a diferença
A ortodoxia do Partido Comunista Português fez com continuasse a ser, ainda hoje, um partido importante e influente na sociedade a que pertence. Esse posicionamento foi mantido com sacrifícios, incompreensões, deserções, ameaças diversas, mas resistiu e permitiu que sobrevivesse à queda do muro de Berlim, ao contrário dos partidos comunistas europeus, que desapareceram ou se tornaram completamente irrelevantes. Isto só foi possível porque o Dr. Álvaro Cunhal soube sempre que um partido comunista, em terras de capitalismo, não sobreviveria à influência preponderante dos gramscianos saídos das universidades e das famílias burguesas, meninos com ideias que não correspondem a qualquer experiência ou sentimento de vida, que as trocariam pelo primeiro cheque gordo que lhes pusessem à frente do nariz. Por isso, Álvaro Cunhal, ele mesmo um intelectual que sabia do que a casa gastava, nunca lhes deu demasiada importância e preferiu sempre, para as posições de destaque nos órgãos do partido, pessoas com uma história de vida forjada no mundo do trabalho operário, tradição que ainda hoje se mantém. Aos «intelectuais», trazia-os sobre olho e de rédea curta, e sempre que algum levantava a voz, durava o tempo de um fósforo. O Dr. Álvaro Cunhal e a elite dirigente do Partido Português tinham, e têm, inúmeros defeitos, mas de falta de coerência não podem ser acusados. É por isso que nunca lá encontraremos um caso como o de vereador Robles. No PCP não há lugar para meninos mimados, nem para burgueses emplumados com ideias que não passam de retórica de ostentação. Esse é, por definição, o terreno do Bloco de Esquerda.
Não se metam com o PS
um dia, também quero fazer um negócio como este, ou o irresistível charme do capitalismo

até lá…

Ora, finalmente, alguém a falar como deve ser: «Alexis Tsipras é um traidor do povo grego! E por isso será processado». Enquanto, por cá, as meninas do Bloco engolem as «cativações» do Centeno, como se fossem puré Maizena, e humilham os professores, lembrando-lhes que o orçamento não é só deles, na Grécia, a menina Zoe Konstantopoulou, moça cujo nome é, por si só, suficiente causa de divórcio, não está com meias medidas: «TRAIDOR!», em cima do ex-venerado bad boy das esquerdas europeias. Mas os gregos são os gregos e os portugueses são os portugueses, não há muito que fazer. Porque, no dia em que a presidenciável Marisa Matias, cujo perfil aquilino não é muito diferente do da Konstantopoulou, chamar «traidor» ao Costa e o ameaçar com as penas da temível justiça portuguesa, ficarei convencido de que há um futuro para as esquerdas portuguesas. Até lá, não passam todas – as esquerdas indígenas e as meninas do Bloco – de elementares colaboracionistas do Sr. Junker, confortavelmente sentadas à mesa do orçamento de estado.
“Quanto mais lhes bates, menos voto em ti”

Não sei ao certo qual é o tamanho da ambição política de Nuno Melo. Contudo, ao escutar os seus críticos na semana passada, estou certo de que poderá chegar, caso tenha vontade, aos mais altos cargos do país. Poucos minutos depois das primeiras notícias sobre o lançamento da campanha do CDS às eleições europeias, já a esquerda aguerrida tratava o eurodeputado centrista como um perigoso nacionalista, racista e xenófobo. É certo que o embaixador Francisco Seixas da Costa, mais moderado, se limitou a caracterizá-lo como populista e anti-imigrantes; e que o deputado João Galamba, mais espirituoso, apenas lhe chamou, com sotaque italiano, Nuno Melvini. No entanto, salvo honrosas excepções, o tom andou à volta do “Viktor Orbán minhoto”, o que constitui, além de uma boa base de trabalho para uma eventual geminação entre o goulash húngaro e as papas de sarrabulho, um excelente prognóstico eleitoral para Nuno Melo.
