tive, e seria uma grande honra para mim que deslocasse um dos “n”. Sugiro que o ponha entre o “a” e o “d”. Ficaria perfeito.
De V. Ex.a.
Sincero e recente admirador
António de Oliveira Salazar
A protecção de dados só não se aplica ao contribuinte
Catalunha, dizem que é uma espécie de progressismo
E se onde se escreveu tourist estivesse refugee?


(Tirado daqui )
Momento infantil


Come o sapo,
Joana come o sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo,
Joana come o sapo
Um, dois, três,
uma colher de cada vez
Quatro, cinco, seis,
era uma história de reis
E uma colher de sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo,
Joana come o sapo
Sete, oito, nove,
ainda nada se resolve
Dez, onze, doze,
á espera que a mosca pouse
E uma colher de sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo,
Joana come o sapo
Treze, catorze e meia,
a coisa não está tão feia
Dezesseis, dezassete,
mais um pingo no babete
E uma colher de sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo
Come o sapo,
Joana come o sapo,
Joana come o sapo


lamentável, deputado galamba
O deputado João Galamba, um jovem socialista cujos talentos já foram mais apreciados no partido que o alberga, considerou «lamentável» um vídeo do Senhor Euro, para quem não saiba quem é, o também nosso ministro das finanças Mário Centeno, onde este se congratula com o «êxito» do programa de intervenção externa dos credores na Grécia, graças ao qual, e a algumas medidas de ajustamento financeiro do estado que foram aplicadas, o país voltou a respirar economicamente. O deputado Galamba viverá ainda nas doces ilusões da juventude, para as quais a vida é sempre bela e os sacrifícios são ameaças dos pais, sempre que fazemos uma birra por não nos darem o brinquedo que desejávamos. Ora, caro deputado, eu diria que lamentável, mas lamentável mesmo, é fazermos de conta que a austeridade não existe e já acabou, e assobiarmos para o ar, «nós» que vivemos confortavelmente em Lisboa à pala do orçamento de estado, ignorando que as pessoas ditas comuns continuam a fazer sacrifícios para viver. Pela parte do ministro Centeno, caro deputado, e apesar dos muitos truques de retórica, ele sabe bem que a austeridade é para continuar, porque há ainda muitas contas para pagar. Quando um dia o meu amigo sair do parlamento, talvez compreenda o que isso é.
Em terras da Sra. Merkel
Quando vi um comentário às minhas publicações durante as minhas férias na Alemanha vindo de alguém da ala do PSD e que se desunha para provar que sou “xenófoba”, pensei imediatamente que a melhor forma de colocar este tipo de pessoas no lugar seria escrever sobre a minha pequena passagem pelas terras da Sra. Merkel. Mais do que um dever cívico de testemunho real sobre o que por lá se passa, é desmistificar este conceito tão estúpido de que, quem se pronuncia contra as migrações descontroladas e massivas de jovens que chegam sem documentação de todo o lado, e imposição da cultura e tradição islâmica aos ocidentais, são “racistas”. Isto tem de acabar.
Do BE, do PCP, do PS espero tudo. São correntes ideológicas fundadas a partir do marxismo onde a demagogia reina desde que Karl Marx a criou. Mas dos que se dizem sociais democratas ou de direita, espero coerência, bom senso, inteligência, capacidade de análise e objectividade e não mais do mesmo dos nossos camaradas. Por isso, quando essa criatura me perguntava se na Alemanha tinha encontrado e passo a citar: “um país invadido por muçulmanos e assolado por guerras civis e violações em massa onde impera a Sharia que nos descrevem os sites de “notícias falsas” que tanto circulam nas redes sociais”, gelei. E eu a pensar que só os esquerdistas é que se saíam com estas pérolas!
Vamos lá pôr os pontos nos “is” de uma vez por todas: a Alemanha não está ainda invadida; as violações ainda não são em massa; a sharia ainda não está legalizada. Mas isso não quer dizer que as imagens e testemunhos reais que nos chegam de todo o lado em vídeos amadores, são falsos. De todo. Não é por eu viver neste cantinho a norte do céu lusitano que não existe Chelas em Lisboa, nem por ainda não ter nascido nem visto, que não tenha havido Holocausto ou Holodomor. Vamos ser sérios.
A Alemanha que encontrei ainda é um país ocidental. Claramente. Multicultural mas ocidental. Muitas culturas que convivem saudavelmente umas com as outras com base nos valores ocidentais. Em Colónia, onde estive umas semanas, apesar da riqueza cultural, sentimo-nos ainda em terras germânicas com uma predominância de alemães. Nitidamente. Mas esse sentimento aumenta ainda mais quando vamos para os arredores da cidade. Longerich por exemplo, é uma localidade simpática, sossegada, limpa, bonita, muito segura onde as pessoas vivem tão tranquilamente que até deixam os carros e casas abertas. Não há registos de criminalidade naquela zona. Mas aqui praticamente só vive alemães. Coincidência? O certo é que há zonas na cidade que, ao contrário desta, a paisagem muda. Mais feia, mais destruída e desleixada onde a predominância é claramente doutras culturas. Porque será?
Sempre ouvira falar dos alemães como sendo um povo frio ficando com a ideia até, de serem antipáticos e racistas. Nada mais falso. O povo alemão tem uma cultura e educação incríveis. É gente trabalhadora e focada que não se mete na vida de ninguém, não faz juízos de valor, respeita as liberdades dos outros, é civilizado, é inclusivo e de uma simpatia contagiante. Quiçá por um passado nazista que marcou profundamente a História, este povo é aberto e convive muito bem com as outras culturas. Mas ao fim de algum relacionamento, e sempre com muito medo de serem mal interpretados, sente-se o receio no ar. Fala-se por entrelinhas porque até o governo está atento aos discursos agora conotados de “xenófobos” e ninguém quer perder o emprego ou ser alvo de processo. Os noticiários são extremamente breves e a informação sobre o tema é pouca. Sabemos mais nós sobre eles que eles próprios. Nitidamente. É tabu falar de uma certa cultura. Mesmo com os atentados (ou tentativas) ali à porta na estação central de Bonn com malas descobertas com explosivos em 2012; mais malas com explosivos na estação central de Colónia em 2006; em Dusseldorf o ataque frustrado com bomba em 2011 e outros com colete de explosivos em 2016; os estupros junto ao Dom em Colónia na passagem ano em 2015 ou a prisão do terrorista que planeava um ataque químico em Colónia em 2018. É tabu falar. São cautelosos. Relativizam. Porque os alemães andam “amordaçados” pelas “brigadas” do politicamente correcto.
Só ficamos com uma real noção da transformação em curso quando nos deparamos com enormes manifestações islâmicas com milhares de indivíduos de preto (elas quase tapadas por inteiro) a desfilarem com bandeiras a exigirem sharia, como quando visitei Freiburg. Aí, tomamos consciência da dimensão do problema. Alemanha também tem italianos, chineses, brasileiros, espanhóis, indianos, africanos e tantas outras culturas mas não as vemos a manifestarem-se para impor nesse país seus costumes e tradições. Todos vivem integrados dentro da cultura alemã. Porque será?
A questão, claramente, não é contra a imigração. A questão real é contra o crescimento de uma cultura invasiva que declarou através de alguns dos seus imãs (isto está devidamente documentado) que quer a supremacia no ocidente. Ora, será isto aceitável quando nenhum ocidental consegue impor o mesmo nos países árabes? Quem está errado nesta história?
Ninguém está a dizer que esse povo não tem gente boa. Pelo contrário, é sabido que maioritariamente são pessoas de bem. No entanto não podemos ficar indiferente aos graves problemas trazidos por uma minoria de fanáticos políticos e religiosos. Porque tal como as algas dum rio, benéficas para o ecossistema, que se não forem controladas expandem-se tapando a superfície impedindo a luz de atravessar, matando a vida que lá contém e o rio morre, sem o controlo desta tentativa de islamização há uma ameaça para a vida dos ocidentais. Curiosamente, em Colónia, um grupo de muçulmanos saiu à rua contra o terrorismo islâmico. Queria mostrar aos alemães sua revolta demarcando-se destas acções. Mas apesar de terem pedido o apoio da Associação de Mesquitas no país – a DITIB -, estas negaram-se a participar. Porquê? Não será este um claro sinal que temos de estar alertas?
