Pá, não ponham lá os pés.
Os jogadores do Sporting afirmam, muito compreensivelmente, não ter de momento condições «anímica e psicológicas para de imediato retomarem uma actividade normal». Lá dizem os coitados que estarão no Jamor no Domingo. Infelizmente, o Governo e a FPF a primeira coisa que disseram foi que o jogo se mantinha. É inacreditável tal pressão, que é mesmo nas circunstâncias uma violência sobre os jogadores, pessoas que foram agredidas e ameaçadas. Manter-se o jogo é não apenas uma violência do ponto de vista humano sobre os jogadores, como é uma evidente fraude desportiva. Mas tudo isso junto – violência e fraude – é bem capaz de ser, como dizem os jogadores um «espelho do desporto nacional», neste caso, patrocionado pelo governo e federação.
abdução socialista

O deputado Luís Gonçalves a ser abduzido, na maternidade, pela família socialista.
O senhor deputado Luís Pedro Gonçalves, eleito pelo PS para a Assembleia Municipal do Seixal, acha que está em marcha uma conspiração para trocar os bebés portugueses nas maternidades, dando-se, de resto, a si mesmo como exemplo: «a minha família é trocada», garante. Gonçalves, que gosta muito dos papás mas acha que não tem «qualquer semelhança física com eles», acrescenta até esta informação aterradora: «já me cruzei com pessoas que têm as mesmas características físicas que eu mas que oficialmente não são meus familiares». Perguntado sobre quem andaria a fazer semelhantes patifarias, a resposta de Gonçalves foi linear: «as secretas». Quanto ao porquê, já foi mais titubeante: «Não sei muito bem o interesse, mas que acontece, acontece. O poder político em algum momento deu essa ordem. As secretas obedecem ao poder político». Um caso bicudo.
Não me parece, todavia, que seja esta a melhor explicação para o caso. Vejamos: às «secretas» não lhes aquecerá nem arrefecerá que fulano seja filho de beltrano, de sicrano ou vice-versa. O que ganhariam com isso? Para que lhes serviria andarem a trocar criancinhas nas maternidades? O distúrbio da ordem familiar portuguesa, da cristandade e da sociedade ocidental ou do PS (o partido do senhor deputado)? Talvez. Mas as maternidades portuguesas seriam um pequeno teatro de operações para uma tão grande empreitada, por um lado, e o PS já há muito foi abduzido pelo Bloco e pelo PC. Por aqui não chegaremos lá.
A explicação mais convincente será provavelmente outra: os extraterrestres, senhor deputado, são os extraterrestres que andam, não a trocar bebés lusitanos uns pelos outros, mas a incorporar bebés humanos para, a partir de um pequeno e insignificante ponto geográfico, conquistarem o planeta. Portugal, país a quem pouco se liga, seria o ponto de partida para esta conspiração inter-galáctica, porque, quando se desse por ela, já seria tarde. E um deputado do PS, dos que acham mesmo que o país saiu da crise e pôs fim à austeridade, o sujeito ideal para ser abduzido por um alienígena, isto é, um tipo que vem certamente doutro planeta. Veja lá se, debaixo da pele da testa, não sente umas antenas a crescerem-lhe, senhor deputado Luís Gonçalves.
bipolaridade política
«Sinto-me vexado pela gravidade do que aconteceu», «não me recandidato se o país voltar a arder como no ano passado», «se o orçamento não for aprovado convoco eleições». São palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso Presidente da República, que parece ter passado, com alguma velocidade, de arauto entusiasmado das maravilhas e prodígios da pátria e do seu governo, para a carpideira da República. Um caso de grave bipolaridade política.

Marcelo e o Sporting: “Senti-me vexado pela imagem projetada por Portugal no mundo. Foram acontecimentos graves que não podemos banalizar”
E é isto
Sporting
Os que pedem a demissão do presidente do Sporting são os mesmos que pediram a demissão de Costa depois de 115 mortos nos incêndios?
Ou as coisas só piam fino quando se trata de assunto sério como o futebol?
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Não acham que está na hora de relançar o movimento “Vamos dar a Sócrates a medalha que Cavaco lhe negou”?
A culpabilização dos outros
Os israelitas exigem que os seus governos governem Israel e defendam Israel. Os palestinianos nada exigem aos seus líderes prestando-se há décadas a ser carne para canhão. Na faixa de Gaza não há água canalizada, a electricidade funciona de vez em quando, não há trabalho. Enquanto os palestininanos andarem a matar-se junto à fronteira os nababos do Hamas podem viver descansados.
Este esquema de poder funciona sempre: a culpa do atraso de Cuba é do embargo dos EUA, a culpa da catástrofe da Venezuela é dos EUA, da Colômbia e já agora de Portugal que não mandou pernil no Natal… Este estado de coisas segue e corre com o aplauso do mundo ocidental onde campeiam artigos como este publicado no Expresso: As guerreiras de Gaza. Nestes conflitos o lado apoiado pela esquerda abarrota de guerreiras. Havia guerreiras no Vietnam, na Coreia do Norte, em Angola, em Moçambique, no Irão… enfim era um fartote de guerreiras. Agora as guerreiras estão em Gaza. Moral da História: assim que jornalistas ocidentais vislumbram guerreiras é melhor mudar de sítio.
Em defesa do javardo
Às vezes, torna-se necessário falar a sério. Regra geral, tal não é necessário, mas, em certos assuntos, exige-se uma seriedade que ajude a balancear tópicos importantes. Sim, vou falar do Eurofestival da Canção.
Circulam aí críticas ao teor político/activista/pró-LGBTiPad2xxxOXOX (é assim, acho) da canção vencedora, a israelita. Meus amigos, nas artes e no entretenimento, uma pessoa deve dizer o que quiser. Deve enaltecer drogas, deve propor a extinção dos coelhos, deve explicar que fought the law and the law won, deve ver a Lucy no céu com diamantes e deve bombardear Londres à vontade. Também deve ter sexo com bitches, com o automóvel e com o patinho. Pode colocar crucifixos em urina, preservativos no nariz do Papa, representar o Maomé com bombas na cabeça, enfiar chicotes por orifícios e walk on the wild side sem medos.
A diluição entre entretenimento e política é que vos deveria preocupar. Já sei que uma canção é uma arma, que esta guitarra mata fascistas e que *uma gaivota voava, voava*: mas isso é o que acontece numa sociedade livre – dizem-se e escrevem-se coisas. Numa sociedade pouco livre, não se distingue o cantor do político, o escritor do deputado. Por isso, vendo as vossas críticas ao teor da canção israelita, o que concluo é que o problema não são as canções e sim a política tornada em espectáculo dos que artisticamente enchem a boca contra o populismo.
Se queremos seriedade, comecemos por enaltecer o javardo no local que lhe é destinado: no entretenimento e na arte.
22
De acordo com o insuspeito INE, a carga fiscal de 2017 foi a maior dos últimos vinte e dois anos. O que confirma algumas coisas que, efectivamente, já não ignorávamos, embora nos tenham andado a dizer o contrário. Primeiro, que a fiscalidade é, em Portugal, muito estável, como nos tem sempre assegurado o nosso ministro das finanças: ela sobe, sem excepção, todos os anos e qualquer investidor sabe que assim o será. Maior estabilidade do que esta será difícil de garantir. Segundo, o «milagre» orçamental português tem sido feito, como aliás sempre que acontece o é, pela via da tributação, muito mais do pela do crescimento económico. O que quer dizer que a poupança se torna cada vez mais difícil e, consequentemente, o investimento, a prazo, também o será. Veremos no que isto vai dar.
Os Mistérios de Pedrógão Grande
Os fogos de Pedrógão Grande nunca foram contados com a verdade. Desde o primeiro dia, 17 de Junho de 2017, que o Estado faz uma ginástica acrobática para suprimir factos, suprimir prova, silenciar bombeiros, silenciar INEM, silenciar as vítimas dos fogos. Porquê? O que esconde de tão grave esta tragédia que não pode ser contada exactamente como ocorreu sem invenções de factos alternativos como por exemplo aquele raio que caiu numa árvore sem trovoada descoberto imediatamente nos dias a seguir pela PJ e já desmentido?
