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A constitucionalidade faz de conta

26 Fevereiro, 2020

Ferro Rodrigues solicitou à Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais que esclareça “com muita urgência” a constitucionalidade do projecto do Chega que propõe o agravamento de penas para crimes de abuso sexual de crianças e uma pena acessória de castração química. Os partidos representados na Comissão de Assuntos Constitucionais não têm dúvidas: a castração química é inconstitucional.

Há menos de uma semana estes mesmos deputados votaram sem quaisquer dúvidas sobre a constitucionalidade dessa votação a favor da eutanásia.

Só interessa se for lá fora

25 Fevereiro, 2020

Harvey Weinstein foi considerado culpado por tribunal nova-iorquino de dois crimes de abuso sexual. Na mesma altura que a escandaleira MeToo progredia de efectivos casos de violação para um “tenho a impressão que me tocou no joelho há 45 anos”, uma senhora de 49 anos seria pacificamente violada por dois homens perto de uma estação de metro na Maia. Seria, porque dias mais tarde, segundo o noticiado, não conseguiu “sustentar a queixa”, tendo desistido da denúncia.

Terá sido violada? Terá imaginado coisas? Nunca saberemos: estamos mais interessados em dizer que não há denúncias falsas do que em descobrir a verdade. E se a senhora foi mesmo violada, que se lixe, não vamos é arriscar a narrativa de que todas as acusações de violação têm fundamento. Entre prevalecer a justiça ou descobrirem-se falhas na narrativa oficial, mais vale não arriscar. A mulher que se lixe.

Não limitem a liberdade

24 Fevereiro, 2020

Caiu por terra qualquer argumento sobre taxas de cesarianas e resolveu-se a questão do direito da grávida a escolher livremente o método cirúrgico para o parto: no momento em que alguém pode entrar no hospital para ser morto, não há qualquer argumento passível de restringir a decisão pessoal de uma cesariana a pedido. Com o estado a criar algoritmos, o médico do futuro poderá até ser substituído por um robô.

Marega, não é por seres preto

24 Fevereiro, 2020

Digam ao Marega que a estupidez humana não tem cor e meia dúzia de energúmenos não representam um país. Que tem razão: aquilo – a imitação de sons de macacos –  não se faz. Aquilo não é de gente civilizada e tem de ser punido. Mas  que não  foi pelo tom da sua pele. Foi por estupidez.

Perguntem se é verdade que foi trazido de clubes sem qualquer relevo para o Marítimo da Madeira, em 2014/2015, mas revelou desde cedo uma queda para indisciplina e descontrolo emocional que lhe valeram várias multas e suspensões e mesmo assim, foi acarinhado pelo clube pelo seu brilhantismo.

Perguntem se é verdade que depois de transferido para o FCP, a prestação caiu a pique e, só por isso, passou a ser a anedota azul e branca.

Perguntem se é verdade que mesmo com a popularidade em baixa foi emprestado ao Vitória perante a perplexidade de alguns que não lhe viam valor futebolístico, mas mesmo assim, de camisola vestida, foi recebido com carinho e apoiado como qualquer outro jogador, tendo recebido aplausos quando os mereceu e reprovação, como qualquer outro, quando desiludia.

Perguntem se é verdade que vestindo o equipamento do Vitória, num jogo perante o Nacional, se descontrolou e sem mais deu um estalo num adversário valendo-lhe uma expulsão e que ao sair do relvado ainda insultou com palavras e gestos adeptos do Vitória, partindo tudo o que lhe apareceu à frente no balneário.

Perguntem se é verdade que mesmo com estes comportamentos a SAD Vitoriana não deixou cair o jogador e procurou a reintegração no grupo, enquanto os adeptos também o perdoavam.

Perguntem se é verdade que se tornou um ídolo dos adeptos do Vitória por ter feito uma excelente época no clube.

Perguntem se é verdade que trocou o Vitória que o idolatrou pelo FCP,  reabilitado e com prestigio em alta, fazendo questão de agradecer ao clube vitoriano por tudo o que por ele fizeram.

Perguntem se é verdade que nos 2 anos seguintes, sempre que as 2 equipas se encontravam, era aplaudido pelo adeptos vitória até mesmo quando saiu lesionado num jogo, onde foi  aplaudido de pé.

Perguntem se é verdade que no fatídico dia da polémica racista marcado pelo famoso abandono do estádio,  no aquecimento com FCP, os adeptos (cerca de 5) estavam a mandar “bocas” aos jogadores adversários como acontece em qualquer jogo de futebol e não um em particular; que no decorrer do jogo não houve insultos apenas descontentamento dos adeptos do FCP por falhanço de golo; que chegados ao minuto 60,  assim que se deu o golo, inesperadamente foi festejar junto dos adeptos do Vitória provocando-os com gestos e palavras e que imediatamente reagiram com vaias, insultos e arremesso de cadeiras, não por ser negro; que em reacção ao sucedido,  sempre que tocava na bola  os adeptos não lhe perdoavam a traição, insultando-o.

Quando era criança, no Canadá sofri de racismo e não sou preta. Sei o que é essa humilhação,  porque com 9 anos ouvi um pavilhão gimnodesportivo inteiro apinhado de alunos em sonoras gargalhadas,    assim que o  meu nome foi anunciado nos microfones para subir ao palco para receber uma medalha de atletismo. Ainda hoje consigo ouvir toda a gente a tentar pronunciar o meu nome “estranho” com sotaque canadiano – “Gonçalves” – perdidos de riso. Em vez de sair dali a correr enfrentei a multidão, caminhando por entre eles de cabeça baixa e  a tentar suspender as lágrimas enquanto a vontade de desaparecer e a vergonha  tomavam conta de mim, num momento que deveria ter sido de euforia mas que se transformou num pesadelo. Porque ser portuguesa, ter uma língua e nome esquisitos, vestir como uma provinciana pobre, ser patinho feio  e ter ainda ar de “chinezinha”, num país que não era o meu, valeu-me episódios como esse e tantos outros e não ter  por isso quem quisesse  brincar comigo na escola. Ninguém. A não ser, claro, outros rejeitados como eu.