Aprenda de uma vez que xenófobo não é aquele que se insurge contra a imposição da cultura islâmica nos países de cultura ocidental. Xenófobo é todo aquele que persegue os ocidentais para impor a cultura islâmica no ocidente.
E este meu “amigo” travestido do PSD é um deles.
Sugiro que comecem pelo futebol. Temos a disparidade entre equipas, a disparidade dentro das equipas, a disparidade entre ligas, a que se junta a disparidade entre géneros: as equipas masculinas ganham mais que as femininas. Os bilhetes também têm enormes disparidades… Enfim matéria para entreter as almas intervencionistas durante anos.
Um ano mais conservador
As pessoas tornam-se mais conservadoras com a idade. Isto não é uma observação minha, já foi largamente estudado (por exemplo, aqui). Alguns, especialmente aqueles que não necessitaram de envelhecer para se tornarem conservadores, dirão que é apenas o culminar do desenvolvimento intelectual, que depois de aprender e pensar o suficiente, as pessoas chegam a essa meta de desenvolvimento intelectual (meta ao qual eles, os conservadores, chegaram mais cedo). É possível que seja verdade. Mas há outra explicação: o conservadorismo não é um estado de evolução, mas de adaptação.
Como qualquer político com instintos reformistas já percebeu, a mudança é um processo complexo que normalmente implica custos de curto prazo e benefícios de longo prazo. Geralmente, quanto maior a mudança, quanto maiores os benefícios esperados no longo prazo, maiores e mais prolongados são os custos de curto prazo. Os custos de transição não são um problema para quem tem mais expectativas de vir a beneficiar da mudança no longo prazo. Já quem, por força da idade, apenas espera vir a suportar os custos de transição, a perspectiva de mudança é compreensivelmente menos bem-vinda. Por isso é que geralmente mudanças de regime tendem a ser apoiadadas por pessoas mais novas.
Mas não é só uma análise de custo-benefício. A idade também muda a forma como o cérebro funciona. A psicologia estudou a fundo a forma como o cérebro se altera com a idade. Por exemplo, neste meta-estudo (que inclui 92 estudos), conclui-se que a curiosidade intelectual vai caindo com a idade. Por outro lado, a partir de meados dos 20 anos, a capacidade de processar nova informação começa a cair. Felizmente, isto tende-se a equilibrar com o volume de informação já processada. Dito de outra forma: o declínio na capacidade de processar nova informação é devidamente compensado pela experiência acumulada. Este reequilíbrio entre a importância da experiência e do processamento de informação nova faz com que, necessariamente, com a idade, as pessoas se tornem mais apegadas ao que já conhecem e menos amigas de ambiguidades ou pensamento desestruturado (vêr aqui). De certa forma, à medida que envelhecemos vai-se tornando mais eficiente viver em piloto automático, da informação já recolhida, em vez de gastar energias a recolher nova informação. Preferimos dispender energia intelectual a processar informação já recolhida do que a recolher nova.
Amanhã cruzarei a idade correspondente a metade da esperança média de vida que tinha à nascença. Estatisticamente, entrarei na segunda parte da vida que podia esperar viver quando nasci. Como todos, lentamente, também eu ficarei mais conservador. Um ano de cada vez.
Geringonças? Cada um tem as suas. Ou recusa-as
O “fascismo nunca mais” tornou-se o “fascismo todos os dias”
mercearia liberal
O liberalismo não é coisa de que se «dê cabo» pelo facto das suas ideias e princípios serem reclamados por políticos distintos de partidos diferentes. Pelo contrário, qualquer espírito liberal ficará satisfeito por constatar que aquilo que defende faz sucesso noutros projectos políticos que não sejam o seu, na medida em que isso só poderá beneficiar a causa da liberdade.
Por conseguinte, esta reacção do líder da Iniciativa Liberal contra o novo partido de Pedro Santana Lopes só pode resultar de alguém que ignore o que é o liberalismo. Desconsiderando o estilo de «marido enciumado» com que faz as declarações, há que convir que a Iniciativa Liberal – uma sopa de pedra que iniciou a sua apresentação pública com uma constrangedora Declaração de Princípios, que arrepiaria qualquer liberal mais distraído, e que progressivamente tem vindo a demonstrar que está, esforçadamente, a estudar umas coisas – padece exactamente dos mesmos «defeitos» de que acusa agora a Aliança «liberalista» de Lopes, ou não terá sido ela constituída por pessoas vindas do PS e do PSD que não conseguiram triunfar nos seus respectivos partidos?
Esta reacção parece, assim, mais provocada por razões de «mercearia» do que propriamento por purismos ideológicos ou pelo temor de que o partido de Lopes possa «condenar o país a mais umas décadas de estatismo», argumento que mal se percebe, podendo, nos termos em que foi aduzido, ser aplicado a qualquer outro partido. À Iniciativa Liberal, desde logo, que tirará, certamente, alguns votos aos partidos que estão em melhores condições para ganhar eleições ao PS, o PSD e o CDS. E a «mercearia» será, provavelmente, o acesso a algumas fontes de financiamento europeu, às quais um tipo que anda na política há quarenta anos e que já passou por tudo o que é sítio certamente se mexerá muito melhor do que os caloiros da Iniciativa Liberal.
Por isso, se a Iniciativa Liberal quer ser vista como algo mais do que uma tentativa oportunista de aproveitamento político de um tema de ocasião, que comece a ter cuidado com o que diz e com quem a representa. Já não chegava a Declaração de Princípios, tinha agora que vir uma exigência de direitos de propriedade sobre o liberalismo. É muito mau.
Recrónica
Não sendo dotado de particular dote para aprisionar um momento e o exprimir em palavras, o que mais me atrai em crónicas é o episódio, a ocorrência, a brecha na sucessão do cíclico bioquímico da vida que permite atribuir a um instante a criação indiscutível de uma coisa, de um evento: o acontecimento. Interessa-me a vinheta em si, não a suposta descodificação da mensagem e muito menos os seus tradutores mais ou menos oficiais. Não tenho qualquer gosto pela política no sentido (lamentavelmente) habitual do termo: a mesquinharia, o disse-que-disse, o julgamento de intenções e a repulsiva hipocrisia dos intervenientes que, ao invés dos comuns mortais, não desdenham as mesmas necessidades que sentem, a de se fazerem à vida como podem e como sabem.
Durante algum tempo consegui abrir um jornal ou ligar uma televisão naqueles canais das notícias sem bolçar, feito que não me orgulha particularmente, só denuncia um viço tenaz ao efeito secundário mais comum de seguir notícias neste sítio a que se convencionou chamar “um país”: o recorrente desejo de cortar os pulsos. Agora, depois de mais um circo macabro com incêndios, de mais uma burlesca demonstração das capacidades contorcionistas de Costa, Catarina, Marcelo e da restante ganadaria apensa à canga da “política” nacional, atingi um limite, o do segredo só conhecido e partilhado pela enorme maioria dos portugueses: os que nem se dão ao trabalho de saber a data das eleições. A minha santa mãe disse-me assim: meu filho põe-te a pau, que isso é cruel, bicho cão, mãe do fel, infecção.
Se não fosse o rock’n’roll o que seria de mim? Por muito que se indague de que nos vale esta pureza porque sem ler fica-se pederneira; agita-se a solidão cá no fundo, fica-se sentado à soleira a ouvir os ruídos do mundo e a entendê-los à nossa maneira, feitas as contas, entre acompanhar as notícias ou os ruídos do mundo, é nos ruídos do mundo, no caos das coisas que se balançam, que o espírito se apazigua. É na arte, no livro, na novela, no futebol, nas romarias e nos comes e bebes que tu, português, estás e sempre estiveste. Andava eu perdido, e era eu um passarinho caído do ninho à espera do fim; e eras tu, até que enfim, a voltar para mim.
Por isso, amigo e companheiro de crónicas, escritor e leitor unido num só, faz-me um sinal qualquer se me vires falar demais: eu às vezes embarco em conversas banais.
As empresas de Catarina Martins

O Bloco de Esquerda e em particular a sua líder não estão bem.
O caso Robles ainda perturba e parece não haver acampamento que lhes diminua o sobressalto.
Catarina Martins arroga-se da sua própria frontalidade, mas refere de forma velada o Blasfémias no Twitter, conforme ilustra a imagem que acompanha este post.

Um amigo comentava a extraordinária coincidência de, tal como o prédio de Robles não ser de Robles mas da irmã de Robles, também o negócio de Catarina e do marido dos alojamentos locais no Sabugal não ser de Catarina e do marido (nem sequer do marido de Catarina), mas da família do marido de Catarina.