Volvido quase um ano depois da maior tragédia mortal em fogos jamais vista em Portugal, os mistérios adensam-se. À medida que os relatórios técnicos foram saindo, mais dúvidas, mais incertezas vão surgindo. E curiosamente com a complacência da oposição e dos média que pouco ou nada fazem para desmascarar esta manipulação clara do governo. Não é normal. Estamos em ditadura?
O primeiro mistério começa com o início do fogo. Disseram que o combate foi desigual devido a uma natureza em fúria – o tal downburst – o fenómeno que “inviabilizou” todos os esforços, da seca extrema e do material combustível em muita quantidade que provocou o inferno e que encurralou tanta gente. Mas, esqueceram-se de referir que o alerta foi dado às 14h45 em Escalos Fundeiros por um cidadão, quando o fogo era apenas um pequeno foco e que às 15h17, antes de abandonar o local, tira a seguinte foto. Aqui na imagem vemos um fogo perfeitamente dominável mas nenhum bombeiro a apagá-lo. Esses tinham lá estado. Tinham. Porque abandonaram o local? Porque não se juntaram imediatamente reforços sem sair do terreno? No relatório de 6 de Julho da ANPC, diz que foram despachados para o ataque 3 corpos de bombeiros: VFCI de Pedrogão Grande, VFCI de Castanheiro de Pera e VFCI de Figueiró dos Vinhos e 1 helicóptero ligeiro ( este chegou às 15.05). Que às 14.54 é recebido o primeiro ponto da situação onde são pedidos mais meios. Dizem que foram accionadas mais viaturas do CBV anteriores e do CBV de Ansião. Que às 14.43 foram 75 operacionais e 22 meios – 1 helicóptero ligeiro, 6 operacionais, 61 bombeiros, 17 viaturas, 2 equipas de sapadores com 6 operacionais, 1 patrulha GNR com 2 militares . Que às 15.02 fora accionada brigada de combate ao CODIS de Castelo Branco (3 veículos com 12 bombeiros) e um Heli-bombardeiro pesado, Kamov (HESA02), às 15.08. Consegue ver este aparato todo de meios no testemunho e foto tirada no local às 15h17???? Pois. Eu também não. O resto da história já sabemos. O fogo lavrou sem oposição tudo o que apanhou pela frente. E cresceu, cresceu, cresceu até ficar incontrolável.
Depois vem o mistério das mortes. Ao segundo dia, sem se saber do paradeiro dos desaparecidos, sem ter ainda contabilizado todos os feridos, com milhares de hectares queimados ainda por investigar, o Governo já sabia que eram 64. Nem mais um nem menos um. O cronómetro dos óbitos trancou. Foi preciso uma cidadã corajosa não se calar e afirmar haver mais, a partir de uma lista de levantamento de óbitos no terreno – que quiseram abafar e descredibilizar – para o caso dar uma reviravolta e MP ter de actualizar para 67, dando razão à empresária. Afinal havia mesmo mais gente. Mas há mais: em directo na SIC Júlia Pinheiro e Hernâni Carvalho, juntos a fazer a cobertura do fogo, revelavam que eram muito mais de uma centena. Veja este vídeo. Mas isto não fica por aqui. Ao consultar o site do Ministério da Saúde, nossa equipa do #NaoNosCalamos verificou o seguinte: No quadro abaixo podemos constatar um pico anormal de óbitos registados a 18 de Junho 2017. Com umas contas simples podemos verificar que se formos ao mês de Junho de 2017, e fizermos a soma dos óbitos entre dia 1 e dia 16 e seguidamente dividirmos por 16, temos a média diária. Podemos fazer o mesmo entre o dia 24 e 31 e dividindo neste caso por 7, veremos que obtemos resultados similares. Vamos multiplicar o número que dá (260) por 7 o que dá 1820 óbitos em média por 7 dias. Agora fazemos a soma do dia 17 a 23. O resultado é 2287. A este resultado vamos retirar os 1820 óbitos de média e obtemos o número de óbitos acima da média (ver folha cálculo anexa). Estas 467 mortes serão em grande parte vítimas de Pedrogão. A este número temos que adicionar os corpos que foram encontrados à posteriori, assim como as pessoas que foram morrendo nos hospitais. Isto com base nos dados oficiais disponíveis para todos que sabemos serem escassos devido ao “blackout” forçado do INEM e funerárias. Mas serve para reflexão.


Mas há mais mistérios. De acordo com o relatório da ANPC, ficamos a saber que: só às 19:55 o comando foi passado do Comandante dos Bombeiros Pedrógão Grande para o Comandante Distrital, quando a situação já estava completamente fora de controlo e várias medidas de combate e coordenação tinham sido atrasadas irrecuperavelmente; o Plano Municipal de Emergência que não foi accionado (e estava caducado), mais de 5h depois do primeiro alerta, de facto só o foi às 20:45; o CODIS esteve somente 2 horas no comando, saindo para outra missão, e transitou-o para o 2º Comando Nacional, conforme explicito no relatório da ANPC; a partir das 22h, o 2º CONAC que assumiu funções, até às 20:50 do dia seguinte, foi quem às 4:56 de dia 18 ordenou o 112 das salas de operações dos CDOS, a deixarem de registar no sistema informático os pedidos de socorro, sendo prejudicial para a percepção posterior na fita do tempo sobre os acontecimentos. Ou seja, mandou destruir prova. Porquê?
Outros mistérios prendem-se com o SIRESP e os Kamov. Alguém aí no seu perfeito juízo consegue compreender porque não foi imediatamente rescindido o contrato mais absurdo e criminoso com o sistema de comunicações que matou e feriu gravemente centenas de pessoas? Um sistema que provou falhar SEMPRE em situações de emergência, que é caríssimo, arcaico, e cujas cláusulas protege só quem o criou em vez das vítimas?? E os Kamov, essas “pérolas” do combate aos incêndios que nunca funcionaram em condições, que já antes de os adquirir eram obsoletos, cuja maioria nunca saiu do chão, virem agora usar o regulador aéreo para forçar paragem dos Kamov e justificar a compra de novos, mais três por adjudicação directa?!!!
Ah! e o mistério dos donativos desaparecidos? Alguém sabe onde param?
Como se isto tudo já não bastasse, junta-se ainda o mistério de, depois das conclusões do Relatório Técnico Independente e denúncia de destruição de prova, o Estado não ter sido ainda constituído arguido quando já não há dúvida alguma de ser o principal culpado da tragédia.
Mistérios e mais mistérios… É o país desgraçado que temos.
Uma história de jardinagem
Estou tão triste com a morte da minha avó que vou escrever uma canção para levar ao festival da canção da RTP. Pintarei o cabelo de rosa, a cor do PS, convidarei alguém para fingir que canta comigo apesar de se limitar a exibir um visual que me faça parecer gay e direi coisas profundas como o quão não faz mal a avó ter morrido porque eu continuarei a regar o seu jardim, perpetuando, dessa forma, qualquer coisa que ela fazia (continuarei a comer os coiratos de que tanto gostavas é mais difícil de rimar). Jardim rima com fim e também rima com mim, mim, mim.
A velha eutanasiou-se claro. Quer dizer, a reflexividade do verbo significa que decidiu que alguém teria o dever de a executar. Entrou no hospital, ping, ping, pong, dizia a maquineta ligada ao pulmão do velho, e, percorrendo a passadeira vermelha ladeado de macas onde outros idosos lutam pela vida com maleitas pindéricas como pneumonia, sentiu-se aliviada por morrer e não mais regar o caraças do jardim. “Avó, de certeza que queres morrer”? Não se volta atrás: a canção tem que ser escrita. Jardim rima com varandim, de onde vias teu jardim enquanto comias o pudim. Não há mais pudim. Chegarás ao teu fim, por fim, sem mim, mim, mim. Enfim.