A primeira coisa que salta à vista nestes exageros retóricos é a típica modéstia portuguesa. “Trump de Famalicão”, por exemplo, é uma expressão que menoriza o político luso e a terra que Camilo Castelo Branco escolheu para enfiar uma bala na cabeça. Uma esquerda com auto-estima patriótica diria que Donald Trump é o Nuno Melo da Quinta Avenida; como diz o inverso, colocando o presidente dos EUA no distrito de Braga e não o vice-presidente do CDS em Nova Iorque, continuamos a alimentar hipérboles com a síndrome da pequenez, o que representa a desajustada intromissão do oxímoro num contexto em que uma figura de estilo seria suficiente.
Mas o que disse, afinal, Nuno Melo para ser presenteado com tais considerações? Apenas isto: “o espaço europeu pode ser um destino de acolhimento para outros povos, mas estes devem respeitar as nossas leis, valores e costumes, de forma a não nos sentirmos sequestrados na nossa casa”. Ou seja, parece que Nuno Melo não defende a atribuição automática da cidadania europeia a todos os seres humanos que habitam a superfície terrestre. É, de facto, um horror. Qualquer dia, se lhe derem poder, ainda o vamos ver a sugerir a criação de passaportes e de um Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
E esse dia talvez esteja próximo. Agora que aqueles que se dedicaram até há bem pouco tempo a comparar Angela Merkel com Adolf Hitler se viraram para o candidato do CDS, este pode sentir-se abençoado pelo quase infalível toque de Midas eleitoral. Para já, que ainda vamos no aquecimento do absurdo, nada está garantido, mas assim que Salazar for chamado ao barulho, Nuno Melo pode tratar de encomendar os foguetes.
apagou, por quê?
O deputado Carlos Abreu Amorim terá postado, na sua página do Facebook, um comentário comparando a Grécia a Portugal na tragédia dos incêndios, bem como noutras tragédias também relevantes, como as respectivas bancarrotas de há alguns anos. A coisa gerou uma onda de indignação, com deputados da bancada horizontal do «só nós é que sentimos a dor dos pobres e desvalidos da sorte», como Isabel Moreira e João Galamba, a acusarem-no de oportunismo e, nomeadamente a primeira, a dizer que não se pode «descer mais baixo».
Não querendo saber a que baixos níveis se referia a deputada socialista, parece-me que o deputado do PSD tem evidente razão no que disse, e só é de lamentar que tenha apagado o post, no que também ele cedeu à brigada do politicamente correto. É evidente que estes factos não coincidem, por acaso, nos dois países, e que há uma relação directa entre um estado que repetidas vezes vai à falência e que não consegue prevenir e resistir, com eficácia, a este tipo de tragédias. Chama-se, a isso, falta de recursos, sejam recursos humanos, sejam recursos materiais. Falta de vigilância florestal, falta de aviões, falta de equipamentos decentes para os bombeiros, falta de meios profissionais de comunicação, etc..
Se Portugal ou a Grécia tivessem tido governos sensatos que não os tivessem desgraçado economicamente, disporiam, certamente, de mais e melhores recursos para apostar na segurança dos seus cidadãos, missão que é a primeira de todas a justificar a sua existência. Assim, é o que por cá e por lá se vê, ao contrário do que acontece na maioria dos países desenvolvidos.
Livro de estilo para notícias sobre atentados e ataques que podem ter como autores indivíduos não brancos e não cristãos
- O momento do atentado propriamente dito: Toronto shooting: Gunman kills woman and child in Greektown. The motive for the shooting is unknown.
- Segue-se a condenação e a solidariedade com as vítimas. Continua sem se saber nada sobre a identidade do autor. Pede-se que não se especule sobre as motivações pq as autoridades estão a investigar. Culpa-se a falta de regulação no acesso às armas de fogo e se o atentado for no Canadá a proximidade com os EUA. Na Europa não se fala de proximidade alguma. Se o atentado for com faca, automóvel ou ácido a questão da arma não conduz aos EUA. Police said it was too early to provide a motive for the shooting, but local councillor Paula Fletcher said: “It’s not gang related. It looks like someone who is very disturbed.”
- Algumas horas depois sabe-se o nome do autor do atentado. Mas já não vale a pena fazer notícia. Como é óbvio trata-se de um desequilibrado. Canadian officials have identified the man responsible for a mass shooting in Toronto as Faisal Hussain. Faisal Hussain’s family say he has had mental health problems for much of his life
Extra! Extra! Avião aterrou em aeroporto!