Chegava a casa em choro e dizia em pranto, cheia de raiva,  que não queria voltar mais à escola. Mas o meu pai ensinou-me que a melhor forma de combater a exclusão, seja pelo que for,  era ignorar e focar-me apenas em  lutar por ser a melhor na conquista dos meus objectivos e que aí chegada todos se esqueceriam da cor, da etnia, da cultura, e passariam a ver apenas a pessoa. Que o mundo era assim em todo o lado em relação às diferenças. A vida mostrou que tinha razão.

No futebol é sabido que não é preciso ser-se preto para sofrer de racismo. E que ser preto não implica necessariamente que o haja. Que o diga Cristiano Ronaldo também alvo desses ataques racistas em Espanha (veja aqui) e que soube ignorar como só um grande profissional o sabe fazer.  Exactamente como me foi ensinado pelo meu pai. Como diz aqui neste vídeo  um insuspeito africano que não se revê no comportamento de Marega: “não é racismo e  quem vai para o futebol tem de saber que isso (insultos) faz parte do ofício”.

Tão verdade que nem Eusébio, hoje a descansar no Panteão,  escapou.

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É um fogo que arde sem se ver

21 Fevereiro, 2020

Os eventos recentes e o que sobre eles escrevi poderão ter levado os três leitores assíduos a pensar que entrei num ciclo de desilusão com a política actual. A esses pretendo deixar uma pequena nota que visa o esclarecimento: é ao contrário; os eventos recentes não foram dotados de significado suficiente para me fazer sair do estado de desilusão que desde o berço acolhi de braços abertos.

Obter contentamento com a política nacional parece-me no mínimo uma imprudência, no máximo uma infantilidade. A condição indispensável à portugalidade, e a que — como os restantes nativos — não escapo, é precisamente a de nunca um português contentar-se de contente. O andar solitário entre a gente e que é ferida que dói e não se sente é, mais que o acidente demográfico e geográfico de ter sido parido nestas terras, o que nos define e une como povo.

Sim, considero uma ignomínia a aprovação dos projectos de eutanásia porque concedem ao estado o poder de determinar quem vive e quem morre, mas sei que, ao contrário dos calvinistas do norte que vivem contentando-se de contentes e infelizes de descontentamento, enquanto depender da exclusiva vontade do doente, não haverá mais que um par de portugueses a pedir o extermínio, contando estes como excepções que confirmam a regra.

O português tem uma cultura católica, pelo que sabe que a sua felicidade deriva do contentamento na miséria. Nenhuma lei muda isso. Haverá algo mais católico do que deixar de votar em eleições, correndo o risco da situação melhorar para que se alcance a infelicidade decorrente do contentamento?

Não se governam nem se deixam governar. Pudera: permitir que alguém invente soluções de prosperidade é tirar-nos a felicidade de vivermos modestamente. Ninguém o mudou antes, também não serão estes novos (ou velhos?) jacobinos que o farão. Ainda há quem não perceba porque elegemos sistematicamente o Partido Socialista para nos governar? A resposta está, como sempre esteve, em ter com quem nos mata lealdade.

VPV (1941-2020)

21 Fevereiro, 2020

Não faltarão amigos e admiradores a enaltecer as qualidades intelectuais, de escritor, políticas e académicas de Vasco Pulido Valente. Serão aqueles a quem a saudade se anuncia, homenageando, à chegada da noite, o que nas horas luminosas do dia com seu génio compartiram. Alguns, como eu, só o fizeram através da escrita: fluida, concisa e por isso afiada ao ínfimo do poro que pretendia, com extraordinária acuidade, atingir. Outros ainda, como equilibristas neste circo de rede rasteira, odiando cada sílaba por ele proferida, tratarão de usar do cinismo para enaltecer com lindas prosas de ghostwriter o que à luz do dia não seria mais que negro fumo de ressentimento. Apesar de deixar um vazio compacto por impossível de preencher aos dois primeiros, aos últimos faria melhor proveito o pudor de não aparecerem tão despidos em público. Sem o Vasco Pulido Valente por perto para a apontar, talvez ninguém repare na nudez do exibicionista.

Agora não há rostos da luta, nem luta alguma.

21 Fevereiro, 2020

PÚBLICO: morreu um dos rostos da luta por medicação inovadora contra hepatite C. José Carlos Saldanha ficou conhecido publicamente quando, em 2015, interrompeu uma sessão na comissão parlamentar de Saúde a exigir ao então ministro Paulo Macedo acesso ao tratamento inovador para a hepatite C. “Não me deixe morrer também”, foi o pedido de José.

Ninguém ousa interromper comissões parlamentares. Vivemos no melhor dos mundos possíveis e se por acaso os medicamentos faltam, temos pena.

Midsomer murders

21 Fevereiro, 2020

Seguradoras lamentam não terem sido ouvidas na procura de uma solução que “evitasse dúvidas ou incerteza sobre a matéria”. PS garante que ninguém será prejudicado e remete a discussão para a regulamentação da lei. No Luxemburgo, estas mortes passaram agora a ficar registadas como tendo tido “causa natural” para evitar conflitos com seguradoras.

Primeiro legisla-se, depois regulamenta-se, depois legisla-se outra vez… a realidade há-de ficar bem escondida debaixo de tanta legislação.

De vez? Porquê?

20 Fevereiro, 2020

À segunda foi de vez, todos os projetos que despenalizam a eutanásia foram aprovados pela maioria dos deputados no Parlamento

Era o qe faltava ser “de vez”. Quando a eutanásia foi chumbada há dois anos também se achou que fora chumbada “de vez”? Vamos lá ver se nos entendemos: não há donos do “de vez”.