Espera aí, velhota, vais para enfermaria das infectocontagiosas que o pior que te pode acontecer é morrer – ah, ah, ah!, suspirou o carrasco feliz pela piada. “Já volto com a injecção da morte digna”. “Eu posso asfixia-la com a almofada!” – gritou a engraçadinha com sarampo. “Ela que venha aqui” – respondeu a isolada com ébola da redoma de vidro. Não! Morrer é com dignidade!
O jardim acabou por ser regado mais duas vezes. Na semana seguinte fui espairecer para Formentera com o outro cantor que se limitou a olhar para os sapatos fazendo-me parecer gay. Dormimos na mesma cama, como irmãos, ãos, ãos.
760300822
O Bloco de Esquerda pede o favor a todos os portugueses de não ligar este número (760300822). Por favor, respeitem a vontade do Bloco de Esquerda e não liguem este número (760300822) para votar em Israel. O Bloco de Esquerda merece que o seu apelo tenha todo o sucesso do Mundo, pelo que vos peço, por favor, para não telefonarem para este número (760300822). E se telefonarem, por favor não telefonem mais de 3 vezes que nós não queremos que o apelo do Bloco de Esquerda acabe ridicularizado pela votação de Israel. Vamos lá fazer um esforço e evitar que a malta do Bloco de Esquerda se sinta como um bando de demagogos falhados, telefonando para este número (760300822).
O mundo às avessas
Hoje, às 17h00, na Livraria Flâneur (Rua de Fernandes Costa, 88 – Porto), ocorrerá o lançamento portuense do livro do João Brás, “O mundo às avessas”. Com apresentação de Ricardo Lima, será a divulgação de um livro com grande interesse para todas as pessoas estupefactas com os fenómenos modernos como “O Cu é Lindo”, o machismo inerente ao consumo de lacticínios, a problemática do feminismo animal (por oposição ao feminismo vegetal) e o triunfo da mediocridade modernista em ruptura com a retrógrada civilização que, curiosamente, gerou e tolera todos estes fenómenos de lunáticos.
A não perder — quer o lançamento, quer o livro propriamente dito.
Senhor Marquês
Post de convidado: Judite França
Ah, foi o homem certo no momento certo.
Ah, era o único primeiro-ministro com uma ideia, um plano, um projeto para o país.
Ah, se não fosse ele, não teríamos crescido economicamente.
Ah… Ah… Ah? Ah?? Corrupção? Branqueamento de capitais? Milhões na Suíça? Dinheiro em troca de benefícios a empresas? Passava o dinheiro pela conta de amigos até chegar a si, já bem lavado?
A sério? Diz que sim, que é sério. Bem sério.
O despacho final de acusação da Operação Marquês tem mais de 4 mil páginas. O Ministério Público vasculhou 500 contas bancárias, passou a pente fino milhares de documentos, em Portugal e no estrangeiro, inquiriu 200 testemunhas e mandou gravar não sei quantas horas de escutas telefónicas.
“Senhor Marquês… e o nosso fim do mês?” Sempre que ouço Operação Marquês é disto que me lembro: da música de Sérgio Godinho. “Passe pra cá a carteira/ Da sua algibeira/ Carteira em couro/ Relógio de ouro/ Não lhe faz falta/ E faz-nos jeito à malta”.
Senhor Marquês é apropriado. Sócrates tem um ar nobre, mais nobre do que qualquer político socialista. Fatos impecáveis, postura cuidada, elegante, bem falante.
A prancha

Uma das frases mais fascinantes e ambíguas sobre a política foi cunhada no Brasil há mais de 60 anos. “Rouba, mas faz”, que tinha como destinatário Adhemar de Barros, figura cimeira da governação paulista, foi lançada pelos seus adversários como um ataque aos métodos pouco ortodoxos do influente político; no entanto, numa daquelas deliciosas ironias da vida, a expressão acabou por ser aproveitada pelos apoiantes do próprio como um poderoso slogan de campanha, provando que a opinião pública e as avaliações dos eleitores são lugares ainda mais estranhos do que o amor.
Nos últimos dias, deste lado do Atlântico, destacados elementos do Partido Socialista têm-se destacado, ainda que involuntariamente, na aplicação da máxima brasileira ao legado do ex-primeiro-ministro José Sócrates, alternando entre a “vergonha” que sentem das suas manigâncias (o que roubou) e o “orgulho” que experimentam em relação à sua obra governamental (o que fez). Como acontece muitas vezes quando importamos teorias e conceitos do estrangeiro, há um grande problema nesta adaptação. O “roubou, mas fez” não representa, neste caso, a oposição entre uma coisa má e uma coisa boa; representa, sim, a composição de duas coisas más, sendo a segunda bastante pior do que a primeira. Se Sócrates tivesse roubado o dobro e feito apenas metade, ter-nos-ia ficado mais em conta. O grande azar do país foi ter tido um PM com aquelas características a utilizar o pensamento de Adhemar em vez de se dedicar a um muito menos cansativo “rouba e não faz”. Imaginem que José Sócrates, em vez de assinar contratos, despachos e decretos, tinha passado a totalidade dos seus anos como chefe do governo a transportar barras de ouro do cofre do Banco de Portugal para o sótão da casa de Carlos Santos Silva. Isso teria significado, na pior das hipóteses, um prejuízo de 12 mil milhões de euros para os contribuintes, valor total das reservas douradas da nação. Para verem o que representou essa obsessão contemporânea com o “deixar obra feita”, só o resgate da troika foi de 78 mil milhões! É mais do que tempo de legislarmos no sentido da proibição do uso de canetas na sala do Conselho de Ministros e no Palacete de São Bento.
Em relação à dúvida do momento – são os partidos todos iguais ou o PS abusa mais do que os outros? –, deixo aqui um episódio que me contaram, verídico como todos os que vos vou transmitindo nos meus textos:
Uma vez, num clube de natação frequentado por forças partidárias, o director do equipamento chamou o Partido Socialista e disse-lhe:
– Caro PS, o senhor vai ser expulso por fazer xixi na piscina.
– Mas, Sr. Director – respondeu o PS –, todos os partidos fazem!
– Talvez, mas da prancha de saltos você é o único.
Afinal, Sócrates era só a ponta do iceberg
Uma semana depois de escrever meu artigo “A Vergonha Súbita do PS”, onde afirmava que essa posição pública do partido não passava de mera estratégia , eis que agora o Presidente do SMMP vem denunciar, em entrevista na Sábado, que “as medidas legislativas em curso têm como objectivo reforço da influência no Procurador-geral e acesso à informação criminal“. Segundo este, ” tal plano se desenvolve em duas fases: mais influência sobre o Procurador-geral e acesso à informação criminal”. Como? Dado que o “Conselho Superior do Ministério Público é um órgão democrático e plural em que grande parte dos membros é eleita já o Procurador-Geral da República é um órgão unipessoal e resulta de uma escolha politica, cuja iniciativa parte do Governo. Controlar o Conselho Superior do Ministério Público é mais difícil do que ter influência sobre o Procurador-Geral da República” diz António Ventinhas. E continua:”Como este Governo irá ter um papel muito determinante na escolha do novo PGR já em Outubro, está já a tratar de reforçar os seus poderes previamente no âmbito do Estatuto do Ministério Público. Um Procurador-Geral da República com os poderes reforçados pode tornar-se uma ameaça para a investigação criminal se não for escolhida a pessoa certa.” Mais adiante, termina: ” o “Ministério da Justiça pretende através do IGFEJ ( Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça), ficar com competência exclusiva da gestão dos dados do sistema judicial. Quem controla a informação tem a possibilidade de saber o que se passa em cada investigação criminal e parece-nos evidente que o executivo não possa ter acesso a esse tipo de informação. Tal facto compromete a independência e autonomia de quem investiga, em especial no que diz respeito à criminalidade económico-financeira”. Bem, só não acerto mesmo no euromilhões!