Recentemente, foi notícia que um avião aterrou num aeroporto. Sim, pode ser “o maior avião do mundo” e também pode ser o aeroporto mais ridículo do mundo, mas, para todos os efeitos, a notícia é de que um avião aterrou num aeroporto.
Estou bastante entusiasmado com as próximas notícias de “carro é conduzido numa auto-estrada”, “barco atraca num cais” e “taxista transportou passageiros sem parar para bater num condutor da Uber”.
Felizmente, este país existe, porque, se não existisse, ninguém teria imaginação para o inventar.
E assim o ataque no Canadá resulta do problema com as armas de fogo (e tb da proximidade com os EUA). Os acontecimentos desta noite na Quinta do Mocho resultam de um problema com as facas (e com os grupos rivais sendo que nunca percebemos de que grupos e rivalidades se trata donde presumimos que devem ser cozinheiros a lutar com talhantes). Já este ataque a uma criança com ácido em Inglaterra deve resultar da facilidade no acesso às substâncias corrosivas pro parte das empregadas de limpeza (ainda nos vão proibir a lixívia )
Sem concessões mas com ciática?
Vamos separar as crianças das famílias?
Tendo em conta tudo o que está internacionalmente convencionado mais o fervilhante activismo:
a) as crianças devem seguir sós para a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR) do Conselho Português para os Refugiados (CRP)
b) as crianças devem seguir com as mães para a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR) do Conselho Português para os Refugiados (CRP)
c) as crianças devem seguir com a mãe e o pai para a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR) do Conselho Português para os Refugiados (CRP)
d) as crianças devem seguir com o pai para a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR) do Conselho Português para os Refugiados (CRP)
e) as crianças devem seguir com quem as trouxe para a a Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR) do Conselho Português para os Refugiados
VERSÃO ANOTADA PELOS LEITORES
É que nem quaaludes são tão bons nisto
A Geringonça é a invenção mais útil desde o sabão em barra. Desde que a inovadora monstruosidade exibiu a sua carantonha, o país evoluiu da ignóbil situação de velhos que morrem sozinhos e de crianças esfomeadas em escolas para a possível morte colectiva, comunal, de quem quiser passear pelo “interior profundo”, a saber – e desta vez –, algures numa auto-estrada na zona de Palmela. Desta vez, contudo, ninguém morreu, pelo menos que se saiba, a julgar pelas capas de jornal, que, em vez de maçadores destaques sobre inversão de marcha em auto-estrada a distâncias metropolitanas de Lisboa, optam por coisas mais importantes como deputados não irem de férias para Portalegre. Melhor que a invenção da Geringonça só mesmo a da metaqualona.

Será a isto que se chama direito ao esquecimento?
António Filipe, Janeiro de 2014 a propósito da privatização dos estaleiros de Viana do Castelo: “Nós entendemos que a indústria naval é necessária ao nosso País e rejeitamos totalmente a decisão política do Governo de liquidar a construção naval em Portugal. Garantias de que os Estaleiros Navais de Viana continuarão a fazer construção naval não há nenhumas. Zero garantias de que a empresa poderá continuar a fazer aquilo que sempre soube fazer.“
Nos afamados serviços privados de saúde frequentados pelo deputado comunista António Filipe existem certamente consultas para a perda de memória. Ma se não for esse o caso o senhor deputado terá de se desenvencilhar no centro de saúde da sua residência e entre a consulta de urgência mais a espera por uma desistência e a marcação no médico de família para daqui a dois meses deve conseguir que alguém o trate de tão grave problema. Até lá pode ir tomando
E que tal um serviço nacional de alojamento local?
O Porto bem vivo!