Declaração de não-voto

20 Fevereiro, 2020

Era inevitável. O culto da morte haveria de levar a sua avante. E agora? Agora é assim:

Porque não sou conservador? Porque há pouquíssimo a conservar neste país e o que há também está na calha para ser destruído.

Porque não sou liberal? Porque o cânone do liberalismo é definido por quem usa o título e rejeito qualquer ligação a tribos que apresentam propostas legislativas para que se mate doentes em hospitais como expediente burocrático.

Porque não sou socialista? Porque o estado gigantesco é ineficiente, prepotente e castrador das liberdades individuais. Ver a secção anterior.

Porque não sou comunista? Porque defendem levar o socialismo à sua forma extrema de utopia. Ver a secção anterior.

O que sou? Agora não sou nada, só livre.

What goes up…

20 Fevereiro, 2020
230 deuses

Da moral

19 Fevereiro, 2020

A vida torna-se mais “leve” para quem não hesita em mutualizar as suas responsabilidades e a sua moral para uma entidade abstracta como o Estado.

Quanto mais se “externaliza” a compaixão, menor a consciência moral das pessoas e, portanto, menor a liberdade individual.

É assim com o estado social. O Estado compra a liberdade do indivíduo e garante a futura servidão deste perante o poder. A própria Igreja já se perdeu nesta nova forma de estar.

É assim, mais gritantemente com a eutanásia. Nos dilemas morais e decisões de vida ou morte não deve haver lugar ao Estado.

Ninguém disse que não havia um preço a pagar pela Liberdade…

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Está explicado: José Sócrates não faliu Portugal. Teve sim um “ato de empatia, de humanidade e de amor compassivo”

19 Fevereiro, 2020

O que está em causa

19 Fevereiro, 2020
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“Diferenças à parte, todos os projectos têm como objectivo a despenalização de quem ajuda e é nesse ponto que o debate deveria estar centrado. Quase tudo o resto é ruído.”

Artigo completo aqui.

 

Já nascemos mortos

19 Fevereiro, 2020

A eutanásia é inevitável. É preciso estarmos cientes disso. Não há forma de travar os “avanços civilizacionais” em democracias liberais num mundo globalizado. Se não for aprovada amanhã, será no próximo ano, daqui a dois anos, daqui a quatro… mas será sempre aprovada. O nosso desígnio nacional é, como já é há muito tempo, o de legislar a modernidade.

Em Portugal, o normal é aprovarem-se coisas antes que a generalidade das pessoas sintam necessidade de as compreender. Não é bem uma democracia, o que nem me parece uma falha: é o que é, uma espécie de ditadura senatorial que perpetua a luta de classes divididas entre os iluminados, que querem o bem da sociedade, e os indiferentes às causas, que vivem a sua vidinha bem longe da decrepitude.

Caso haja um referendo à eutanásia, é possível que a participação seja bastante reduzida e o resultado se divida entre o “sim” e o “não”. Até é bastante plausível que vença o “sim”. Há um motivo para isso, que é o do mundo contemporâneo exigir uma simplificação da vida a estados permanentes de bem-estar. Não dizemos que estamos felizes, dizemos que somos felizes, como se a vida se reduzisse a um estado de perpétua instagramização. Quem quer ver fotos do momento em que não aguentamos mais e mijamos nas calças em redes sociais? Quem quer ver aquela massa instantânea que atiramos para o micro-ondas quando ninguém está a ver? Quem quer ver uma boazona de biquini a verter uma pinga de vinho de pacote para um copo do Mickey Mouse enquanto desoladamente atiramos o hamburger congelado para a frigideira depois de buscarmos os miúdos à escola?

A vida resume-se a um perpétuo estado de férias paradisíacas intagramáveis. É um mundo em que ninguém defeca. Ninguém sofre, ou se sofre, é de forma extraordinariamente contrastante com o estado permanente de felicidade que impomos a nós próprios.

É apenas natural que se legalize eutanásia e que ao longo dos anos esta se venha a generalizar para toda e qualquer forma percepcionada de sofrimento. Quero eutanásia porque o Bobi morreu, o meu menino. Não aguento o sofrimento.

Sempre fomos uma sociedade que afasta o mais possível a morte das contemplações mentais de cada um. Agora, tornamo-nos numa sociedade que não contempla sofrimento como parte integrante da vida. No futuro, seremos completamente unidimensionais – gay, preto, cristão, liberal, mulher – e construídos para a obsolescência programada. Cervantes já o sabia no século XVII. O Velho do Restelo é sistematicamente visto como uma personagem do velho mundo.

A eutanásia é o menor dos nossos males. Na realidade, é só um sintoma, nem é o essencial da doença.

A ouvir

18 Fevereiro, 2020

Quando a liberdade é muita, o liberal desconfia

18 Fevereiro, 2020

José Diogo Quintela: «Se, a partir de quinta-feira, as pessoas passam a poder indicar ao Estado o momento da morte, faça-se também uma lei que as deixe indicar ao Estado a escola onde desejam pôr os filhos a estudar. (…)

Outra das áreas em que esta vontade de liberalizar podia ser aplicada é a do trabalho. Já que o Estado confia – e bem! – na capacidade de um cidadão decidir quando quer morrer, podia estender essa confiança à capacidade de um cidadão decidir como quer passar o tempo até esse dia. Por exemplo, alguém que queira trabalhar 60 horas por semana em vez das 40 horas actuais, não pode. Mesmo que seja essa a sua vontade, mesmo que o patrão não veja inconveniente nisso. (…)

Entretanto, cabe ao legislador redigir a lei com o máximo cuidado, para que não seja usada como subterfúgio para situações indignas. Por exemplo, a maioria dos projectos de lei prevê que a resposta ao pedido de eutanásia seja o mais rápida possível. Isso pode abrir a porta a abusos. Um doente que só consiga uma consulta de oftalmologia para dali a ano e meio, pode servir-se do sistema e dizer que, nesse caso, prefere a eutanásia. Marcam-na para a semana seguinte e ele, lá chegado, pede para antes lhe tratarem dos olhos, que é para focar a família uma última vez antes de se finar. Assim que lhe curam a miopia, aproveita a quinta vez que lhe perguntam se quer mesmo morrer e diz que esteve a ver melhor e afinal já não deseja, obrigado. Cautela com estes interesseiros.»