Estava de caras que todo aquele alinhamento do Partido a demarcar-se de Sócrates com a ajuda até da ex-namorada ( com aquele texto ridículo mas que a mim nunca me convenceu) e que não provocou sequer a ira do “Pinto de Sousa” que calmamente só foi entregar o cartão de militante, acompanhado de um comunicado “soft e queriducho” cheio de… mágoa (ah! ah! ah!)”, sem arrancar um único cabelo, sem os ataques verbais coléricos que ainda há pouco vimos no MP, não era senão estratégia combinada. Assim, PS podia agir pela retaguarda, ajudando a família socialista apanhada pela justiça sem levantar suspeitas. Esse foi o primeiro passo do plano. Isto porque alguém já sabia que vinha aí mais “bombas judiciais” e era preciso agir depressa.
E de facto, nem uma semana depois de Manuel Pinho, eis que mais três ex-ministros de Sócrates são apanhados na malhas da corrupção num processo de investigação às PPP’s Rodoviárias: Mário Lino, António Mendonça e Paulo Campos. O Polvo não pára mesmo de crescer.
Agora já não se trata só do Sócrates e da sua vida de luxo como ex governante às custas de um amigo. Aos poucos começa a revelar-se que afinal o “Caso Sócrates” que durante anos estava confinado a um indivíduo de vaidades ilimitadas, é afinal a ponta do iceberg de uma organização tentacular criminosa, instalada num governo para roubar o erário público e enriquecer seus governantes e amigos”. Em suma, uma máfia “sócretina” portuguesa.
Para que esta “organização” fosse bem sucedida e pudesse crescer sem constrangimentos durante anos, foi preciso a ajuda preciosa de Pinto Monteiro que afirmou que ” o processo Freeport, que envolveu o nome de José Sócrates “é uma fraude e foi um processo inventado”. E que sobre o caso Face Oculta, “as escutas feitas às conversas entre José Sócrates e Armando Vara foram destruídas porque não havia crime nenhum”. Assim como Cândida Almeida que afirmou em 2012: “Digo olhos nos olhos: O nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos”. E da própria comunicação social que excomungou a jornalista mais activa na luta contra a corrupção, Manuela Moura Guedes, e que foi a primeira a fazer frente ao governo Socrático, denunciando-o. Foi demitida pela TVI por Pais do Amaral que entretanto também ele foi apanhado no Processo Marquês por desvio de mais de 2 milhões de euros e faz parte ainda da lista de grandes devedores a fundo perdido da CGD. Não é cómico?
Nesta descoberta, ficou claro que não houve, cegos, surdos e mudos. Houve sim, gente que beneficiava daquela “organização”, directa ou indirectamente, e por isso andavam todos caladinhos.
É o maior caso de corrupção como não há memória em Portugal e que se o PS não for bem sucedido no silenciamento e posterior arquivamento judicial de todos os processos que envolvem membros deste partido, como o foi no passado, deixará cicatrizes profundas.
A única questão que se coloca agora é saber se nessa intenção, PS vai ou não conseguir seus intentos. Mais nada. Porque o plano, esse, já está em marcha.
mais uma vitória do fascismo fiscal
Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República Portuguesa, vetou, há dois anos, um diploma do governo que, na prática, abria integralmente as contas bancárias ao fisco. As pessoas comuns julgaram, na altura, que Marcelo, como constitucionalista e democrata, estava preocupado com a garantia dos direitos fundamentais dos cidadãos portugueses, cada vez mais distorcidos, para não dizer dizimados, por um estado fiscalista, obcecado em extorquir dinheiro aos cidadãos para sustentar os seus maus vícios e uma gestão pública absolutamente perdulária e faraónica. Pois bem, S. Ex.ª esclarece que, afinal, se estava marimbando completamente para os direitos individuais, e informa, agora, que o que então o fez vetar o diploma foi a situação conjuntural dos bancos, entre eles o do seu muito querido amigo Ricardo Salgado, que Marcelo não quis agravar com a mais do que provável fuga de capitais para o estrangeiro. O governo, obviamente, não perdeu a oportunidade, e vai entrar pelas contas dos particulares a dentro, como focinho de cão em manteiga numa tarde de Verão. Ficamos, assim, a saber que o nosso presidente da República tem uma visão utilitarista dos seus poderes e dos direitos dos cidadãos, agindo, não em conformidade com o que devem ser os princípios fundamentais de um Estado de Direito, mas em função do que dá jeito e convém a um estado que se está integralmente lixando para os seus cidadãos. Se isto já seria péssimo numa situação de normalidade nacional, numa altura em que se escondem os responsáveis pela tragédia da Caixa Geral de Depósitos, não permitindo que os contribuintes conheçam os nomes daqueles que provocaram o rombo que eles irão pagar, é de um cinismo próprio de um estado plutocrático. Quem tem 50 mil euros numa conta bancária é suspeito e está exposto à devassa do fisco, enquanto que quem deve milhões a um banco público é merecedor do direito à privacidade.
Um dos argumentos mais utilizados para defender a abundância de subsídios a deputados é que o salário é baixo e estes subsídios escondidos são a melhor forma de atrair os melhores valores para a política. Não irei discutir se tem resultado. Proponho apenas fazer um teste rápido a esta teoria.
De uma forma simplificada, existem três tipos de deputados na Assembleia da República:
1) Os presidentes da Junta: Particularmente relevantes no grandes partidos, estes são deputados que entraram nas listas por uma quota qualquer (representantes da concelhia, da distrital, da juventude partidária, etc). São pessoas cujo único mérito é dominar algum sindicato de voto interno. O salário de deputado é o máximo que alguma vez conseguirão na vida porque ninguém cá fora lhes pagaria o mesmo (por actividades legais).
2) Os lobistas: pessoas que vão para o parlamento defender um certo grupo. Normalmente advogados ou activistas, cujo objectivo é defender o interesse de algum cliente ou grupo de clientes que já lhes pagam bem ou pagarão bem terminado o seu mandato.
3) Visitantes: são profissionais de sucesso relativamente bem pagos fora da Assembleia da República. Muitos ganhariam mais fora da Assembleia da República do que dentro dela. Fizeram o percurso para entrar na Assembleia da República por convicção ideológica ou em busca do prestígio pessoal do cargo.
Contas por alto, diria que neste momento o primeiro grupo representa 60% dos deputados e os outros dois grupos 20% cada um. Com o passar do tempo, alguns elementos do grupo 1 mais resistentes acabam por ir para o grupo 2. Apesar de serem uma minoria, os grupos 2 e 3 deverão ser responsáveis por grande parte da legislação que sai da Assembleia da República.
Aceitando estes pressupostos, ficam então as questões para discussão:
– Qual destes grupos estaria menos interessado em ir para a Assembleia da República se o salário completo baixasse dos actuais 7 mil euros (com subsídios) para algo como 2 mil euros?
– Com menos representantes desse grupo, o parlamento ficaria melhor ou pior?
Parece haver dúvidas acerca da eutanásia
Não sei porquê: consiste em requisitar ao estado o desejado privilégio de poder ser assassinado em condições máximas de higiene e dignidade. Como poderia alguém ser contra tão virtuoso fim para velhos inúteis?
é proibido sabermos o que estamos a pagar
Segundo o senhor governador do Banco de Portugal, a lei não permite a divulgação dos devedores da Caixa Geral de Depósitos. Estranha legislação esta que não permite a divulgação dos devedores de um banco em riscos de falir, mas que autoriza e estimula a publicação de listas de devedores ao fisco. Se, em qualquer um dos casos, quem paga o pato são sempre os mesmos, os contribuintes, por que razão se proíbe a divulgação dos nomes dos primeiros quando é o próprio estado a promover a divulgação dos segundos? Ficará a pátria em perigo se os portugueses souberem a quem pertencem os calotes bancários que estão a pagar?