É um facto que Catarina é deputada em exclusividade, mas daí a dizer que não tem qualquer responsabilidade em empresas é uma forma criativa de ver a coisa. Não é formalmente gestora, apenas o seu marido. Certo. Todavia tem uma quota na Logradouro Lda. É dona.
Percebo que um acionista ultra-minoritário numa empresa cotada em bolsa não se sinta responsável por nada do que lá se passa. Mas, que diabo, a Logradouro Lda é uma micro sociedade por quotas, familiar e da qual Catarina foi gerente até 2009. A gerência da empresa é agora apenas do seu marido, mas para quê tentar passar a ideia de que Catarina está a leste de tudo o que se passa neste negócio?
Catarina atribui ao Blasfémias a propagação de “calúnias”, mas nunca identifica qual o embuste de que este Blog é responsável. Além disso, alguma vez Catarina desmentiu factos veiculados nestas páginas? Qual o motivo para cavalgar a onda da “cabala de Direita” contra o Bloco em vez de assumir a verdade de dados objectivos?
Pois então, a bem da transparência, partilho com os leitores algumas informações adicionais sobre as empresas e entidades a que Catarina Martins (CM) está ou esteve ligada.
Devo dizer que nenhuma das pessoas e entidades que irei referir são suspeitas, arguidas ou acusadas de qualquer ilícito, irregularidade ou ilegalidade. Que eu saiba, é tudo lícito, regular e legal. Além do mais, todas as seguintes informações são públicas e podem ser acedidas por qualquer pessoa através da Internet.
Aqui vai:
- CM tem uma quota de 5% na empresa “Cassiopeia, desenvolvimento de projectos culturais Lda”. (fonte: parlamento.pt e mj.pt)
- A sócia maioritária da Cassiopeia é a coordenadora distrital do Bloco no Porto (fonte: portodistrito.bloco.org e mj.pt)
- CM é (actualmente) Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação cultural sem fins lucrativos “Visões Úteis”, fundada pelo marido de CM e da qual este é colaborador regular. (fonte: parlamento.pt e visoesuteis.pt)
- A Visões Úteis, desde 2012, beneficiou de mais de 80 mil euros de contratos públicos, sobretudo da CMPorto e do TNSJ, por ajuste directo. (fonte: base.gov)
- Um outro dos sócios de CM na Cassiopeia é também um dos directores artísticos na Visões Úteis. (fonte: mj.pt e visoesuteis.pt)
- A Visões Úteis é financiada pelo Ministério da Cultura e DGArtes (fonte: visoesuteis.pt)
- CM foi até 2009 Presidente da Mesa da AG da PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas. (fonte: parlamento.pt)
- Na sequência do despacho 5883/2018, a PLATEIA integra o Grupo de Trabalho para o aperfeiçoamento do Novo Modelo de Apoio às Artes, formado pelo Ministro da Cultura. (fonte: plateia-apac.blogspot.com)
Outras curiosidades ainda:
- Em 2009, o cunhado (?) de CM (Tiago Carreira) constitui a empresa INK PLACE, LDA da qual é sócio em 50% juntamente com a STILOS INVESTMENT COMPANY LIMITED, sócio corporativo registado em Gibraltar. (fonte: mj.pt)
- No acto de constituição da Ink Place, a Stilos (Gibraltar) foi representada pelo procurador Valdemar Dias da Silva Pedro. (fonte: mj.pt)
- Em 2015 Valdemar defendeu a tese de Mestrado em Psicologia “A espiritualidade nos voluntários” (fonte: scholar.google.pt/citations?user=59jA_LIAAAAJ&hl=pt-PT)
- Em 2015 a Ink Place tem um aumento de capital e alterações ao contrato de sociedade passando o sogro de CM a ter uma quota a título pessoal na empresa e cujo objecto passa a ser mais alargado: “Comércio e distribuição de equipamento informático e consumíveis. Reparação e manutenção de equipamento informático. Formação profissional. Administração de condomínios. Construção civil. Comércio de produtos alimentares. Fabricação de doces, compotas e marmeladas.” (fonte: mj.pt)
O Bloco de Esquerda não está habituado ao escrutínio democrático, nem da sua agremiação política, nem dos seus dirigentes. Mas seria bom que um partido que está no poder, embora não formalmente no Governo, e cujos membros são legisladores (muitas vezes limitando a liberdade individual) sintam a obrigação de prestar contas e de serem rigorosos nas informações que dão aos eleitores.
A cortina de fumo das “calúnias”, das “fake news” e a narrativa da “cabala de Direita” não abonam nada à confiança que alguém ainda possa ter em companheiros políticos de Pablo Iglésias ou Lula da Silva.
*
Filipe Faria e os limites evolucionistas da moral liberal
Ainda a propósito desta discussão, vale a pena ler este artigo académico do Filipe Faria sobre os limites evolucionistas da moral liberal. A notícia de que um livro mais alargado sobre o tema está para breve também é excelente para quem gosta de discutir estes assuntos para lá dos preconceitos ideológicos. Há poucas pessoas com quem se pode aprender tanto, mesmo discordando. Aguardemos então pelo livro enquanto tentamos perceber o artigo. Dentro dos meus próprios limites de raciocínio e conhecimento, também tenciono voltar ao tema.
cada um tem os le pen que merece
Como é que estes sujeitos que escrevem estas coisas depois também se queixam da Marine Le Pen, não dá para entender. É que ainda não perceberam que dizem o mesmo, pensam da mesma maneira e querem coisas muito parecidas. A França para os franceses e Lisboa para os lisboetas!
As palavras contam
Portanto em Espanha há um ano o terrorismo matou. Um ano depois na homenagem às vítimas o ódio está dirigido não ao terrorismo mas sim ao rei de Espanha: Sanchez tornou-se primeiro-ministro mas para o ser teve e tem de pagar o apoio dos independentistas. E está a pagar; saiu-lhes do caminho e estes agora só têm como obstáculo Felipe VI. Por cá as nossas redacções reproduzem a linguagem dos radicais: é o rei quem gera polémica, é asua presença a fonte dos problemas…
Rei de Espanha gera polémica no 1º aniversário dos atentados da Catalunha
“Rei de Espanha não é bem-vindo nos países catalães”
Presença de Felipe VI na homenagem a vítimas de atentados provoca polémica
Em 2014, Corbyn achou por bem ir prestar homenagem às campas do fundador do Setembro Negro e do chefe de segurança da OLP, duas personalidades-chave dos atentados de Munique.
Em 2018 mentiu. Disse que esteve numa homenagem a 47 palestinianos mortos num ataque israelita ocorrido em 1985. Como aqui se escreve é mentira pois o memorial aos palestinianos fica bem longe – 14 metros – do sítio onde Corbyn esteve.
E os editoriais portugueses?
Não deixa de ser comovente o entusiasmo que vai em Portugal com os editoriais dos jornais norte-americanos contra Trump. Estes consideram que definir os jornalistas como inimigos do povo “é uma das muitas mentiras usadas por este presidente”.
Digamos que os jornalistas norte-americanos estão a precisar de fazer uma viagem a Portugal, o país cujos jornalistas além de serem muito selectivos nas suas indignações (os dos EUA tb são um pouca mas enfim…) e sobretudo o país que se comove mais com as lutas dos jornais dos outros países do que com o acontecido por cá. Alguém se lembra do que se disse dos jornalistas que fizeram estas perguntas?
1961 – 2017
Alguns dados curiosos dos últimos 57 anos:
- A Balança Comercial foi superavitária em apenas 5 anos.
- A Balança Comercial foi superavitária entre 2013-2017.
- Nos anos em que a Balança Comercial foi deficitária, em média o crescimento real anual do PIB foi de 3,39%.
- Nos anos em que a Balança Comercial foi superavitária, em média o crescimento real anual do PIB foi de 1,17%.
- O Consumo Público aumentou em 52 anos a uma média anual de 13,9%.