Mas por acaso eles têm ordens para intervir em alguma situação?

18 Fevereiro, 2020

Presidente da ASPP/PSP diz que polícia recebe indicações para não atuar em caso de cânticos e atitudes racistas

Ora que novidade! Tudo num estádio de futebol e seus arredores em dia d ejogo é um regime de excepção, a começar pelos locais espantosos onde se deixam os automíveis estacionados ou, caso venham d eautocarro, pelas estações de serviço escavacadas pelos adeptos.

Confesso a minha perplexidade: no meio daquela sucessão de factos intoleráveis pretende-se que as polícias seleccionem os cânticos e atitudes racistas e intervenham?

Não querem falar disto?

17 Fevereiro, 2020

Não achavam que era a mística?

17 Fevereiro, 2020

Vivi largos anos ao pé de um estádio de futebol. Protestei solitariamente contra os desmandos que eram permitidos aos adeptos. É a mística!” – diziam-me. Da mística fazia ver a rua atravessada por uma multidão que entre outras lindezas entova isto “Eu quero ver Lisboa a arder!” Era tudo mística. Politicos dos mais diversos partidos tornaram-se comentadores de futebol. Mas é a mística. Jornalistas-adeptos que vivem indignados com a corrupção normalizam as mais extraordinárias transações financeiras desde que sejam as do seu clube. Tudo por causa da mística. Agora estão todos indignados porque um jogador foi insultado? Realmente alguma coisa ajavardou na sociedade portuguesa entre aquele momento em que “o rei” era um negro, Coluna o “senhor Coluna” e esta malta que agora grunhe nos estádios.

E a culpa não foi dos jogadores nem sequer dos grunhos. A culpa é de quem na política e nas redacções achincalhou as suas funções.

A fé é que nos salva

17 Fevereiro, 2020

Na minha ignóbil candura, imaginara termos atingido o ponto mais baixo da degradação pública da semana com o lamaçal de hubris juvenil, que, ao som de um inverosímil monólogo de uma personagem-cartão de Ayn Rand, se masturbava perante a aprovação do avanço civilizacional da eutanásia. Não. Hoje temos a ignomínia do racismo, com todas as bailarinas políticas en pointe para mostrarem a imensa virtude de quem melhor diz que o racismo é feio. O presidente da república já falou e, como de costume, nada disse além de “votem em mim” (parafraseando).

Vindos do Olimpo onde esta canalha que nunca se fez homem se move, inundam as redes sociais, esses colonatos de insanos em busca de shots de dopamina através de likes, cada um com uma nova versão de 10 mandamentos, prontos para se auto-proclamarem o messias. Parece que as sociedades estão menos civilizadas e que isso se nota no futebol. A sério? Eu noto isso sem grande esforço nas fileiras dos -ismos de diferentes cores e igual ausência de dúvida metafísica para o significado da vida que se atropelam para aparecerem com a nova fórmula de virtude.

Durante algum tempo achei que os protagonistas executavam um bailado degradante. Recentemente descobri, com o atraso lusitano, que a obscenidade está na audiência que assiste e incita à pornografia, não em quem a executa.

Uma semana de tiro ao velho, ao doente e a gritaria de racismo é uma altura apropriada para recolher ao mosteiro. Não a um daqueles centros new age, a um templo daqueles a sério, como os milhares de igrejas que em tempos áureos de humildade construímos antes que os Siza viessem destruir tudo. Nas igrejas, aceitam todos: santos e pecadores, vencedores e perdedores, crentes e descrentes. Se precisarem de mim sabem onde me encontrar, mas estou convencido que não precisarão.

Nós só cá estamos para pagar impostos

17 Fevereiro, 2020

*O Governo anunciou na passada semana que até junho deste ano os presidentes das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) vão passar a ser eleitos, o que é uma forma de transformar a regionalização num facto consumado.

*Esta semana, propõem-se votar a eutanásia deputados eleitos por partidos que não tiveram a coragem e a clareza de colocar a eutanásia nos seus programas .

Direito de resposta ao “humorista” Diogo Faro

17 Fevereiro, 2020

Caro Diogo,

Apesar de ter sido aconselhada a ignorar o seu tendencioso artigo onde distorce completamente o sentido das minhas palavras, pela reposição da verdade que se impõe dada a gravidade das suas afirmações e fazendo uso do meu direito de resposta, permita que o corrija em honra do meu bom nome:

1- A sua análise não foi sobre o que escrevi no meu artigo no Observador mas sim sobre o que gostaria que eu tivesse escrito, ou seja, uma interpretação falaciosa para causar sensação nos media à custa das agendas na moda onde se promove.  Tivesse feito uma análise séria e ficava sem material para criticar;

2- A sua afirmação “A Cristina é anti-feminista, logo, essencialmente é contra a igualdade de género”, é falsa. Não me identificar com o feminismo de 3ª geração aqui investigado neste excelente documentário “Red Pill” por Cassie Jaye, uma insuspeita  activista feminista  famosa e que conclui com factos indiscutíveis que não há defesa de igualdade entre sexos, deita por terra a sua narrativa. Faça o favor de o ver até ao fim. É que da teoria bonita das definições de dicionário à prática vai uma distância galáctica. Veja aqui também neste meu artigo “Onde estão as feministas para repor a igualdade”,  com dados da PORDATA sobre o tema. Leia;