Obsessão igualitária e a União

Entendo como o Rui que terá havido uma genuína preocupação da Iniciativa Liberal em produzir um documento mais bem estruturado e, sem dúvida, o objectivo de veicular uma mensagem que defenda tirar o estado das nossas vidas. Muito bem!
Li o programa político que apresentaram recentemente, mas infelizmente não posso dizer que nele me reveja. Desde logo porque é um “programa”. Claro que há pontos e intenções com que concordo totalmente, mas outros há que são bastante criticáveis.
Os capítulos dedicados à finanças e economia parecem ter sido os mais pensados e elaborados e, curiosamente, é dessa área que vem uma omissão imperdoável: a Iniciativa Liberal não defende o fim da progressividade fiscal. Assim, tudo o resto que possa afirmar neste tema está ferido de inconsistência.
Esta obsessão igualitária e redistributiva parece estar já entranhada subconscientemente. É isto Liberal?
Uma nota final: o novo partido diz defender o “aprofundamento da União Europeia”. Fico curioso sobre que significará isto.
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Cuspir para o ar, como explicou o Newton
Parece que a Iniciativa Liberal considera inaceitável que a eutanásia continue por legalizar. Parabéns: o que faz mesmo falta é malta disposta a matar outros com bênção do estado. Realmente, é um método eficaz de redução de despesa, mas não contem comigo para penas de morte. Dado que existem poucas certezas na vida de pessoas inteligentes além da morte, uma sociedade sã deve é canalizar investimento que proporcione a doentes terminais e velhos um fim digno, em conforto, sem sofrimento físico. Chamam-se cuidados paliativos e não há um cêntimo nesta área que possa ser considerado desperdício. Para se optar pela solução fácil, barata, animalesca, a de extermínio sancionado pela religião da “ética republicana”, já há Isabéis Moreiras que cheguem.
o programa da iniciativa liberal

Li o Programa Político da Iniciativa Liberal, divulgado nos últimos dias pela comunicação social. Desconsiderando a minha opinião pessoal, que para o caso interessa pouco, já que não me entusiasmo com esse nem com qualquer outro partido, sempre direi que o documento está muito mais escorreito e correcto do que alguns outros com que, de forma muito descuidada, o partido se tinha apresentado anteriormente, e que aqui oportunamente critiquei. Valeram a pena as críticas.
De todo o modo, um programa partidário é sempre um plano de acção e, por isso, de intervenção social. Se essa intervenção for para diminuir o peso do estado na sociedade e nas vidas das pessoas, tanto melhor. Do que li, pareceu-me ser esse o objectivo, desta vez, convenhamos, com fundamentação razoável.
Não tendo a intenção de proceder a uma análise exegética, salientarei que me parece subsistir alguma confusão entre o que são o indivíduo e o cidadão, caindo o Programa, nesta matéria, no que julgo ser um erro recorrente de identificar os conceitos, sobrepondo o segundo ao primeiro. Ora, sendo um cidadão um indivíduo vinculado a um estado, um programa liberal deverá, a meu ver, distingui-los bem e privilegiar o primeiro sobre o segundo, reconhecendo-lhe, inclusivamente, a faculdade dele não se interessar pela ordem política e dela se desvincular, se assim o entender. Por outro lado, pareceu-me importante realçar a evidente inutilidade de uma «justiça» que se não realize em tempo razoável, princípio que, aliás, se encontra incluso na nossa Constituição, embora cada vez mais distante da realidade. A este propósito, pareceu-me de lamentar a inexistência de referência à abusiva criminalização tributária – imposta de há cerca de vinte anos para cá, por emergência do tesouro público, ditada pela péssima gestão do mesmo – onde há muito para fazer, o que permitiria um considerável alívio dos tribunais administrativos e fiscais, e, obviamente, dos juízos criminais. Hoje em dia, um sentenciado por crimes tributários arrisca penas tão ou mais pesadas do que um homicida. Isso é uma absoluta perversão de tudo o que se possa entender sobre os princípios mais elementares do humanismo jurídico e da tutela dos direitos individuais fundamentais, e um partido liberal deveria denunciá-lo. Por fim, em matéria de educação, pareceram-me muito reduzidas as palavras sobre o ensino superior, sendo que, as poucas que lá li, parecem-me estar nitidamente a pensar no ensino público. Nada é dito sobre o ensino superior privado, a sua perda total de autonomia e estatização efectiva dos últimos anos, ou a abusiva utilização das agências regulatórias para fins claramente estatais.
Ponderado o Programa, sobretudo comparando-o com os documentos, muito ligeiros, anteriormente apresentados, há ganhos inegáveis, e não me importaria nada de ver a maior parte das propostas que ele contém levadas à prática. Mas essa é uma outra dimensão do problema, na qual, por cepticismo endémico e algum conhecimento da nossa história e mentalidade, não acredito que seja exequível. Por outro lado, palavras leva-as o vento, pelo que os homens da Iniciativa Liberal têm de continuar a fazer prova que não são apenas um grupo de indivíduos interessados em conquistar algumas migalhas de poder, mas que efectivamente poderão ser úteis àqueles que vierem a dar-lhes o voto. Nessa medida, seria da maior importância que assumissem alguns compromissos políticos concretos para futuro, por exemplo, sobre possíveis alianças ou apoios parlamentares, caso venham a eleger algum ou alguns deputados. Mas isso pode ainda esperar algum tempo. A ver vamos.
Estão a falar a sério?
Durante anos senti primeiro a indignação: como é possível referir-se assim José Sócrates? Onde estão as provas? Falas assim porque queres fazer mal ao PS. Mandaram recados, gritaram-me ao telefone e mensageiros mais cordatos explicaram-se que eu estava a ser uma idiota útil. Depois entrámos na fase do silêncio. Se por acaso referia Sócrates a resposta era o silêncio. Nada. Era como se estivesse a falar de um daqueles problemas matemáticos sem solução. Agora eis que despertam indignados com Sócrates. Dizem que este os enganou. Os indignados com Sócrates são a nova versão daqueles intelectuais que durante anos tiraram as vantagens da sua proximidade aos comunistas: boa imprensa, traduções, viagens e sobretudo sossego. Quandoa a coisa implodiu disseram que o partido os enganara.
7 de Maio de 2018
José Sócrates tomou a decisão de criar um movimento político.
Ninguém me disse, ninguém me contou. Mas neste momento tenho a certeza que a direcção do PS conta com uma forte condenação em tribunal pois só assim se impedirá que Sócrates regresse à política.
literatura para os dias que correm
La Tomatina

O âmbito de aplicação da “lei do ketchup” está cada vez mais alargado, tendo chegado esta semana à Assembleia da República. Recordemos a experiência: com um prato de batatas fritas à frente, pegamos no frasco do molho, viramo-lo ao contrário e começamos a dar-lhe palmadas no fundo; ao fim de meia dúzia de tapinhas (obrigado, Brasil!) nem uma gota caiu no prato, à sétima ou oitava temos as batatas afogadas em ketchup e o petisco irremediavelmente comprometido.
Tudo começou com o PSD. Depois de meses de sonolência e despertado pela imprensa, exigiu ouvir as explicações do ex-ministro Manuel Pinho no Parlamento sobre as relações com o BES e a EDP entre 2005 e 2009. Logo de seguida, com a mão bem aberta, o Bloco de Esquerda pede a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as rendas no sector energético, alargando a investigação ao intervalo de tempo 2004-2018 e a todos os governos desde Durão Barroso. Entusiasmado com o processo, eis que surge o PCP, propondo que a comissão não se fique pelo ramo da energia e que o inquérito abranja também as privatizações, as concessões, as parcerias público-privadas, as falhas das entidades reguladoras, as relações do Estado com as empresas de transportes, comunicações, banca e seguros, os benefícios concedidos a grandes grupos económicos e os eventuais actos de corrupção de responsáveis administrativos ou titulares de cargos políticos com influência ou poder na definição desses benefícios. O período que será sujeito a análise não é claramente delimitado, mas supõe-se que comece a 19 de Setembro de 1975, dia em que Vasco Gonçalves deixou de ser primeiro-ministro. Entretanto, notícias não confirmadas informam que Oliver Stone já requereu aos serviços da Assembleia que o assassinato de John F. Kennedy seja incluído nos trabalhos de averiguação, e o meu vizinho Berto, filho de pai incógnito, gostaria que os deputados aproveitassem para se debruçar sobre esse angustiante mistério.