- O Consumo Público só desceu em 2010 (-0,9%); 2011 (-6,1%); 2012 (-10,9%) e 2014 (-0,9%)
(Todos os valores INE | base=2011)
*
O “enorme sucesso” de Monchique
Não sei como a nossa classe política ainda tem cara para sair à rua. Mas que grande bando de salafrários incompetentes nos saíram na rifa! E com um bidão gigantesco de “sem vergonhice” na cara para conotar este grande incêndio de Monchique como “exemplo de sucesso” ao combate de fogos apenas por não ter morrido gente. O nosso Primeiro, sempre divertido e bem disposto, até nas tragédias, a buscar analogias em tudo, até comparou o incêndio que lavrava há 6 dias às velas de um bolo de aniversário para explicar aqui aos tontinhos que uma vela apaga-se bem com um sopro mas quando são muitas é mais complicado. Que queriducho! A sério? Então porque razão não “apagaram a vela” quando era apenas “UMA” na Serra? Falta de fôlego? Falta de vontade? É que falta de meios não foi de certeza porque nos anunciaram a maior preparação e investimento em meios jamais vista em Portugal!
Podem inventar toda a narrativa que bem entenderem mas nós, não somos cegos. E as populações que viram tudo arder como fósforos, muito menos ainda. Não passou despercebido logo no início da tragédia que havia uma política do “deixa arder mas poupem as pessoas”. Que havia ordens superiores para não actuar no imediato. Daí colunas inteiras de bombeiros parados durante mais de 5 horas à espera de ordens. Não passou despercebido também, que não havia qualquer preocupação com os bens quando populares afirmaram não terem visto os anunciados mais de mil homens no terreno. NADA! Tal como disse o nosso engenhoso Primeiro, e bem, os bens são substituíveis, as vidas humanas não. E assim, que se lixem as propriedades, os negócios, os animais, a fauna pois não pode é haver quem diga que morreu gente mesmo que essa gente venha a morrer depois de desgosto, de desalento, de falta de meios de sobrevivência. Isso pouco interessa. Estão vivos para poder assistir à miséria que irá ser sua vida dali em diante. Mas como se pode ser tão insensível aos bens e ganha pão das nossas gentes?
A verdade nua e crua é que só não morreu gente, apesar de toda a cautela em retirar os habitantes à força e alguns algemados, porque houve gente que desobedeceu às ordens da GNR para seguir numa estrada em chamas, novamente por falta de informação dum SIRESP inoperacional, descoordenação e desorientação da Protecção Civil, como foi o caso de Alferce. Claro que isso não passa hoje de uma hipótese, mas de uma hipótese que não foi testada porque houve desobediência civil. Simples.
Dizem que falhou tudo em Monchique desde o planeamento ao combate. Eu digo: não são falhas. São um propósito. A teoria das falhas é aquela que mais convém a toda esta malta que vai de políticos a interesses privados. Recorrer aos lapsos para justificar o que já não tem justificação alguma plausível é como continuar a aceitar as desculpas dos nossos filhos com professores, para justificar as negativas a todas as disciplinas, todos os anos lectivos. Não faz sentido algum. Erros todos comentem uma vez. Lapsos também. Mas décadas a fio sempre no mesmo registo, sempre nos mesmos segmentos mas com a variante de, a cada ano se gastar mais milhões em combate, sem o retorno em maior protecção, só revela uma coisa: há interesses económicos poderosos por trás desta mentira gigante de combate aos fogos.
Porque se houvesse combate real todas as populações seriam apoiadas, instruídas e acompanhadas localmente para manter as matas limpas e ordenadas; as florestas seriam vigiadas; as localidades teriam um plano de combate a incêndios activo e eficaz com várias bocas de incêndio espalhadas pelas aldeias ao dispor dos habitantes; nenhuma mata estatal estaria por limpar; todos os organismos estatais de socorro e combate a incêndios teriam apenas profissionais da área altamente qualificados; os meios de combate seriam eficazes e em número suficiente; os incendiários teriam penas efectivas tão dissuasoras que jamais teriam vontade de repetir o crime.
Mas o que se vê não é isto. Porque de quinze em quinze anos, o tempo que leva à sua regeneração, é preciso que arda mata. Seja de pinheiro, seja de eucalipto seja do raio que for. Arde tudo. Ora no sul, ora no centro, ora no norte ora por todo o lado ao mesmo tempo. Dependendo das “necessidades”. Por isso deixa-se bombeiros parados durante horas. Foi assim em Pedrógão. Foi assim nos fogos de Outubro. Foi assim em Monchique.
Depois vem a palhaçada de encontrar os culpados. No ano passado andaram atrás dum raio num pinheiro; agora persegue-se os pobres postes da EDP. Tudo para desviar o olhar dos verdadeiros responsáveis: governo e lobbies. É o “vira o disco e toca o mesmo”.
A mim já ninguém me vende mais teorias para boi dormir. É tudo tão claro que até ofende qualquer ser inteligente com capacidade de análise. Monchique foi apenas um pequeno foco que por ter sido literalmente ignorado, se transformou na maior área ardida da Europa neste verão. Que ceifou vidas de trabalho que se vão juntar às de Pedrógão que volvido um ano, muitos continuam por ressarcir dos danos nem sabem quando o vão ser, se o vão ser e quanto. Isto apesar dos generosos donativos que mobilizou uma nação inteira e que ninguém sabe para onde foram. Noutro país, mas civilizado, esta corja criminosamente negligente da ANPC e políticos, já estaria toda a preencher o impresso para o desemprego.
Salvar pessoas foi o único plano de combate em Monchique para evitar a queda de um governo que está preso moralmente por fios. Portanto, um “sucesso” inventado só para a manutenção da geringonça no poder. Só não vê quem não quer.
Sabe-se sempre como começa e também como acaba
Homem detido depois de conduzir carro contra a barreira de segurança do Parlamento britânico
O outro ataque já se sabe foi motivado por distúrbios psiquiátricos: quatro esfaqueados em França por um jovem afegão requerente de asilo. Obviamente com distúrbios.
Em resumo, a UE não precisa de forças de segurança nem de política para as suas fronteiras . Precisa tão só de colocar psiquiatras nas ruas. Vai-se a ver e isto é tudo um complot da indústria farmaceutica.
ganhaste, carlos
Marcelo encontra-se finalmente com o Zé
Uma droga do piorio
O Rui diz neste texto que aquilo que foi feito na Holanda foi a concessão pelo Estado de liberdades, chamando-lhe engenharia social. Nada mais errado. É verdade que muitas vezes a agenda liberalizadora e progressista se confundem (muitos liberais o fazem), mas não há nada de engenharia social no levantamento de proibições. Quando os EUA levantaram a proibição do consumo de álcool, não houve engenharia social, mesmo que a sociedade se tenha alterado em resultado do levantamento dessa proibição. Ninguém foi obrigado a consumir álcool, nem o álcool passou a ser recomendado. Simplesmente, levantou-se a proibição daquilo que alguns, mal ou bem, gostam de consumir em maior ou menor medida. Na Holanda fizeram o mesmo com as drogas leves. Levantou-se a proibição de compra e venda de drogas leves (mantendo, até algumas restrições). De resto, não se percebe bem qual a alternativa “liberal” (na terminologia do Rui) de levantamento da proibição que teria resultados diferentes. Parecendo que o grande problema do Rui é a exibição pública do vício, custa a perceber qual a alternativa, que não a proibição, que tivesse levado a uma situação em que as pessoas fumassem apenas às escondidas. Se as drogas tivessem simplesmente deixado de ser proibidas (sem qualquer regulação adicional), as pessoas fumariam às escondidas? Porquê? O que me parece é que esta argumentação é simplesmente um subterfúgio conservador para manter as proibições, essas sim de carácter moralista e intervencionista, e com forte teor de engenharia social.
O segundo ponto levantado num outro texto é o da tradição. Ora, não há nenhuma tradição proibicionista no ocidente (tanto de álcool como de drogas). Houve proibições temporárias, a maioria das quais recentes, quase todas já no século XX. O Ocidente até travou uma guerra no século XIX pelo direito a comercializar droga (eu sei que é uma hipersimplificação, não me chateiem com os detalhes). Em Portugal, as drogas leves foram sempre largamente permitidas nas colónias e o verdadeiro proibicionismo na metrópole só começou depois do 25 de Abril. Vários escritores, como Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro ou Camilo Pessanha eram abertamente consumidores de ópio e até têm obra conhecida descrevendo os seus efeitos. Isto para não ir mais atrás até Jesus Cristo que transformou água em vinho, e só não terá transformado relva em erva, porque a relva não abundava na Judeia do século I. Defender o proibicionismo com base na tradição faz, por isso, pouco sentido. O proibicionismo foi introduzido pelo estado, usando o monopólio da força, num esforço de engenharia social para limitar o vício. Levantar essa proibição é apenas contribuir para a diminuição do peso do estado nas nossas vidas e nas opções individuais.