3- Não sou feminista, mas fiz mais pela libertação das mulheres que aquelas que o dizem ser:  aos 16 anos fui trabalhar como operadora de empilhador numa fábrica a carregar camiões, porque quis,  e lá permaneci até aos 20.  Enfrentei um casamento pautado por violência doméstica. Fugi desse casamento porque não me concediam o divórcio, que há 30 anos era socialmente mal visto, a mulher  rotulada de “adúltera”, e era necessário ter motivos considerados “válidos” – adultério ou a não consumação do casamento, por ex.,  caso contrário o marido podia recusar-se a assinar, pois a violência psicológica não era motivo suficiente.  Enfrentei o mundo dos homens de negócios, que olhavam para mim como uma presa sexual, onde foi difícil ganhar credibilidade pelo  meu trabalho. Enfrentei uma luta de 7 anos por homens juízes me terem retirado  a filha,  alegando “abandono do lar” e acusando-me de ser “má esposa”.  Enfrentei relações com homens preconceituosos, que diziam amar-me mas eram incapazes de assumir uma mulher divorciada e com filhos. E venci.  Cada etapa. Tudo e todos. Sozinha. Não precisei de me inscrever em  movimentos de Simone de Beauvoir para lutar pelos meus direitos como mulher e  como ser humano. Bastou a minha determinação, resiliência, teimosia, fé  e muita coragem;

4- Continuo ainda a lutar pelas mulheres ao educar o meu filho de 13 anos no sentido de cuidar da sua roupa, do seu quarto, de lavar a loiça, cozinhar e pôr a mesa; ao ter apoiado as opções da minha filha mais velha  quando, em criança,  não queria usar saias nem vestidos e só pedia tartarugas ninja, jogos Nintendo, legos e computadores.

5-  O meu pai, que era um conservador de direita, ensinou-me a conduzir empilhadores e outras máquinas industriais, a mudar pneus, usar o berbequim, pôr um carro sem bateria a trabalhar e resolver outros problemas mecânicos, a pregar pregos, a mudar lâmpadas, a plantar legumes,  criar galinhas, porcos, coelhos e vacas.  E vocês, progressistas, o que fizeram de parecido  junto das vossas filhas pela igualdade de género?

6- Administrei empresas e criei outras. Estive em 4 áreas distintas: construção civil, segurança privada, apoio ao estudo e apoio domiciliário. Na primeira, nunca vi uma única mulher a responder a uma vaga de emprego.  Na segunda, só respondeu uma mulher em 5 anos. Nas restantes foram mais mulheres que homens. Quem foi que as impediu de se candidatarem às vagas? Foi você? E o Diogo? Quantas empresas criou? Quantas mulheres empregou? Quantos salários lhes pagou? O que sabe realmente, e não a partir da “agenda feminista”, sobre essa problemática?

7- Se é defensor da igualdade de géneros, porque não fez um repto (aquele que o tornou “famoso”) aos dois sexos, homens e mulheres, para denunciarem a violência doméstica  e não apenas as mulheres? Isso é defesa da igualdade?

8- Com 23 anos já era independente, responsável, mãe (apesar de não ter desejado esse filho), estudante-trabalhadora e com currículo de trabalho e de lutas pelos meus direitos desde os 16. E você? Que currículo tinha com essa idade? Que aprendizagem da vida já possuía sobre a luta pela igualdade?

9- Sobre as restantes considerações tendenciosas do seu artigo, diga-me: é mentira que se um branco criticar o comportamento de uma minoria racial é  rotulado de xenófobo?  Se um heterossexual criticar a doutrinação  dos movimentos LGBT é rotulado de homofóbico? Que a ideologia de género imposta nas escolas, cujos manuais foram escritos por feministas (vá lá ver),  promove a ideologia LGBTQ – é só ler os  manuais (vá ler) do Ministério da Educação – e pretende a substituição da família tradicional?  Que o marxismo é uma ideologia totalitária? Que o aborto promove a irresponsabilidade? Que as drogas ditas leves legalizadas promovem o seu consumo? Que se um nacionalista disser que os negros escravizaram tanto quanto os brancos é acusado de racismo?  Que ser de direita e defender  o controlo da entrada  de migrantes sob estatuto de refugiados é imediatamente rotulado de extremista? Não, não é. E, conscientemente, você sabe disso.

5- O meu artigo é apenas uma chamada de atenção à intolerância relativamente ao pensamento que não se enquadra no politicamente correcto, que é contra as narrativas vigentes da agenda progressista – enviesadas e cheias de inverdades – e  que é atacado assim que se manifesta numa simples opinião. O artigo foi tão bem sucedido que basta ler os comentários ao mesmo para ficar demonstrada cada linha escrita – anónimos  e figuras públicas cospem ódio, insultam, ou simplesmente ridicularizam,  por verem contrariadas AS AGENDAS PROGRESSISTAS. Você foi um deles.

Por fim, agradeço o conselho que deu à minha filha. Porém, não é ela que tem de me dar um abraço e confortar-me. Sou eu que a tenho de a  tranquilizar e dizer firmemente: “Não! a tua mãe não é homofóbica, xenófoba, racista, ditadora, extremista, e o diabo a quatro que este Diogo, Madalena Freire, “Jovem Conservador de Direita” e  tantos outros como eles pintam por aí, para promover uma falsa liberdade, igualdade e humanismo”. A tua mãe é exactamente aquilo que conheceste: justa, defensora dos valores que recebeu do teu magnífico avô, humanitária, solidária, inclusiva, amiga, respeitadora e tolerante. E que ao contrário dos “diogos” desta vida não impede os outros de serem o que são. Dizer-lhe que a culpa não é dela por se sentir confusa. É de quem usa o mediatismo à custa das causas na moda para confundir, distorcer e manipular tudo o que não lhes convém. Porque falar a verdade estraga a agenda. 

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Ó Catarina, depois onde vão ser tratados os dirigentes do BE?