O ketchup está já por todo o lado, sujando tudo à sua passagem, da gravata de António Costa às saias da Maria Cachucha. No meio da confusão, quem sabe, até pode haver uma ou outra batata frita que escape, como aqueles curiosos que vão à Tomatina em Espanha mas ficam a assistir a tudo atrás de uma janela, protegidos da grande pândega.
Manuel Pinho, conforme podemos ver na nossa factura de electricidade, é um dos maiores peritos mundiais em energia renovável. Não será de admirar que, com a ajuda do BE e do PCP, tenha competências para conseguir renovar também a sua.
Jorge, o sofredor
Tive um amigo na faculdade que teve uma namorada rica. Enquanto os outros três do grupo (no qual me incluía) juntavam moedas na perspectiva de conseguirem quinhentos escudos que nos permitissem pedir o velho Peugeot emprestado ao pai de um deles, o outro passeava com a namorada no seu Mercedes de depósito cheio. Constava que o pai dela tinha uma empresa de não-sei-bem-o-quê que tinha muito sucesso. Mais um ou outro depósito de combustível eram trocos para aquela gente que vivia numa quinta de três hectares com vista sobre o Douro entre Gondomar e Paredes.
O Zé chegou um dia com um novíssimo Macintosh PowerBook 170, prenda da moça por celebrarem três meses de namoro. Aos quatro meses, convidaram o grupo tudo para um jantar informal, a primeira vez que provei ostras na minha vida. Recordo a sabedoria com que nos explicou que ostras a sério é na baía de Arcachon, sempre acompanhadas de um Bordéus de 1961. Recordo especialmente a data pela advertência: nunca cair no erro de aceitar um Bordéus de 1960, uma zurrapa intragável. E logo eu, que achava que os píncaros da sofisticação eram atingidos com uma Super Bock fresquinha e tremoços da mesma água em que a Dona Elvira lavava os dentes postiços (a Dona Elvira tinha uma mercearia vintage: infelizmente, o comércio tradicional está em franco declínio, não tendo sobrevivido à abertura de um Minipreço a 3 km).
Um dia perguntei ao Jorge o que pensava a sua namorada dos seus pais, que, reformados por invalidez, viviam com o filho numa ilha com retrete partilhada. Desviou o assunto para as férias de Verão que iria ter com a Carlota Josefina num resort exclusivo da Polinésia Francesa. Dois dias antes de partirem, o pai da Carlota Josefina foi preso.
Quando regressaram, compraram um duplex no Algarve e ficaram uns tempos por Vilamoura, para espairecer da desgraça. De regresso ao Porto, tive oportunidade de me sentar no banco do Testarossa do Jorge, que agora vestia Armani sobre T-shirt com mocassins à lá Miami Vice. Contou-me que num concerto da banda de covers naquele bar de Valbom tinha destruído uma Gibson Les Paul de 1959 só pelo gozo no fim de Don’t Stop Believing, apesar de os filisteus acharam tratar-se de uma guitarra barata, o que o deixou fulo ao ponto de arrancar as válvulas do JTM45 à dentada.
A casa do Jorge e da Carlota Josefina era espectacular. Com uma entrada em mármore Carrara transportada em carroças por líbios desde Lunigiana, motivaria pelo menos trezentas páginas queirosianas numa introdução aos Maias revisto. O requinte das criadas, envergando avental de seda, stilettos e mais nada, fez-me sentir inveja pelo aconchego financeiro que o princípio constitucional da igualdade garante.
Com a penhora, começaram as dificuldades. Aparentemente, o pai da Carlota Josefina tinha desfalcado sete câmaras municipais e tipos menos escrupulosos em algumas centenas de milhões de euros e o bordel onde estagiavam as criadas do Jorge não gerava receita suficiente para as despesas de manter a Interpol calada sobre a proveniência geográfica das serviçais. A cocaína estava cada vez mais cara e o Ferrari consumia gasolina a mais para se acautelarem as contas dos restantes bens de primeira necessidade do casal, como o mordomo do mastim.
Quando a Carlota Joaquina deixou o Jorge por uma albanesa ex-funcionária da casa de alterne, o Jorge disse que nunca desconfiou que o dinheiro pudesse ter sido obtido de forma ilícita. Garantiu que foi enganado pela Carlota, que não seria por o pai ter sido preso que teria motivos para desconfiar de qualquer ilicitude ou motivos para lhe partirem as pernas na prisão.
Para ler o resto da história, siga este link.
Proxenetismo

A historieta da vergonha continua intrépida e notória.
Um dos seus capítulos tratará de anestesiar a opinião pública com a surpresa da liturgia não de actos de contrição dos mais grotescos e indecorosos personagens em torno da órbita de Sócrates, mas sim do seu assombro e consternação por se sentirem vítimas de estupro.
O caudilho, como é próprio dos salafrários, resguarda-se e limpa-se do seu passado alapado ao antigo primeiro-ministro através de interpostas pessoas.
A narrativa ganhará contornos de drama e tragédia quando a nação, ávida por contos de fadas que não importunem e disponham bem, tiver interiorizado a ideia de que “mais vale tarde do que nunca!” e de que o arrependimento, embora sendo tardio, merece pelo menos o benefício da dúvida sobre a sua sinceridade.
Estaremos prontos para outro.
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«#metoo josé sócrates»
Está na hora de criar o movimento «#MeToo José Sócrates», para reunir as incontáveis vítimas do ex-«menino de ouro do PS», que se está a tornar, de há duas semanas para cá, num verdadeiro Harvey Weinstein português: Adão e Silva, Carlos César, João Galamba, Santos Silva, António Costa e, agora, até a Mariana de todas as nossas causas fracturantes, a sua ex-namorada Fernanda Câncio, todos foram vítimas do homem que mandou no PS e no país por sete anos consecutivos. Mas todas estas estrepitosas personagens têm, também, um outro elo em comum: em algum momento das suas vidas beneficiaram, e muito, do poder de José Sócrates, sem que isso as tenha minimamente incomodado quando o ex-primeiro-ministro tinha alguma coisa para lhes dar.
Tendo passado de viúvas de Sócrates a vítimas de Sócrates, talvez o exercício de repúdio do «menino de ouro» que mais incomoda seja este de Fernanda Câncio, que frequentemente parece confundir os seus papéis de ex-companheira, de ex-beneficiária da vida flauteada que teve com Sócrates, de (ex-) jornalista, de testemunha do processo e, agora, de vítima das inefáveis mentiras do antigo namorado. É que ele há coisas, por mais que se queira demonstrar que se foi enganada e se tente fugir a eventuais responsabilidades (o ponto central do artigo, para Câncio, é este: «mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse»), que, por pudor, não se devem fazer. E uma delas é não bater publicamente em mortos. Sobretudo, se nos deitámos com eles quando estavam vivos.
De resto, o que é que ignorava Câncio ao tempo dos factos de que acusa o ex-namorado, que tenha descoberto só agora? Que Sócrates «tratava como insulto qualquer pergunta ou dúvida sobre a proveniência dos fundos que lhe permitiam viver desafogadamente»? Mas não foi isso que ele fazia quando o inquiriam sobre o caso Freeport? Ou sobre a licenciatura ao domingo e a prova de Inglês Técnico? Ou com o processo da Cova da Beira? Onde estava, na altura, a indignada Fernanda Câncio? A passar férias com ele e com Carlos Santos Silva, provavelmente. Ou que, apesar de ter recusado receber pelos seus programas na RTP e rejeitado a subvenção vitalícia de deputado, fazia uma vida de luxos, que a própria Câncio estimulou, ao indicar-lhe apartamentos milionários para que ele pagasse com o seu salário da Octapharma e com a «fortuna» da senhora sua putativa sogra?