Mas há um argumento mais importante, que quanto a mim merece uma discussão mais séria. Possivelmente por ter implicações radicalmente mais conservadoras o Rui o tenha evitado, embora esteja implícito no seu já famoso texto sobre Amesterdão. Esse argumento foi mencionado pelo comentador mg num dos posts abaixo. Importa pouco a uma sociedade ter indivíduos livres e felizes (como parece ser o caso da Holanda) se for uma sociedade condenada a morrer às mãos dessa liberdade e felicidade. O argumento evolucionista, que o Filipe Faria (infelizmente ausente destas lides da blogosfera há tempo demais) tão bem articula, é o argumento conservador ao qual consigo ser mais sensível. É o único que me faz hesitar. Se apenas sociedades que limitam a liberdade (e mesmo a felicidade) dos indivíduos através de mecanismos formais e informais de repressão social se reproduzem e sobrevivem, valerá a pena lutar por sociedades completamente livres e, consequentemente, condenadas a morrer? Este sim é um problema sério para os liberais, como eu, porque em última instância poderia levar-nos por caminhos que nem os mais conservadores defendem (abertamente). Mas é intelectualmente estimulante. Ópio intelectual do piorio.
pérola negra

Tinha prometido responder hoje ao Carlos Guimarães Pinto, e, apesar de no sítio onde estou já ser o dia seguinte a esse dia, não quero deixar o Carlos, por quem tenho muita consideração e amizade, sem resposta. Dado o tardio da hora local, vai direito ao osso.
Essencialmente, aquilo que me parece distinguir-nos é que o Carlos está satisfeito com as «liberdades» que o estado cria, no caso que suscitou esta polémica, na Holanda, enquanto eu digo que essa é uma perspectiva tipicamente socialista de olhar para a liberdade. É a liberdade «citoyen», saída da Revolução Francesa, onde os «direitos do homem» foram declarados por aquele que é um dos seus principais inimigos: o estado. Como, de resto, bem se viu no destino que logo a seguir essa revolução o estado revolucionário lhes deu. Por mim, prefiro os direitos individuais declarados por uma jurisprudência evolutiva e atenta ao velho princípio de «dar a cada um aquilo que é seu». Parece-me que confiar as «liberdades» ao estado é permitir-lhe que planifique uma sociedade, como foi o que vi na Holanda que visitei. E, de facto, nenhuma sociedade construída por decreto, mesmo uma sociedade plena de «liberdades liberais» poderá ser uma sociedade espontânea, de pessoas felizes. Será sempre uma gaiola de macacos saída das cabecinhas iluminadas de meia dúzia de fulanos, que se pensam interpretar a velha «volonté générale» do também ele já muito velho Jean-Jacques. Socialismo puro, em suma.
Posto isto, pergunta o Carlos se eu acho que se devem proibir as «liberdades» concedidas (impostas?) pelo legislador holandês ao seu povo. Ora, eu não tenho nada a ver com isso, em primeiro lugar. Se os holandeses gostam do que têm em Amesterdão, que lhes faça bom proveito. Digo apenas que a operação de construir uma sociedade liberal não deu bons resultados, na Holanda que tive oportunidade de conhecer. Que resultados são esses? A exposição da decadência humana e do vício a quem estiver a passar na rua. Ora, se é esse o resultado que os homens dão às «liberdades» que lhes conferem, que se lixem as liberdades.
Só que nem o que vi na Holanda é uma sociedade liberal, nem os holandeses fizeram da liberdade que (não) lhes deram coisa nenhuma. O que ocorreu nesse país foi um exercício, puro e duro, de construtivismo social legislativo, sendo que, no caso, foi de uma sociedade dita liberal. Mas podia ser socialista, que era igual, porque a imposição artificial de modelos sociais dá sempre mau resultado: na URSS, implodiu a economia, a liberdade e a família; na Holanda, implodiu o que deve ser o respeito pelo outro num espaço comum, isto é, as regras mais elementares da convivência social.
Porque, obviamente, não é a mesma coisa um tipo drogar-se em casa ou drogar-se num café, à vista do público, como se estivesse num aquário, graças a um alvará que autoriza a tasca a esse tipo de comércio e de prática. As ruas de Amesterdão, caro Carlos, cheiram, em todo o lado, a erva, e isso não é igual a cheirarem a vinho tinto. Até porque este não liberta o seu bouquet muito para além do copo onde é servido. Como também não é o mesmo ir a passar, com uma filha ou seja com quem for, à porta do Pérola Negra, com os vidros das portas muito sensatamente adesivados a preto para não se ver o que lá vai dentro, ou em vitrines de jovens bafejadas pela graça divina com as ditas graças em exposição para fins de transação comercial. Não punir um vício é uma coisa; promover a sua exposição pública é uma outra e muito diferente.
Dito isto, duas coisas mais: todo o construtivismo social peca sempre por excesso, por melhores que sejam as intenções do legislador; e que a liberdade não carece que o estado a decrete, porque quando admitimos que o faça, consentimos também que possa fazer o seu inverso. Pelo contrário, basta que o estado não chateie. O que, no caso daquelas que perfazem o bouquet das «liberdades» identificadas em Amesterdão, seria suficiente que o estado as não imponha nem proíba, para que a sociedade logo arranje boas maneiras de as utilizar. Respeitando o senso comum, que é coisa que por lá não vi, e contra o qual nada poderão fazer as pessoas que o tenham, porque estes são «direitos» consagrados pela lei, logo, inoponíveis.
P.S.: no meio da nossa questiúncula, o meu amigo Pedro Arroja sugeriu que o melhor dos dois mundos seria o da moralidade + liberdade económica, e que isso se encontraria na Opus Dei. Ora, nem eu sou defensor de qualquer espécie de moralismo social, bastando-me que cada um reserve os seus vícios para si mesmos sem a pretensão de os impor aos outros, tão pouco me parece que uma entidade onde não cabem homens livres possa ser um bom exemplo para o que quer que seja. Mas mando daqui o meu abraço amigo ao Pedro, por mais esta tentativa, que o tem absorvido nos últimos anos, de encontrar o Santo Graal ou a Pedra Filosofal. Não é por aí, Pedro.
Balança comercial: défices e dívidas

A meio das minhas férias o meu amigo Alexandre Mota convocou-me para uma discussão no Facebook a propósito de questões ligadas ao comércio internacional. Prometi-lhe na altura uma resposta na minha “rentrée”, mas penitenciando-me desde já pelo atraso, só este fim-de-semana tive disponibilidade para escrevinhar algo um pouco mais sistematizado e que aproveito para partilhar com os leitores do Blasfémias.
A questão de fundo, aliás suponho que partilhada pela generalidade dos interessados e mesmo especialistas, é a de que a manutenção de défices da balança comercial por muito tempo é vista como não sendo sustentável e implicando, mais tarde ou mais cedo, que o pagamento da dívida externa que gera tenha consequências nefastas se não para a actual, pelo menos para as gerações futuras. Consideram que um permanente estado deficitário das nossas transacções comerciais com o exterior poderá resultar numa desconfiança dos investidores acerca da solvência da nossa economia e, em resultado disso, gerar numa espiral de fuga de capitais com efeitos prejudiciais diversos.
Procurarei demonstrar que estes receios são largamente infundados e baseados em diversas falácias e análises incompletas sobre como funciona a economia real para além das convenções de registo contabilístico. Argumentarei que o défice comercial não implica necessariamente criação de dívida e que a componente em que tal assim aconteça, só é problemática se for assumida pelo Estado e não pelos agentes privados. Defenderei ainda que políticas públicas tendentes à redução do défice comercial são contraproducentes.
Gostaria desde já de convidar quem lê este post a não se deixar cair na armadilha de linguagem que é o termo “défice”. É bem justa a conotação negativa da palavra quando aplicada às contas do Estado porque implica a criação de encargos futuros para os contribuintes. As dívidas têm de ser pagas e não existe dinheiro público. Todo o financiamento do Estado provém de rendimentos e riqueza retirados aos contribuintes.
(nota: escrevo “estado” com “e” maiúsculo, apenas porque visualmente torna a leitura mais fácil e não por uma minha deferência particularmente respeitosa pela instituição…)
Mas se nos abstrairmos da nomenclatura, em comércio internacional o que se convenciona chamar de “défice” mais não é do que a diferença entre o valor em euros dos bens e serviços que entram no país e o valor dos bens e serviços que saem do país. Sendo, neste caso, o valor das importações maior do que o das exportações.