Ligo o rádio e ouço sempre a mesma coisa. Algumas canções boas, destruídas pelo limitador dinâmico da rádio, outras destruídas à partida pela hiper-compressão durante a produção do master, mas, essencialmente, a rádio transmite um monte de trampa que serve apenas o propósito de torturar cérebros que se querem acordados durante a condução. Posso sempre mudar para a TSF, se quiser ouvir trampa de outro género (os especialistas diriam tratar-se de spoken word, mas, apesar de montes de spoken, raramente ouço alguma word com interesse). Mantenho laboriosas playlists nos dispositivos móveis, incluindo alguns álbuns essenciais de ponta a ponta, e é assim que normalmente vivo, sem interferência da rádio, tanto calhando em sorte um “These Arms of Mine” de Otis Redding como um “Signed, Sealed, Delivered (I’m Yours)” de Stevie Wonder; tanto um “Forgiving You Was Easy” de Willie Nelson como um “Substitute” dos The Who; tanto um “Truck Stop Girl” dos Little Feat como um “Glad” dos Traffic; tanto um “This Is Me Leaving You” de Mary Chapin Carpenter (com o extremo bom gosto da guitarra do saudoso John Jennings) como um “Fill Me Up” de Shawn Colvin; tanto “I Wanna Be Your Lover” de Prince como um “I Love L.A.” de Randy Newman; tanto um “Hang Down Your Head” de Tom Waits como um “Funerais” de António Pinho Vargas; tanto um “Os Bravos” de José Afonso como um “A Candle’s Fire” dos Beirut. Não fosse a música digital e o mix-‘n’-match de mixtapes digitais, estaria completamente estúpido pela rádio. Dito isto, é raro encontrar, desde o início do século, um álbum que me apeteça ouvir de ponta-a-ponta. Este ano ainda não tinha encontrado nenhum, até que ouvi algo que me chamou a atenção, saindo do quarto do meu filho de onze anos, por uma voz que me pareceu reconhecer: “somos todos condutores de carroceis / não lemos mapas, andamos aos papeis / então deitamos fora a sorte deste norte fazemo-nos reis / já que a lua se pode comportar assim”. Como se isto não bastasse, toca a descrever-me (sim, é sobre mim, como todas as boas canções), logo de seguida, assim: “sou dos do bem mas não sei bem o que é do mal / sou um céptico optimista, hipócrita ocasional / e se observo mudo o resultado experimental / então que a lua sorri só porque sim”.
Apple Music a ajudar, encontro a canção “Efeito do Observador” d’Os Azeitonas. É isto. Ouço o resto do álbum, por afinidade prévia com a banda, não tendo dado pelo lançamento deste álbum, “Banda Sonora”. Ouço, esperando encontrar uma ou outra canção que me leve a passar à frente: nada. Cinquenta e sete minutos de pura classe. Mete outra vez. Mais uma. Encontrei o álbum de 2018 que me vai afastar mais uns tempos da rádio. Curioso que, no ano passado, um dos albums que causou o mesmo efeito tenha sido o “Giesta” do ex-Azeitonas Miguel Araújo. Apesar de tanta treta sobre a defesa de quotas para música portuguesa na rádio, meto as mão no fogo que nada deste “Banda Sonora” passará na rádio: é bom demais para isso. Atrevo-me até a dizer que todo o disco emana um odor a Porto que a corte não compreende: que bom, o Porto está vivo e bem vivo. Parabéns, rapaziada (“rapaziada” inclui rapariga, é da gramática, ó chanfradas lisboetas).
Mais um esfaqueamento. Desta vez na Alemanha. Mais uma vez tivemso as notícias com a edição do costume:
“A polícia alemã confirma um total de oito pessoas feridas, uma com gravidade, no ataque perpetrado por um homem, com arma branca, no interior de um autocarro na cidade alemã de Lübeck, norte do país. A polícia alemã confirmou, entretanto, que não há sinais de antecedentes terroristas no ataque.” TOMAMOS NOTA COM JÚBILO :” não há sinais de antecedentes terroristas no ataque“ É UMA VERDADEIRA FELICIDADE SABER QUE NÃO TEVE MOTIVAÇÃO TERORISTA O FACTO DE, NUM AUTOCARRO, UMA CRIATURA LARGAR UMA MOCHILA DONDE SAI FUMO, EM SEGUIDA ESFAQUEAR UM HOMEM NO PEITO E VÁRIAS OUTRAS PESSOAS EM QUE SE INCLUI O MOTORISTA. JÁ AGORA O QUE SE ENTENDE POR “antecedentes terroristas”?
“O agressor, que foi detido pouco depois do ataque por uma patrulha da polícia. Fontes policiais da cidade alemã afirmaram, através do Twitter que a “identidade do atacante é clara: É um alemão de 34 anos e mora em Lübeck”. COM TANTA CLAREZA PODIA TER-SE REFERIDO QUE O ATACANTE ERA DE ORIGEM IRANIANA. ERA SÓ PARA SER TUDO MAIS CLARO.