A ingenuidade da combativa jornalista Câncio está ao nível das pretendentes a actrizes de Hollywood, que ficavam muito admiradas com o teor das entrevistas de «trabalho» que Weinstein agendava para as suites de hotel? Parece que sim. Pobre moça.
O homem que confundiu a mulher com o chapéu e a mulher que confundiu as mamas com o cérebro
No seu livro O homem que confundiu a mulher com um chapéu, o neurologista britânico Oliver Sacks descreve, na primeira história e que dá título ao livro, a agnose interna de um homem. O homem, professor de música capaz de interpretar magistralmente Dichterliebe de Schumann e de reconhecer com facilidade dodecágnos e icosaedros, não distinguia o pé do sapato, a cabeça da mulher do chapéu e a utilidade possível para uma simples luva. Perante a inquisição do médico sobre o que poderia ser o tal objecto, após examinar a luva, concluiu tratar-se “de uma superfície contínua dobrada sobre si mesma, com cinco extremidades — uma espécie de contentor”. Contentor para quê? “Para o que lá se quiser pôr. Há muitas possibilidades: pode ser um porta-moedas para moedas de cinco formatos diferentes”.
O Partido Socialista é uma superfície contínua dobrada sobre si mesma. Sócrates, uma das comuns luvas socialistas, ora serviu de aconchego para calçar no frio do Inverno, ora serviu para gerir a colocação em off-shore de moedinhas de valor diferente, ora serve, agora que chega o Verão, como rolo de papel absorvente de dupla face, bem dobradinho, para limpar fugazmente a trampa evacuada ao longo dos anos. Dir-me-ão que “os partidos são todos iguais”, o que pode ser verdade até um certo ponto, mas ninguém bate, neste país, em partes iguais de audácia e falta de vergonha, o partido do Largo do Rato. Da senhora tão perspicaz que ia ver casas que nenhum deputado ou primeiro-ministro sério poderiam comprar ao rol de swingers que agora se fingem de cornudos despeitados, desafio qualquer um a encontrar um pingo de moralidade nos inumanos drones de assalto ao poder que torturam os portugueses sérios com má pantomina em telejornais.
Tal como o músico do livro do dr. Sacks, os portugueses continuam a confundir o pé com o sapato e a cabeça da mulher com o chapéu ao encontrarem algum elemento redentor no redil de patifes que se associam ao partido. E tal como o músico do livro, também os portugueses não têm cura.
Descubra as diferenças
Eles estão chocados
cataláxia
Estive, hoje, na apresentação da edição comemorativa do 25º aniversário do notável livro Cataláxia, da autoria do meu querido amigo Pedro Arroja, que reúne crónicas que ele foi publicando nessa época, quando era um liberal convicto.
Esse livro influenciou-me na altura, apesar de eu ser já, por esses tempos, um firme liberal, graças à leitura da edição francesa, da PUF, do Law, Legislation an Liberty, de Hayek, que considero ser a obra que melhor expõe a teoria social ordinalista, não racionalista, que, em minha opinião, deve suportar qualquer abordagem liberal clássica, e por ter travado conhecimento com Orlando Vitorino, que levei, com mais alguns amigos, à defunta Universidade Livre, para o ouvirmos falar sobre uma doutrina que era, então, absolutamente desconhecida em Portugal.
O Cataláxia mantém uma impressionante frescura e actualidade, arriscando-me a dizer que nenhum liberal português o poderá ser sem a sua leitura integral. Por conseguinte, às meninas e aos meninos que por aí andam a fazer partidos liberais proponho-lhes a imediata leitura desta obra, antes de se porem a escrever manifestos, programas políticos ou o que quer que seja que lhes saia das cabecinhas. Eu mesmo irei relê-lo e fiz questão de levar comigo o meu filho Rui, que está com 16 anos, para que ele leia também o livro.
Ora, se o livro se mantém actual, sensato e verdadeiro, o que se passou com o seu autor para praticamente ter enjeitado o que de essencial ali escreveu? Foi apenas o facto de ter abandonado um ateísmo e, principalmente, um anti-clericalismo militante, que marcou alguns dos seus textos de então? Nada disso, até porque o essencial do pensamento liberal é perfeitamente transversal a quaisquer convicções religiosas ou mesmo à ausência de qualquer uma delas. Foi ter passado a acreditar nas virtudes do intervencionismo estatal, contra o primado da iniciativa privada? Também não me parece.
O motivo principal da rejeição arrojiana do liberalismo, que brilhantemente defendeu durante anos, foi outro: a adopção de Portugal como paradigma existencial, recusando, consequentemente, uma doutrina que o Pedro considerava de importação. Na verdade, quando o autor do Cataláxia escreveu os textos que compilou nessa obra, tinha acabado de regressar de uma longa estada de oito anos num país económica e politicamente civilizado – o Canadá – para um país que, sendo o seu, se encontrava num momento horroroso, que ele naturalmente rejeitou. O liberalismo que, nessa altura, o Pedro defendeu foi, por isso, a consequência inevitável de uma comparação. Só que, há medida que o Pedro se foi integrando nesse país que é o seu, ele foi entendendo que, apesar das muitas desgraças que nos atingiam, Portugal é um país extraordinário, onde se pode ser feliz sem pedir muito. A partir daí, o Pedro Arroja procurou uma doutrina de liberdade que fosse eminentemente nacional e virou costas a um pensamento liberal que ele considera, com razão, estrangeirado, como ele mesmo era por essa altura.
O problema é que, por muito que tenha procurado, não encontrou, na História e no pensamento político e filosófico nacional, nada que verdadeiramente mereça muito mais do que simples menções de pé de página de referências a doutrinas e a autores estrangeiros. Existe um pensamento social e político verdadeiramente português? A resposta, para mim que também pairo por essas águas, é claramente negativa. Herculano não foi mais do que um seguidor de Tocqueville na sua crítica ao centralismo francês, e o seu liberalismo admirava o modelo de vida da Inglaterra. Os homens de 1820, por sua vez, seguiram, quase todos sem excepção, a cartilha francesa do racionalismo cartesiano e do Abade de Sieyès. Fernando Pessoa foi um pensador espasmódico, que tanto abraçou o liberalismo saxónico, como o construtivismo republicano e o delírio esotérico sebastianista. No século XX, não se produziu praticamente uma única linha de pensamento político português original. E, naquele em que nos encontramos, as coisas são ainda piores.
O que ficou então, ao fim de vinte e cinco anos? A inexistência de uma filosofia portuguesa que seja merecedora do país notável que somos, apesar da fragilidade social em que continuamos a viver. Desse ponto de vista, no Cataláxia, do Pedro Arroja, continuamos a encontrar, ainda que vindas de fora, um conjunto de ideias que nunca soubemos produzir e que nos podem ser, ainda hoje, de grande utilidade. À falta de melhor, regressemos, então, a elas.
o príncipe do largo do rato
Graças à muito bem montada operação socialista que levou à demissão de José Sócrates do partido de que foi o «menino de oiro», vão já em dois, António José Seguro e o seu antecessor, os ex-secretários-gerais politicamente assassinados por António Costa. Este último a sangue frio, com manha e astúcia, numa altura em que ninguém o esperaria, utilizando, cinicamente, antigos capachos da vítima, como João Galamba, e um factóide colateral, o caso Pinho, como se não tivessem existido mais do que motivos e revelações anteriores que legitimassem as posições e declarações de agora. Só que, neste momento, António Costa sente-se seguro no país e no partido, e sabe que ninguém o atacará por ter feito o que fez a Sócrates. Há um ano ou dois certamente que não teria sido assim, nem Costa se atreveria a mais do que a um lacónico «ele está a lutar pela sua verdade», à porta da cadeia onde o visitou tardiamente devido a «compromissos políticos». Mas hoje, com o livro de cheques do orçamento de estado nas mãos e prebendas inúmeras para oferecer aos seus camaradas, ele sabe muito bem que poderá dançar em cima do cadáver do ex-primeiro-ministro socialista que ninguém lhe irá à mão por causa disso. Costa não tolera que o ensombrem, e fez, faz e fará tudo para conquistar e manter o poder. Nicolau Maquiavel gostaria de o ter conhecido e, quem sabe, ter escrito alguma coisa sobre ele.