Na verdade, é tudo isto que desejamos: receber e usufruir do máximo número de coisas que nos proporcionam bem-estar, pela mínima contrapartida possível. Deste ponto de vista o diferencial entre os dois valores torna-se num superavit de coisas reais que temos à nossa disposição. Recebemos mais bens e serviços do que aqueles que enviamos para o exterior. Chamando-lhe “superavit em espécie” logo o significado psicológico da palavra se torna bem mais simpático e agradável. Espero que este aparte vos predisponha a ler o que a seguir tenho para vos dizer.
Os indivíduos são os agentes na economia e por isso os dados estatísticos de comércio são apenas um reflexo das suas decisões e opções de produção, consumo, poupança e investimento. No caso em apreço registam-se as trocas entre agentes separados por uma fronteira política, localizados em diferentes países. O saldo da balança comercial é assim resultado do agregado de relações comerciais voluntárias e mutuamente benéficas entre agentes individuais que consideram que para melhorar a sua condição económica é do seu interesse importar ou exportar nas quantidades e valores que entendam e acordem.
Mas as dinâmicas do comércio internacional entendem-se apenas de forma completa se analisarmos em simultâneo todas as componentes da, assim chamada, balança de pagamentos, nomeadamente as balança corrente e balança financeira.
Ajudará ainda termos presente a definição básica de cálculo da actividade económica num determinado período: PIB = C + G + I + (Exp – Imp). Daqui retiramos que o saldo da balança comercial é função do nível de poupança e investimento do país: Poupança – Investimento = (Exp – Imp).
A teoria económica diz-nos que os défices da balança comercial resultam primeiramente de factores macroeconómicos. Tendo em conta a equação acima, se o nível de poupança nacional baixar, o saldo entre exportações e importações “deteriorar-se-á”. O mesmo acontecerá se o investimento aumentar.
O país terá um défice da balança comercial sempre que o valor do investimento seja superior ao da poupança nacional. Daí que o capital necessário a esse nível de investimento tenha de vir do estrangeiro, “corrigindo” o “desequilíbrio”.
O equivalente será dizer que a poupança nacional total não chega para financiar as oportunidades de investimento no país. O capital que Portugal consegue atrair por exemplo através da venda de activos, IDE ou participação no capital das nossas empresas permite-nos comprar mais ao estrangeiro do que aquilo que vendemos ao exterior.
O capital estrangeiro torna mais fácil que as empresas portuguesas invistam em I&D melhorando a produtividade dos seus trabalhadores, expandam a sua capacidade produtiva ou, por via subida do seu valor de mercado, as poupanças de milhares de aforradores bolsistas tenham um maior retorno.
Enquanto formos receptores líquidos de capitais estrangeiros, manteremos défices da balança corrente. Este influxo de capitais acontece não porque os investidores estrangeiros não tenham alternativas de aplicação dos fundos, mas porque comparativamente o nosso país é atractivo. Em determinadas classes de activos, mesmo considerando um perfil de risco mais elevado, Portugal apresenta rentabilidades mais interessantes do que noutras geografias.
Um défice comercial pode ser também explicado pela simples circunstância de haver um diferencial entre aquilo que produzimos anualmente e o que gastamos no mesmo período em consumo privado, consumo público e investimento. Essa diferença será colmatada através de um valor mais elevado de importações do que de exportações.
É importante desmistificar duas ideias que normalmente andam associadas aos alertas sobre a insustentabilidade dos nossos défices comerciais: a venda de empresas ou imobiliário a estrangeiros não constitui nenhuma dívida para o vendedor, nem equivale a dizer que se permite um maior consumo através da hipoteca de rendimentos futuros que de outra forma esses activos nos garantiriam.
Os investidores estrangeiros passam a ter direitos sobre rendimento de produção futura para a qual o seu próprio capital investido contribuirá para maximizar. Não estamos pois a perder as joias da coroa, mas sim a maximizar o valor e a rentabilidade dos nossos activos.
O défice comercial apenas se converte em dívida externa se e quando os estrangeiros nos emprestam dinheiro. Além de empréstimos bancários, tal acontece por exemplo com a compra de obrigações corporativas ou de títulos de dívida pública.
Evidentemente, os agentes privados podem abusar do crédito ao consumo ou não obter os resultados esperados dos investimentos que realizam alavancados em dívida. Haverá nesses casos riscos de incumprimento. Mas os impactos negativos da sua deficiente alocação de recursos ou da excessiva despesa no cumprimento dos seus compromissos financeiros responsabilizam directamente apenas esses intervenientes, os empresários e trabalhadores dessas empresas. Os “default” são localizados e não afectam a economia de forma generalizada.
Não significa isto que o défice da balança comercial seja completamente inócuo. Embora a questão da “sustentabilidade” não se coloque nas transacções entre particulares ou empresas actuando em mercado competitivo, problemas existem que são criados pelo Estado através das suas políticas e despesas.
Nesses casos sim, pelo capital que é emprestado ao Estado respondem todos os actuais e futuros contribuintes. Um incumprimento dos compromissos creditícios terá impacto generalizado e global na economia.
Pelo facto de ser aplicada em investimentos não reprodutivos, despesas dificilmente justificadas ou na duvidosa redistribuição de recursos (em qualquer dos casos sempre de forma excessiva e crescente) é apenas sobre esta a componente pública da dívida externa que se coloca a questão da sustentabilidade. Infelizmente o valor desta dívida pública externa não é despiciendo.
No entanto, para a economia no seu conjunto e a generalidade dos indivíduos, o impacto de uma falha de pagamento é idêntico, independentemente da nacionalidade e origem dos capitais que alimentam o monstro estatal.
O problema não está nos défices da balança comercial em si mesmos, mas sim nos défices orçamentais e na dívida pública que para ele contribuem. A nuance no argumento é absolutamente substancial e caso se perca o foco na identificação da origem do problema, o risco de agravar a situação sobe exponencialmente.
Como vimos anteriormente, o défice da balança comercial é de natureza macroeconómica, função dos níveis de poupança e investimento na economia e, por isso, políticas públicas no âmbito do comércio internacional são ineficazes e apenas refletem uma visão mercantilista e estatista das relações voluntárias trans-fronteiriças.
Se algum ajustamento é necessário à economia, ele deve ser deixado à actuação do livre-mercado e não planeado centralmente. Os agentes certamente teriam outras taxas de poupança caso os desincentivos fiscais ao aforro fossem abolidos ou se abandonasse uma política de redistribuição penalizando quem mais riqueza produz. Um aumento da poupança nacional levaria automaticamente à redução do défice comercial e da necessidade de ir buscar tanto capital estrangeiro para o investimento doméstico, sem recorrer a políticas de comércio internacional que distorcem o mercado.
A obsessão com a balança comercial sem ter claro que apenas uma das suas componentes se traduz em dívida e que, desta, só a componente pública pode ter efeitos negativos sobre a generalidade dos contribuintes, incentiva os decisores políticos a tomarem medidas para reduzir o “desequilíbrio”. Esse voluntarismo provocará necessariamente alterações nos fluxos de capital, modificando os padrões de especialização das economias e prejudicando os consumidores, as empresas e os trabalhadores.
Caso se pretenda alterar o nível de poupança do país, a única intervenção pública saudável e eficaz será através da redução da despesa pública e, portanto, do défice orçamental do Estado. O que actualmente é necessário à economia é aumentar os graus de liberdade para estabelecer livremente trocas e transacções a nível internacional e, em particular, para importar.
A intervenção estatal de promoção das exportações e redução do défice da balança comercial tem como efeito a redução do influxo de capitais. Isso teria implicações na menor procura por títulos do Tesouro, aumentando o custo do Estado no seu próprio financiamento e repassando esse acréscimo à banca comercial, por exemplo no que ao custo do crédito à habitação diz respeito. Menor capacidade de poupança e investimento teriam os portugueses.
Claro que se pode argumentar que a capacidade do Estado se financiar nos mercados externos não é necessariamente boa para obrigar à redução da despesa pública. No entanto, não se pode negar que a procura internacional de títulos do Tesouro contribui para um ambiente económico e do sistema financeiro mais favorável ao crédito à economia privada realizar investimentos produtivos.