“A mensagem acrescenta que não há sinais de uma “radicalização política” no atacante ou de um contexto terrorista. TERÁ SIDO UM CRIME PASSIONAL? ESTOU EM CRER QUE TUDO ISTO ACONTECEU POR AMOR AOS AUTOCARROS: EXISTE UM GRUPO DE PESSOAS QUE NÃO CONSEGUE VER OS AUTOCARROS A CIRCULAR HORAS SEM FIM. VAI DAÍ ATACAM OS PASSAGEIROS!
O Ministério Público pediu “compreensão e paciência” na impossibilidade de dar mais detalhes sobre o agressor até que a sua identidade pudesse ser verificada com total certeza.” ESTA PARTE DA NOTÍCIA QUER DIZER QUE NO MOMENTO EM QUE AS AUTORIDADES FIZERAM ESTA DECLARAÇÃO JÁ SE DIZIA O HABITUAL NESTES ATAQUES QUE NÃO SÃO ATAQUES: ESTÁ A SER SONEGADA INFORMAÇÃO SOBRE O ATAQUE E O ATACANTE
E assim se criou mais uma taxa
Momento I: a CML de Costa/Medina cria uma taxa que só almas pérfidas seriam capazes de achar que algum dia recairia sobre os portugueses
2014: Residentes em Portugal isentos da taxa de chegada ao aeroporto de LisboaPara o vice-presidente da Câmara, de maioria socialista, [em 2014 era Fernando Medina[ o município dá assim «resposta ao fundamental das objeções levantadas». «Quisemos limitar ao mínimo possível as margens de erro», tentando criar «uma taxa que não abrangesse pessoas que não estão na condição de turista», justificou.
Momento II: a taxa vai agora ser alargada a todos. AS culpa vai ser obviamente chutada para Bruxelas
Não vejo como podem os residentes em Portugal pagar ter de pagar uma Taxa Municipal Turística em Lisboa. E muito menos como podem os lisboetas pagar uma Taxa Municipal Turísticaquando chegam de avião à sua cidade. Eu não sou turista em Lisboa. Vivo cá. Ou a taxa muda de nome e é devidamente justificada ou é extinta
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O ilusionista e sua partenaire vão trocar de papéis?
Naquele estilo épico que caracteriza toda e qualquer notícia que implique mais uma obrigação para as empresas o DN anuncia que as empresas vão ter de explicar porque contratam mulheres e homens para funções diferentes e publicar estatísticas no primeiro semestre de cada ano sobre as diferenças remuneratórias entre mulheres e homens. Pessoalmente acho que as empresas deviam recusar fazer estas estatísticas pela prosaica razão que elas representam um custo/encargo desnecessário tratando-se de um mero exercício de poder. Estas estatísticas já existem: todos os meses as empresas enviam os dados para pagamento dos seus trabalhadores à Segurança Social. A secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade pode se quiser pedi-los e tirar as conclusões que lhe aprouver.
Sonhos de criança para todos

De acordo com um dos clássicos do anedotário internacional, a diferença entre um diplomata e uma senhora é que se o primeiro disser “não”, deixa de ser um diplomata, e se a segunda disser “sim”, deixa de ser uma senhora. Foi para libertar os diplomatas e as senhoras destes embaraços que a civilização desenvolveu, durante séculos, todo um conjunto de palavras, olhares, gestos e atitudes que tornam desnecessário o uso desses secos símbolos da objectividade. No entanto, aparentemente, esse tempo chegou ao fim. Segundo os jornais, Carmen Calvo, vice-presidente do Governo espanhol e ministra da Igualdade, pretende alterar a legislação sobre delitos sexuais, criminalizando todos os actos que não tenham sido expressamente precedidos por um inequívoco “sim” do lado feminino. No fundo, estamos a falar da obrigatoriedade legal de ajustes na linha do tempo, os quais, para quem acompanhava a programação do canal Viver/Vivir, se podem traduzir na antecipação do “sí, cariño” que apenas se ouvia no decorrer do enredo. É, em suma, a vitória da prolepse no competitivo mercado das anacronias.