16 Fevereiro, 2020

Catarina Martins avisa: “Não pode ser entregue nenhum hospital público à gestão privada”

Os portugueses “raizosparta” e os aristozeros

16 Fevereiro, 2020

Os portugueses “raizosparta” acreditavam que os deputados eram eleitos para que a sua vida fosse mais digna não para que os deputados, enfastiados da discussão em torno das condições de vida, se empenhassem com fúria e zelo na definição das condições da morte. Digna, dizem eles. Os portugueses “raizosparta” nunca fazem o suficiente, nunca pagam impostos suficientes e nunca se esforçam o suficiente de modo a cumprirem o admirável mundo novo que os aristozeros lá das suas “ZERES” sonham impor. Uma ZER não é apenas uma Zona de Emissões Reduzidas, é sim a cidadela dos aristozeros: o local onde não há espaço para as questões irritantes dos portugueses “raizosparta” como os assaltos ou a degradação cívica, intelectual e moral que se vive nas escolas públicas. Apenas gente bonita achando que alimenta o mundo e o salva do impacto ambiental da agricultura industrializada porque cultiva ciboulettes em vasos ditos orgânicos na varanda.

É isto

15 Fevereiro, 2020

João Gonçalves: «Primeiro-ministro anunciou no Twitter que irá sugerir ao Presidente da República a condecoração de Arménio Carlos “pelos serviços meritórios praticados” nas funções de secretário-geral da CGTP.” Não há limites para o cinismo frio deste homem. Ignora o camarada do PS Carlos Silva, da UGT, e quer condecorar o sindicalista do PC porque nunca se sabe. Um país refém disto é um país de merda.»

Os privados, o lucro e a eutanásia

15 Fevereiro, 2020

Vi por aí indignação pela circunstância de grupos privados de saúde anunciarem que nas suas redes de cuidados não matarão doentes, ou seja, não practicarão a eutanásia.

Considerar esta decisão ofensiva dos direitos e liberdades individuais é absurda, desde logo porque supostamente quem é favorável à eutanásia não pretende que a práctica seja generalizada, muito menos obrigatória, mas apenas uma opção disponível. A fúria contra os privados é também evidentemente tola porque uma empresa não deve ser obrigada a prestar serviços que não quer oferecer aos seus clientes, além de que os proponentes da despenalização da eutanásia querem que seja o SNS a “tomar conta da ocorrência”.

Mas, numa coisa estes indignados anti-privados têm razão: as considerações económicas (ou “economicistas”, como lhe costumam chamar) não deveriam distorcer ou impedir as boas decisões.

E aqui a questão que se coloca é que cuidar dos enfermos e prestar cuidados paliativos sai muito caro e o SNS não tem dinheiro.
Ou melhor: sairia caro porque hoje apenas uma ínfima percentagem dos cuidados paliativos necessários é assegurada pelo SNS…

Do ponto de vista do governo e do estado, para gestão das finanças públicas, é muito mais simples e fácil de executar cortes ou cativações a eito. Essa é e será a cultura dominante na administração pública pois seria muito mais complexo alterar as prioridades e opções de investimento, já para não falar da sustentação política que tais medidas exigiriam.

Um doente que esteja bem informado sobre cuidados e acções disponíveis para prolongamento com qualidade da sua vida torna-se um centro de custo.
Um doente potencialmente caríssimo e uma despesa extra potencial que importa evitar.
Por muito eticamente conscientes e compassivos que sejam os profissionais do sector, os incentivos são o que são e, mais ou menos inconscientemente, as pessoas respondem a eles.
É fácil de perceber as consequências que daqui poderiam advir…

Por isso importa a todo o custo que no mercado, privado, não estejam disponíveis nem visíveis alternativas à opção definitiva pela eutanásia.

Certamente a Dona Moreira e a Dona Mortágua condenarão o objectivo de obtenção de lucro pelos operadores privados de saúde ao apresentarem serviços adicionais para prolongamento de vida aos doentes. Mas é precisamente esta procura de lucro que moraliza o mercado ao tornar mais informadas as pessoas e, sobretudo, ao dar mais graus de liberdade e escolha aos doentes para tomarem as suas próprias decisões.

Já sabemos que um rico tem sempre acesso a serviços diferenciados.
Mas no caso de um pobre pedir para o matarem se calhar será mais conveniente este não chegar sequer a saber que se tivesse dinheiro poderia viver mais tempo…

Deve ser a isto que se chama populismo, não é?

15 Fevereiro, 2020

Via Porta da Loja descobri isto. Os indignados do populismo não têm nada a dizer? Imaginem quantos cordões humanos já teriam sido feitos caso o alvo da peça fosse um alguém apreciado pelo sistema “mediático-diz que sou artista”.

Não é que fosse difícil de prever

15 Fevereiro, 2020

Não é de hoje a minha antipatia pelo partido Iniciativa Liberal. Não que interesse a alguém, mas considero que desde a sua formação há uma componente mística do liberalismo assente num neo-paganismo bizarro, uma conexão hipster entre princípios doutrinários arranhados ao liberalismo clássico e a fusão do capitalismo com a elevação de uma religião laica atraente a bloquistas que desgostam dos batuques de djembés.

Após uma fase de notória evidência para que a motivação do partido fosse a de pegar nos mesmos temas identitários do Bloco de Esquerda pelo prisma de sapatos de vela, e sob risco de extinção precoce, o partido teve uma liderança que permitiu apaziguar o ímpeto progressista com propostas mais ou menos bem conseguidas de modernização do país para fora das amarras ineficientes da esfera estatal. Todavia, apesar de um resultado eleitoral surpreendente, a insustentável manutenção dos ímpetos fervorosos pela renovação social com trela curta – se não estás satisfeito com o teu país, muda o seu povo, já diria um Mao – revelou-se com a demissão do líder e o consequente regresso do partido às suas origens.