A dado momento, em teoria, os nossos credores internacionais poderiam no entanto avaliar como demasiado arriscada a insolvência da República e dar-se-ia início a um êxodo de capitais através da venda dos activos detidos por estrangeiros. O mesmo poderia acontecer com os investidores domésticos que certamente colocariam os seus capitais a salvo noutras geografias.
Mas esse cenário poderia dar-se quer com uma balança comercial positiva quer negativa. A confiança dos investidores conquista-se e assegura-se através de políticas orçamentais do Estado que contenham a despesa e diminuam a exposição ao risco e à eventual necessidade de vir a sobrecarregar ainda mais o contribuinte com impostos, retirando à economia privada a sua capacidade de poupança e investimento.
Sem o influxo de capital vindo do exterior, aproveitar-se-ia ainda menos todas as oportunidades de investimento que o país oferece e estaríamos limitados ao nível de poupança interna disponível, privando a economia nacional de melhoramentos na sua produtividade.
É por causa da relação do défice comercial com o nível de investimento na economia que o aumento do “desequilíbrio” da balança está tipicamente associado a uma melhoria das condições económicas do país.
Em jeito de conclusão afirmo novamente que os défices da balança comercial não são em si mesmo problemáticos nem insustentáveis. A balança corrente resulta fundamentalmente da mobilidade internacional de capital e das diferenças entre investimento e poupanças domésticas sendo a determinante destas de natureza macroeconómica.
O défice da balança comercial não gera necessariamente dívida. A solução para um nível de endividamento externo sustentável não virá do valor das exportações ser superior ao das importações.
Para reduzir a componente “tóxica” e insustentável do defice comercial, o Estado deverá reduzir significativamente o seu âmbito de actuação e restringir as dívidas incorridas em nome dos contribuintes.
A balança de pagamentos é, por definição, sempre equilibrada e de saldo nulo. A quantidade de euros que sai do país é exactamente igual à quantidade de euros que entra no país, ainda que por vias e classificações contabilísticas diversas.
Exportar mais do que importar é irrelevante pois não é o sector privado que absorve sôfregamente as nossas poupanças através de impostos. Precisamos é de reduzir substancialmente o Estado, ter superavits orçamentais e libertar meios para as empresas e os contribuintes usarem o capital disponível na criação de riqueza através suas próprias escolhas, de forma autónoma e livre.
Numa economia de mercado os agentes são responsabilizados individualmente pelas suas eventuais dívidas, excepto o Estado que faz impender sobre todos nós os seus desvarios.
*
Enfim
Só pode ser mentira
Portanto, estalinistas, maoistas e trotsquistas à vontadinha
mas ao lado da Le Pen é que não: Web Summit retira Marine Le Pen da lista de oradores do evento
Só Deus nos protege?

Marcelo Rebelo de Sousa diz que decisão sobre sua recandidatura presidencial “está nas mãos de Deus”.
Como antes tinha afirmado que não se recandidataria se se voltasse a verificar uma tragédia com os incêndios florestais, quer isso dizer que Marcelo já não acredita que o Governo tenha qualquer competência em matéria de protecção civil nem que ele próprio (MRS) tem capacidade e/ou vontade para politicamente exigir e assegurar que o Executivo se comporte à altura da situação?
É novamente o “boa sorte!“?
*
Descubra as diferenças
do vestuário do primeiro-ministro nestas fotos. Talvez seja porque os enigmas policiais me têm ocupado este Verão mas temos de admitir que ou o nosso primeiro-ministro lava a roupa à noite e a seca e passa a tempo de a vestir outra vez no dia seguinte ou, como observa Miguel Granja, existe uma perturbante similitude na roupa que António Costa usa nestas fotografias.
Em seguimento da indignação anterior
Tendo tentado contactar as famílias dos jovens a quem foram rejeitadas coordenadas GPS para auxílio, sendo que não obtive qualquer resposta destes ou do profissional de jornalismo que poderia mediar a comunicação, resta-me reiterar o apoio pecuniário e outro, assim como o das várias pessoas que responderam a este post, caso optem por responsabilizar judicialmente a vergonhosa impotência da população perante um regime destrutivo. Continuamos disponíveis.
Se, por outro lado, alguém esperava da minha parte uma plataforma revolucionária de auto-promoção política, lamento informar que essa área de incompetência já está preenchida pelos partidos: os velhos, os novos e os que ainda hão-de vir. A minha praia não é essa.
um liberal-conservador confessa-se, em paris

Apesar de estar de férias com a família, agora em Paris, beneficiando da «Liberté, Égualité, Fraternité» a que a cidade nos transporta, tenho lido e apreciado imenso as reacções que o meu post de ontem, sobre o exercício das «liberdades» em Amesterdão, provocou, entre amigos e leitores. Ao longo dos anos – e digo isto sem qualquer ironia ou paternalismo – a vida ensinou-me a não ser muito seguro sobre as minhas convicções e a nunca desconsiderar o que pensam e dizem os outros. É certo que, aí há uns vinte anos, uma frase destas provocar-me-ia alergia e, provavelmente, quem a dissesse acabaria por levar, ainda que alegoricamente, com um cinzeiro na cabeça. A juventude é assim, entusiasta e intempestiva, e não podemos levá-la a mal. Mas o tempo encarrega-se de resolver estas impetuosidades juvenis e, no meu caso, julgo que me tem aproximado do bom senso, que, como o outro dizia, é bem melhor do que o senso comum. E tolerante, também. Essa característica que valeu o título de um folheto extenso de Locke, e que hoje muitos dos seus confessados admiradores trocam por certezas absolutas e inabaláveis. Outra das vantagens da idade, que me levou de um ateísmo com acne para um agnosticismo impotente, o que é sempre consolador para quem não vê o tempo a andar para trás. Como sucede comigo e, julgo, que com todos.
Infelizmente, as reacções ao meu texto foram quase todas adjectivantes, em vez de irem ao osso do pernil. O adjectivo dominante, e que bem sabia inevitável, foi o de «conservador». A isso respondo com um «sim, muito obrigado», porque entendo, e sempre o entendi e escrevi, que nenhum liberal, que não seja tolo, será inevitavelmente, também, um conservador. Ao longo dos anos tive a felicidade de ver tolos declarados, como o Walter Block, a reconhecerem-no e a pedirem desculpa à Humanidade pelas imprudências juvenis que tinham, com o natural entusiasmo da idade, escrito e defendido. O Block ficou muito mais sensato, legível e aceitável desde que o compreendeu. Porque, na verdade, o conservadorismo, enquanto atitude de bom senso contra-revolucionário, faz parte do património genético do liberalismo. Burke, Hayek, Acton, Mises, Tocqueville e muitos outros escreveram-no, apesar do infinitamente citado panfleto de Hayek, que formalmente, e apenas na forma, afirmava o contrário. Mas quem conhecer um pouco da sua teoria ordinalista, da importância que atribuía à tradição, como fonte de transmissão de conhecimento, e da aversão que dedicava ao racionalismo, sabe do que falo.
As outras reacções foram muito limitadoras para um verdadeiro debate. Em regra, elas foram de dois tipos: ou procuraram explicações, a jusante, para o que descrevi, ou desqualificam o texto em si mesmo, alegando que o objecto não foi exaustivamente estudado, concretamente, que muitos holandeses não gostam do sítio onde vivem e daquilo que lhes foi imposto.
Ora, nada disto foi o objecto do que escrevi. Nem, sem desconsideração para ninguém, me interessa propriamente, na medida em que o que acho relevante para o caso pode sintetizar-se nas questões seguintes:
1º É, ou não é, a sociedade holandesa uma sociedade onde vigoram as principais «liberdades liberais», sendo a cidade de Amesterdão o exemplo mais perfeito delas?
2º O resultado dessas liberdades agrada ou desagrada? Veríamos, com tranquilidade, um filho nosso, de vinte anos, a viver nessa cidade ou será que o preferiríamos pelo Porto ou Lisboa (questão tipicamente conservadora, bem sei)?
3º Independentemente dos motivos – procurados no Iluminismo, no secularismo, ou noutros – com mais ou menos trezentos ou duzentos anos, que agravaram o que hoje conhecemos, achamos, ou não, que estas liberdades incondicionadas foram responsáveis por aquilo que é, hoje, a cidade de Amesterdão?
4º Por último, e esta é a questão de fundo, a liberdade individual e o individualismo são suficientes, por si mesmos, para realizarem uma sociedade de pessoas maioritariamente felizes ou carecem de mais alguma coisa? De quê, para quem responder negativamente. E como lá se chega, nesse caso?