A Vergonha Súbita do PS
E de repente, assim do nada, figuras “tristes” do PS que prestavam vassalagem a Sócrates, começam a sentir um enorme desconforto e vergonha pela corrupção no governo do Zé (como Salgado gosta de o tratar). Compreendo. Enquanto nada se sabia e tudo parecia confinado apenas ao Sócrates e seu fiel amigo “generoso”, dava para fingir que – tal como Arons de Carvalho afirmou – era aceitável um 1º ministro viver de empréstimos (ah! ah! ah!). Agora com Pinho apanhado nas escutas com Sócrates (veja aqui) já não dá para esconder. Ou seja, não é a vergonha por roubar que os move, mas sim, por terem sido apanhados.
O partido socialista é quem mais governa desde 1995 e somou inúmeros escândalos que fariam qualquer um, com moral e ética, morrer de vergonha. Mas não, não morreram de vergonha com Guterres: nas célebres “viagens Fantasma”; no negócio dos submarinos com Escom com luvas, em 1998, como denuncia e bem, Cecília Meireles (veja aqui); na polémica da Fundação para a Prevenção Rodoviária que provocou a demissão de António Vara, uma fundação que servia apenas para duplicar o trabalho do Estado para usufruir de dinheiros públicos; a queda da Ponte de Entre-os-Rios que matou 59 pessoas por negligência grosseira do Estado.
Não, não houve vergonha no caso “Cova da Beira” com o “famoso” Sócrates como protagonista, suspeito de receber 150 mil contos em luvas para influenciar resultados do concurso para o aterro sanitário. Onde foram feitos 3 arguidos posteriormente absolvidos (os amigos são para as ocasiões) apesar da prova bancária. Sócrates escapou porque o procurador titular não deixou fazer buscas à sua casa (olha só que simpático!) Curiosamente Carlos Santos Silva esteve ligado ao Processo Cova da Beira pois era sócio de Horácio Luis de Carvalho na empresa Conegil que fazia parte do Consórcio HLC que curiosamente ganhou a adjudicação (ena! é só coincidências!). Curiosamente também este processo foi arquivado com Sócrates ainda como 1º ministro. É preciso ter sorte!
Também não vi ninguém com vergonha do caso Freeport em que um vídeo (veja aqui) provava ter havido luvas pagas a Sócrates (outra vez) através de um primo (mais uma rica coincidência!), para construir em área de reserva natural quando Sócrates era Ministro do Ambiente. A Procuradoria Geral, resolveu pegar no processo que estava nas mãos do Ministério Público do Montijo e transferiu para o Departamento de Cândida Almeida no DCIAP, que em 2010 o encerra intempestivamente num despacho com 27 perguntas a Sócrates que ficaram sem resposta por… falta de tempo. Mas que sorte outra vez! O Processo terminou com 2 acusados absolvidos e Sócrates, nadinha.
Não houve vergonha com o “Face Oculta” em que Sócrates (outra vez!) tenta controlar a TVI como comprovavam as escutas com Vara. Mas o Procurador Geral Pinto Monteiro resolveu enviar as escutas para o Presidente do Supremo Tribunal, Noronha do Nascimento, que não as validou e mandou destruir! Já agora, espreite aqui as escutas e faça você mesmo o seu juízo. O PGR resolveu assim não abrir inquérito e para impedir a consulta dos factos por terceiros, procedeu ao arquivamento administrativo (é só amizade).
Não os vi envergonhados com o Processo Casa Pia onde claramente, nas escutas (veja aqui), Costa, Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues (que entretanto se “cagava para o segredo de justiça”) mexeram cordelinhos para safar o amigo socialista Paulo Pedroso que pelo meio foi retirar rapidinho um sinal de nascença, em zona íntima, que várias crianças tinham identificado (quanto não vale ter amigos na política!).
Também não os vi minimamente envergonhados ou revoltados pela monstruosa bancarrota de 2011, graças à governação da festa socialista socrática onde não faltou grandes “bebedeiras de despesismos” com TGV caríssimo, aeroportos para moscas em Beja, Parque Escolar com candeeiros de Sisa Vieira, PPP’s com Estado a assumir todos os prejuízos de privados, os créditos escandalosos pedidos à CGD, no tempo de Vara (outra vez!) por políticos e empresários do regime sem garantias, entre eles o próprio Sócrates.
Não houve vergonha, muito pelo contrário, já com Costa ao leme: com as viagens pagas pela Galp em conflito com Estado para levar políticos à bola; quando se descobriu as SMS de Centeno que provaram haver favorecimento à nova administração da CGD para não apresentar declaração de rendimentos com a ajuda de um decreto feito à pressa no escurinho da noite; com Carlos César a empregar à descarada a família toda na Função Pública, nem por ter andando a receber despesas de viagens que não fez; quando mais de uma centena de pessoas sucumbiram nos Grandes Fogos de Verão 2017 e centenas de outras ficaram feridas e desalojadas e que continuam grande parte delas à sua triste sorte; pelo material de guerra que desapareceu por um buraco duma rede em plena luz do dia, misteriosamente; por se morrer de legionella, apanhar sarna ou piolho do pombo nos hospitais públicos; por deixar SNS em falência técnica; pelo caso Raríssimas com ex-secretário da saúde apanhado numa relação íntima com a Presidente; por nos carregar escandalosamente com austeridade em período de bonança, governando de forma totalmente oposta ao tão famoso plano macroeconómico que justificou o derrube do Passos pelas esquerdas!!
A dita vergonha súbita do PS não passa de estratégia. Primeiro para limpar a imagem do partido. Depois, provocar a saída aparente e muito conveniente do “calimero” Sócrates – devidamente concertada – para entretanto preparar o caminho, sem levantar suspeitas, para ilibar os ex-ministros socráticos, decretando leis da rolha, movendo os peões do tabuleiro judicial que permitirão a saída airosa desejada deste pantanal. As nódoas continuarão lá mas branqueadas. Pensem: quem no PS quer ver Sócrates verdadeiramente zangado a dizer tudo o que sabe? Ninguém. Por isso, tudo farão para o ajudar. Indirectamente.
Uma escuta aqui, uma escuta ali

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Entre o primeiro post de Balbino Caldeira ( a 22 de fevereiro de 2005) e a primeira vez que o percurso académico de Sócrates conseguiu ser tratado nos grandes jornais passaram dois anos: a 22-3-2007, o PÚBLICO traz um artigo intitulado: Falhas no Dossiê de licenciatura de Sócrates na Universidade Independente
Esta gente consegue ver-se ao espelho?
MAIO 2018: António Arnaut considera que José Sócrates fez bem em sair do PS. Para o histórico socialista, o ex-primeiro-ministro “não tem de se queixar de ninguém”. “Sócrates só se pode queixar de si próprio” O presidente honorário do Partido Socialista considera que José Sócrates “não está em condições de fazer parte dos quadros do partido” e, por isso, tomou a decisão certa ao abandonar o PS. “Por uma questão de salvaguarda da dignidade do partido ele tinha de se afastar”, afirma António Arnaut.
NOVEMBRO DE 2014: O antigo ministro António Arnaut, fundador do Serviço Nacional de Saúde, afirmou-se hoje, em Coimbra, “muito preocupado” com a prisão de José Sócrates e referiu que o desfecho, seja qual for, abala a democracia. “A situação que vivemos, com a prisão de um antigo primeiro-ministro, sobretudo por causa da mediatização e mesmo até de um espetáculo tipo circense, que as autoridades judiciárias deram, preocupa-me muito”, afirmou António Arnaut.