Pode até crescer eleitoralmente: o Bloco também cresceu. Contudo, será sempre crescer pelo aburguesamento dos tipos de djembé, não pelo eleitorado cuja preocupação é se terá ou não reforma. Ou, se tudo correr bem, extinguir-se-á sem alarido na redoma das certezas que o mundo moderno cria nas ilhas privadas da psique de cada um. Depois dos cartazes criativos não há mais nada a vender a eleitores que não hubris. Também estou certo que muitos amigos que ainda conseguem fazer o difícil exercício de se reverem no partido acabarão por pacificamente e sem espalhafato dedicarem-se a coisas mais nobres como a de deixarem de atribuir novas funções ao estado. Até porque para um Bloco de Esquerda que quer pagar menos impostos já temos, para o que daí é exequível, o Bloco de Esquerda.

Do mito ao #metoo

14 Fevereiro, 2020

O Carlos M. Fernandes disseca o “feminismo” na Coluna semanal da Oficina da Liberdade no Observador e demonstra o ressentimento de que vive e o totalitarismo para onde nos leva.

Um excerto:

Num sistema fundado na igualdade, os crimes não têm sexo, cada um é responsável pelas suas decisões e a presunção de inocência é um princípio inviolável. Na distopia feminista, a culpa, se não pode ser atribuída ao homem ou ao patriarcado, deve ser pelo menos partilhada. E, na carência de culpados, a árvore do progressismo é regada de quando em quando com o sangue dos inocentes. O feminismo contemporâneo é inimigo de qualquer sociedade que se quer aberta, livre e tolerante.

Recomendo a leitura completa do texto.

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O mundo fora da bolha da gente bonita que faz programas fofinhos e leis inovadoras

14 Fevereiro, 2020

*A redução administrativa de 3% nos preços pagos pelo Estado ao sector convencionado dos meios complementares de diagnóstico e de terapêutica está a condicionar o acesso a exames fundamentais. O exemplo das ecografias obstétricas, para as quais faltam médicos dispostos a trabalhar pelos valores que o Serviço Nacional de Saúde paga, é um dos casos mais graves.

*A imoralidade da renda acessível em Lisboa. Fernando Medina prometeu 6000 casas de renda acessível, mas não produziu uma única: está a tirá-las da habitação social.

*Mais de 30 cabras e ovelhas mortas por cães vadios em Viana do Castelo

Empatia my ass

13 Fevereiro, 2020

O argumento da empatia é a coisa mais manhosa que se pode usar para defender a eutanásia. Em primeiro lugar, porque empatia têm as pessoas da esquerda, aquelas que nos amam a todos e querem tanto o nosso melhor que, por eles, nem haveria ensino ou medicina privada; adoram-nos de tal forma que sabem exactamente o que queremos, o que devemos querer e a forma como o conseguir. Em segundo lugar, porque a empatia existe num plano de conexão entre pessoas individuais. Eu sinto empatia pelo Zé, que sente empatia pelo Joaquim, que por sua vez acha que eu sou um idiota. Ninguém sente empatia por grupos, como em “este grupo de pessoas, coitadinhas, vítimas de um terramoto, um grupo tão distinto que incluía mães, crianças e três violadores, merecem toda a minha empatia”. Ora, o que a eutanásia de estado é é precisamente a falta de empatia: o velho quer morrer? – Manda-se para o médico, que tem a empatia obtida pelos cinco minutos necessários para o matar, tudo isso depois de passar pelo processo de avaliação do estado – esse ente tão empático – que, com a máxima empatia, ainda consegue avaliar a veracidade da vontade expressa (são velhos amigos, o velho e o estado).

Usem os argumentos certos. Digam antes assim: não vejo qualquer problema em envolver o estado na tragédia pessoal de uma pessoa se for para autorizar um funcionário para que este cometa homicídio. Porque o estado dar autorização para homicídios tem tudo para correr bem: afinal, o estado é o supra-sumo da empatia.

Conversar sobre um mundo mais justo e fraterno.

13 Fevereiro, 2020

Lula da Silva descreve o encontro de hoje como um “encontro com o Papa Francisco para conversar sobre um mundo mais justo e fraterno”.

O problema mantém-se.

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Entre iguais

13 Fevereiro, 2020

Um “debate” entre todos proponentes do sim.

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À atenção dos eco-betos

13 Fevereiro, 2020

Carlos Neves: «Os nossos avós faziam “policultura” porque tinham famílias numerosas a trabalhar de graça e “moços de lavoura” muito baratos. Muitos eram os vossos pais e avós, que emigraram para a cidade ou para o estrangeiro à procura de uma vida melhor. (…) Nós, os que ficamos na terra a produzir a carne, o leite, os ovos, a fruta, as hortícolas ou o algodão da vossa roupa, fomos os que aceitamos usar máquinas, adubos, pesticidas e todas as coisas que fazem parte da agricultura moderna, tão moderna como o vosso carro, o vosso telemóvel, as vossas máquinas de lavar roupa, louça e os detergentes que colocam lá dentro»

Não, não é uma questão de exagero. É sim uma questão de poder

12 Fevereiro, 2020

Se existisse uma maioria no parlamento que resolvesse mudar a legislação sobre o aborto, sem ter inscrito tal nos seus programas, isso seria aceite com fatalismo? Como se se tratasse de uma questão de exagero de parte a parte?

Não, o debate neste momento em torno da eutanásia não é uma questão de exageros como escreve o JCD mas sim de uma parte da cidade viver uma cidadania de segunda: as suas opiniões nunca são as que deveriam ser, a sua contestação nunca muda nada e para cúmulo os seus líderes dão-se bem com isso!

Pode ser-se a favor ou contra a eutanásia mas em caso algum se pode ser a favor da transformação do processo legislativo num instrumento do sentido único da História.

Repito a pergunta porque assim fica tudo mais óbvio se existisse uma maioria no parlamento que resolvesse mudar a legislação sobre o aborto, sem ter inscrito tal nos seus programas, isso seria aceite com fatalismo? Como se se tratase de uma questão de exagero de parte a parte?

Exageros

12 Fevereiro, 2020
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As pessoas que defendem a eutanásia não são pérfidas. Fazem-no por achar que faz sentido ajudar quem pede ajuda para acabar com um sofrimento que consideram intolerável e não porque querem “matar os velhinhos”.