Por mim, que sou, desde ontem, um conservador publicamente denunciado, diria que atirar, sem mais, «liberdades» para cima das pessoas nos aproximará, perigosamente, do ideal disruptivo fracturante de um acampamento juvenil do Bloco de Esquerda.
Quem não “Robles” não mama
Foi delicioso ver o BE apanhado na especulação imobiliária e alojamento local despejando inquilinos e recusando pagar as respectivas indemnizações; com um prédio comprado por 327 mil e posto à venda na Christie’s pelo valor de 5,7 milhões e escapar ao imposto Mortágua porque está avaliado nas finanças pelo preço da uva mijona no tempo do D. Afonso Batata; confirmar que são empresários capitalistas e especuladores imobiliários e que, vejam só, até recorrem a fundos da UE , eles que se dizem anti-europa! Digam lá, sinceramente, se isto não é extraordinário?
Apanhados literalmente a mamar no capitalismo, veio depois as desculpas esfarrapadas dignas dum programa humorístico ao estilo “Malucos do Riso”: “ai e tal porque quem é anti-capitalista não tem necessariamente de ser pobre” ou ” ai e tal porque Robles queria vender por 5,7 milhões mas não vendeu logo não há especulação” ou ” ai e tal porque estão a perseguir o BE por querer acabar com os interesses imobiliários e proteger o direito à habitação (ah! ah! ah!)” ou “ai e tal porque Ricardo Robles manteve com todos os seus inquilinos uma relação inteiramente correta, assegurando os direitos de todos (ah! ah! ah!)” ou – só mais esta porque são tantas – “ai e tal porque foi uma opção privada, forçada por constrangimentos familiares e no respeito pelas regras legais”. De chorar a rir!
Bom, mas isto não se fica por aqui. Analisando os factos mais de perto, percebemos que Robles conseguiu um empréstimo de 500 000€ na CGD com um rendimento declarado de 21.132,05€! Ou seja ficou a suportar uma prestação de 1260€ com um rendimento mensal de apenas 1761€ representando uma taxa de esforço de 72%. Uau!! Que milagre foi este? Isto nem com aval lá vai! E logo na CGD que como é sabido por quem geriu durante décadas empresas como é meu caso, é dos piores bancos a apoiar a economia quando se trata de pequenos e médios empresários. Mais: como obteve Robles autorização para mais um andar num prédio histórico e licenciamento em tempo recorde? Mãozinha do então Presidente António Costa e agora, Medina? E a informação privilegiada que terá recebido sobre a venda do prédio da Segurança Social? Catarina pelo seu lado foi aos fundos do FEDER (dinheirinho da UE, ah! valente!) no valor de 145 000€ para aplicar no Sabugal, em alojamento local, mas onde os clientes não conseguem ver o investimento lá feito de tão fraco e remediado que é, lembrando mais o recheio de uma loja de bens usados. Mais: soube-se que pagava aos dois únicos empregados 1,57/hora de acordo com os dados oficiais. Grande exploradora laboral que esta nos saiu, não?
Perguntam agora vocês e muito bem: mas há algo de errado em ser rico? Ter propriedades e empresas e lucrar com elas, desde que dentro da legalidade? Claro que não! Sejamos todos ambiciosos empreendedores e pró-activos que Portugal bem precisa pois de parasitas está ele cheio. O que não pode, está erradíssimo e é contra todos os princípios da ideologia que apregoam, é ser-se marxista capitalista. Isso é um ultraje. Porque de acordo com o que defendem, a propriedade privada só pode ser para habitação porque as rendas são exploração; as empresas têm de ser do Estado para impedir a exploração laboral; negócios próprios nem pensar porque gerem lucros e isso também é o resultado da exploração laboral. Só o Estado, que segundo eles deve concentrar em si todos os meios de produção, os pode ter para distribuir de acordo com as necessidades de cada um através de um salário igual para todos suprimindo assim qualquer desigualdade. Nesta ideologia só é permito ao Estado ser rico. O povo tem de ser todo igualmente remediado para não dizer pobre para que ninguém possa ter mais poder que o Estado. Ora, como podem estes bandalhos defender o que vem descrito no manifesto de Marx, impingindo-nos este tipo de sociedade disfuncional e depois, em privado, operarem como grandes capitalistas? Mas não há vergonha na cara?
Agora desmascarados duvido que Robles queira repetir o famoso orgulho manifestado em vídeo dos tais “11 meses seguintes ao 25 Abril com ocupações, nacionalizações, cooperativas de habitação e reforma agrária” pois não vá alguém entusiasmar-se com “tão nobre discurso” e ocupar as propriedades que possui. Bem, sinceramente se acontecesse era bem merecido.
Assim, o melhor seria admitirem de uma vez que a ideologia que defendem é “tão boa e gratificante” que nem eles a querem. Que defender o marxismo é impor o fracasso individual e colectivo porque limita as liberdades que eles não dispensam e assumirem sua “transexualidade política” à direita.
Ao menos assim, estarão de acordo com o que praticam. Fica a dica.
Um liberal das arábias
Ao contrário do Rui, e de outros liberais, não tenho notado uma grande tendência para me tornar conservador ao longo dos anos. Possivelmente aquilo que me ajudou a solidificar os meus instintos liberais foi o tempo que passei no Médio Oriente. No que toca ao liberalismo económico, o meu período no Dubai (um local onde a desigualdade é levada ao extremo, mas onde são precisamente os da parte mais baixa da pirâmide que mais ganham em termos relativos) deu-me a segurança de pensar que mesmo modelos económicos excessivamente liberais para a nossa cultura política têm efeitos positivos e beneficiam todos. No que toca ao liberalismo nos costumes foi o longo período que passei na Arábia Saudita que me ajudou a solidificar esse pensamento.
Passei mais de um ano na Arábia Saudita, graças a Deus voltando ao Dubai todos os fins-de-semana. Nesse período conheci e conversei com muitos sauditas (homens, claro). Numa conversa normal não se distinguiam de homens ocidentais. Tinham os mesmos gostos que qualquer homem ocidental, gostavam de futebol, viam as mesmas séries e filmes americanos e liam autores ocidentais. Para desanuviar da sociedade fechada em que viviam, era comum viajarem para o Dubai ou Bahrain ao fim-de-semana (locais onde, apesar de serem conservadores para os standards ocidentais, é permitido beber álcool, não há separação de sexos, as mulheres podem vestir o que bem entenderem e a fornicação é tolerada, ainda que ilegal).
Apesar de, na maioria dos tópicos, se poder falar com sauditas como se fossem ocidentais, quando se chegava à questão dos costumes, caía sobre nós um choque de realidade. Mesmo os sauditas mais bem formados (muitos com cursos nas melhores universidades dos EUA) e inteligentes, conseguiam racionalizar as limitações à liberdade individual na Arábia Saudita. Faziam o mesmo tipo de julgamento em relação ao Dubai e ao Bahrain que o Rui faz aqui em relação a Amsterdão. E em muitas coisas tinham razão: nunca vi na Arábia Saudita um tipo bêbedo na rua. Uma mulher pode andar descansada sem ser sujeita a piropos. Os casamentos duram e resultam em muitos filhos. O espírito de tribo e família é muito forte (o anterior rei casou com uma mulher de cada grande tribo para conseguir unir o país). Ao ler este texto do Rui, lembrei-me dessas conversas, da forma como é possível racionalizar limitações à liberdade individual tendo em conta um bem superior, da maneira como a nossa vivência individual pode ditar a forma como julgamos a felicidade dos outros. Para aqueles sauditas, uma sociedade onde uma pessoa pudesse escolher beber em excesso todos os fins de semana ou onde uma mulher pudesse escolher ter mais do que um parceiro sexual durante a vida, era uma sociedade triste e doente. Com as devidas adaptações, e a uma escala diferente, a linha de raciocínio não diferia muito desta. A lição que aprendi é que não importa o quão restritivos são os costumes: qualquer pessoa que tenha vivido tempo suficiente exposto a um código moral, defenderá sempre esse código como o correcto. E é sempre possível racionalizar limitações à liberdade individual, independentemente do ponto de partida, usando as lentes da sua própria mundividência. Uma coisa é certa: a Holanda está no topo de todos os rankings da felicidade (que valem o que valem, é certo), e eu seria menos feliz sem as liberdades do mundo ocidental, mesmo que os meus amigos sauditas achem que não.