Mais do que pelas excelentes perspectivas de negócio para os notários, o novo quadro legislativo dos nossos vizinhos surpreendeu por dispensar os homens de igual manifestação de vontade, pois caso a investida amorosa seja da iniciativa da mulher, o “quem cala, consente” continua a vigorar. Só posteriormente, através de uma outra intervenção pública de Carmen Calvo, se percebeu o motivo: de acordo com a distinta cabreña (nasceu no município de Cabra, província de Córdova), as mulheres passaram toda a vida a ouvir os homens e por isso conhecem-nos muito bem; já os homens, por não escutarem as mulheres, ignoram como é que elas funcionam. Estamos, assim, na presença de um confronto entre a adivinhação e a audição, no qual as bruxas conseguem um ascendente claro sobre os surdos. E estamos, também, a assistir ao vivo à promoção do “ele não me ouve…” a assunto de Estado. Essa passagem, directamente do Consultório Sentimental da revista Maria para a mesa do Conselho de Ministros, contribuirá certamente para o reforço da igualdade, se não entre géneros, pelo menos entre classes.
Espero que não me compreendam mal: sou totalmente a favor da existência do Ministério da Igualdade. Julgo é que a abordagem deve ser mais ampla. A minha mulher, por exemplo, quando era criança, divertia-se a limpar, embalar e alimentar Nenucos; agora, que ela já tem a alegria de limpar, embalar e alimentar bebés a sério, era importante que o governo tratasse de mim, providenciando-me carros desportivos reais, barcos de recreio genuínos e caças F-16 verdadeiros. Estou até disposto a fazer uma promessa à Doutora Carmen Calvo: quando os meus sonhos de criança forem realizados à força de lei, está autorizada a vir cá a casa lavar-me as orelhas.
O monstro tem de crescer ainda mais
Será que os autores destes crimes eram mulheres bonitas?
A FIFA pretende que os operadres de câmara “deixem de focar nas raparigas que podem ser consideradas atraentes” mas será que também deu ordens para que não sejam divulgadas as imagens das celebrações no país que venceu o mundial? Ou talvez os autores destes crimes sejam mulheres bonitas e portanto mostrá-las a escavacar, bater e queimar era uma forma de sexismo. Deve ser isso.
A linguagem conta
Lamento imenso o que vos aconteceu. Não posso concordar que tenham sido “vítimas de homofobia” porque tal não existe, é um conceito imbecil, como ser vítima de aracnofobia (excepto se for tratador de tarântulas, aí parece-me que é mais vítima do emprego que das aranhas propriamente ditas). Vocês foram é vítimas de cabrões, o que é muito diferente, até porque os cabrões não padecem de medos debilitantes e sim de certezas obtusas sobre o que deve ser a vida dos outros. Pois, na realidade, foram é vítimas de socialistas. Pensem nisso.
Onze edifícios do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, que hoje são usados como escritórios da Segurança Social, serão transformados, entre 2019 e 2020, em habitações com “rendas acessíveis”, numa parceria com a Câmara Municipal de Lisboa. O acordo para este projeto será assinado esta segunda-feira, revela a “TSF”.
Espa operação só é aceitável se a CML indemnizar a Segurança Social. Não é aceitável que o património da Segurança Social não seja devidamente rentabilizado simplesmente para ajudar um autarca e uma autarquia. A Segurança Social é nacional e não local, os trabalhadores do Algarve e de Trás-os-Montes nada têm a ver com os problemas de habitação de Lisboa e esperam sim que a Segurança Social trate do seu património de modo a assegurar o pagamento das reformas. Esta operação não resolve problema algum permite apenas uma operação de propaganda e é espantoso que os sindicatos assistam a esta negociata calados.
As selecções de pretos e os palermas conservadores
Têm quase duas semanas para resolver o assunto
E o SOS Racismo quando se pronuncia? Ou também não sabe o que pensar?
Portanto são desequilibrados mentais?
Como se sabe a cada atropelamento acontecido da Europa os autores desses actos são inevitavelmente desequilibrados. Jamais agem por motivação terrorista quando muito estão ofendidos por não terem tido direito a casas sociais nos centros das cidades. Só pessoas intolerantes podem achar que se está diante de criminossos. São obviamente desequilibrados e excluídos a merecerem toda a nossa solidariedade. Quando muito lobos solitários.