As pessoas que são contra a eutanásia não são impiedosas. Não são contra porque desejam o sofrimento alheio, mas porque acreditam que manter a vida é um valor acima de qualquer consideração alternativa.

Respeito todos, incluindo os que exageram na fundamentação das suas certezas e pensam que os “adversários” são pérfidos ou impiedosos.

Eutanásia: é mesmo isto

12 Fevereiro, 2020

«O debate sobre a introdução legal da possibilidade da provocação da morte antecipada não corresponde à discussão sobre hipotéticas opções ou considerações individuais de cada um perante as circunstâncias da sua própria morte. É, sim, uma discussão de opções políticas de reforçada complexidade e com profundas implicações sociais, comportamentais e éticas.

A legalização da eutanásia não pode ser apresentada como matéria de opção ou reserva individual. Inscrever na Lei o direito a matar ou a matar-se não é um sinal de progresso mas um passo no sentido do retrocesso civilizacional, com profundas implicações sociais, comportamentais e éticas que questionam elementos centrais de uma sociedade que se guie por valores humanistas e solidários.

A ideia de que a dignidade da vida se assegura com a consagração legal do direito à morte antecipada, merece rejeição (…)

A oposição (…) à eutanásia tem o seu alicerce na preservação da vida, na convocação dos avanços técnicos e científicos (incluindo na medicina) para assegurar o aumento da esperança de vida e não para a encurtar, na dignificação da vida em vida. É esta consideração do valor intrínseco da vida que deve prevalecer e não a da valoração da vida humana em função da sua utilidade, de interesses económicos ou de discutíveis padrões de dignidade social.

2. A invocação de casos extremos, para justificar a inscrição na Lei do direito à morte antecipada apresentando-o como um acto de dignidade, não é forma adequada para a reflexão que se impõe. Pode expressar em alguns casos juízos motivados por vivência própria, concepções individuais que se devem respeitar mas é também, para uma parte dos seus promotores, uma inscrição do tema em busca de protagonismos e de agendas políticas promocionais.

A ciência já hoje dispõe de recursos que, se utilizados e acessíveis, permitem diminuir ou eliminar o sofrimento físico e psicológico. Em matérias que têm a ver com o destino da sua vida, cada cidadão dispõe já hoje de instrumentos jurídicos (de que o “testamento vital” é exemplo, sem prejuízo dos seus limites) e de soberania na sua decisão individual quanto à abstinência médica (ninguém pode ser forçado a submeter-se a determinados tratamentos contra a sua vontade). A prática médica garante o não prolongamento artificial da vida, respeitando a morte como processo natural recusando o seu protelamento através da obstinação terapêutica. Há uma diferença substancial entre manter artificialmente a vida ou antecipar deliberadamente a morte, entre diminuir ou eliminar o sofrimento na doença ou precipitar o fim da vida.

3. Num quadro em que o valor da vida humana surge relativizado com frequência em função de critérios de utilidade social, de interesses económicos, de responsabilidades e encargos familiares ou de gastos públicos, a legalização da provocação da morte antecipada acrescentaria uma nova dimensão de problemas.

Desde logo, contribuiria para a consolidação das opções políticas e sociais que conduzem a essa desvalorização da vida humana e introduziria um relevante problema social resultante da pressão do encaminhamento para a morte antecipada de todos aqueles a quem a sociedade recusa a resposta e o apoio à sua situação de especial fragilidade ou necessidade. Além disso a legalização dessa possibilidade limitaria ainda mais as condições para o Estado promover, no domínio da saúde mental, a luta contra o suicídio.

4. O princípio da igualdade implica que a todos seja reconhecida a mesma dignidade social, não sendo legítima a interpretação de que uma pessoa “com lesão definitiva ou doença incurável” ou “em sofrimento extremo” seja afectada por tal circunstância na dignidade da sua vida. E ainda mais que ela seja invocada para consagrar em Lei o direito à morte, executada com base numa Lei da República.

A vida não é digna apenas quando (e enquanto) pode ser vivida no uso pleno das capacidades e faculdades físicas e mentais e a sociedade deve assegurar condições para uma vida digna em todas as fases do percurso humano, desde as menos autónomas (seja a infância ou a velhice) às de maior autonomia; na presença de condições saudáveis ou de doença; no quadro da integridade plena de faculdades físicas, motoras ou intelectuais ou da deficiência mais ou menos profunda, congénita ou sobreveniente.

O que se impõe é que o avanço e progresso civilizacionais e o aumento da esperança de vida decorrente da evolução científica sejam convocados para garantir uma vida com condições materiais dignas em todas as suas fases.

5. (…) afirma a sua oposição a legislação que institucionalize a provocação da morte antecipada seja qual a forma que assuma – a pedido sob a forma de suicídio assistido ou de eutanásia –, bem como a eventuais propostas de referendo sobre a matéria. (tirado daqui)

Ditadura iluminista

12 Fevereiro, 2020

«A pouco mais de uma semana de debater e votar, na Assembleia da República, as cinco propostas de lei de descriminalizar a antecipação da morte em Portugal, já apresentadas pelo PS, Bloco de Esquerda, PAN, PEV e IL, o tema esteve em debate e votação na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.
O parecer, elaborado pela relatora Sandra Pereira, do PSD, foi aprovado, por unanimidade, pelos deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, depois de ficar acordada a eliminação da audiência prévia do movimento cívico Stop Eutanásia (ponto 7 do parecer).
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20 de Fevereiro, 12h 30, São Bento

12 Fevereiro, 2020

Para este dia e para esta hora está convocada uma manifestação em São Bento contra a eutanásia. A este motivo eu junto outros: há que rejeitar a prática jacobina do parlamento. Repudiar os dois pesos e as duas medidas na hora de dar voz aos cidadãos. Não tolerar o simulacro de debate que ali vai ter lugar. O parlamento representa o povo não se representa a si mesmo.