Processo de domesticação em curso
Uma caixa a mais, uma granada a menos
Depois dos ridículos episódios de Tancos e da pantomina política em torno do tema, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o chefe do Estado-Maior do Exército vieram a público na altura assegurar que todo o material desaparecido tinha sido encontrado, sendo que até tinha sido descoberta uma caixa de munições extra, para gáudio dos personagens.
Aparentemente, vem agora a saber-se que afinal andam ainda por aí espalhados algures explosivos e granadas que não foram encontrados nos canaviais da Chamusca e que deveriam estar guardados em Tancos.
No caso da tragédia dos incêndios do ano passado o Presidente da República, a muito custo, lá exerceu pressão para que António Costa demitisse a infeliz ministra Constança.
Bem sei que não ajuda à autoridade nem à credibilidade do Comandante Supremo das Forças Armadas a imagem da cantoria da “casinha” no festival de música de há dias, mas não seria desejável que Marcelo zelasse pelos mínimos de dignidade da função que ocupa e dissesse que é chegado o momento de Azeredo Lopes nos poupar à sua incompetência governativa?
*
ainda vão a tempo
Julgo que me tenho expressado indevidamente nos textos que tenho publicado sobre o liberalismo português, o último dos quais a propósito de uma polémica entre o Vitor Cunha e o Carlos Guimarães Pinto. Para mim, ao contrário do que me parece que o Carlos julga, o ponto não está em discutir a bondade, nem a presumível utilidade, das ideias liberais que vêm de fora, que, aliás, eu abraço entusiasticamente, mas tentar compreender por que é que elas, sendo tão virtuosas, nunca vingaram entre nós. É que, como tenho insistido, nós tivemos, durante boa parte do século XIX, um liberalismo político e económico. Só que esse liberalismo não foi de influência inglesa, mas francesa, e, por isso, considerava que a liberdade se realizava no estado e na cidadania (no vínculo jurídico-político de um indivíduo a um estado), no proteccionismo económico e na estruturação de um estado moderno segundo o modelo napoleónico. Foi essa a opção consciente dos nossos liberais oitocentistas, à qual as elites políticas – da esquerda à direita – aderiram sem excepção (ou com a excepção miguelista, mas essa não se enquadrava no que falamos), quando poderia ter sido outra. O país, por essa época, conhecia e lia Blackstone, Smith, Locke, Hume, Tocqueville, Ricardo, o constitucionalismo histórico inglês, a Revolução Gloriosa e a Americana e, ainda assim, preferiu a Enciclopédia e 1789. Porquê? Não tenho uma resposta concludente para esta pergunta, mas várias hipótese que procuram interpretar esse facto, que é inegável, e é isso é o que me parece importar. Dito doutro modo, se não pegou na altura em que fizemos a primeira escolha, nem ao de leve lhe chegámos nos duzentos anos que se lhe seguiram, por que há-de ser agora uma escolha dos portugueses? Ou será que não temos todos presentes que o governo de Passos Coelho “falhou devido ao radicalismo ideológico liberal” e que, nos dias que correm, «neoliberal» substituiu o epíteto calunioso de «fascista»?
Por isso, meu caro Carlos, não vejo que partido liberal algum possa fazer o que quer que seja pela liberdade que me entusiasma sem que os seus dirigentes tenham isto muito claro, percebido e, sobretudo, explicado, para lhe procurar o antídoto. Mas quando vejo agremiações de analfabetos – e, lamento a expressão, mas não se me ocorre outra – a garantirem um futuro sorridente sem olharem para o passado, fujo a sete pés. Pessoas que proclamam soluções milagrosas para um país e uma sociedade que, no fim de contas, desconhecem por inteiro e se recusam a conhecer, porque acham que pensar e debater não configura o conceito de «acção transformadora do mundo», o que me leva a crer estar perante brincadeiras de rapazes viciados na politiquice das jotas. Enfim, se querem ser levados a sério, não brinquem com coisas sérias. São novos, ainda vão a tempo.
Todos diferentes, mas parecidos
O Rui Albuquerque tem alguma razão sobre as origens do liberalismo em Portugal. Tanto o quase inexistente liberalismo, como todas as outras ideologias, incluindo o conservadorismo, têm origens externas. A única excepção foi o isolacionismo corporativista da primeira metade do Estado Novo com os resultados que se conhecem, mas já lá vamos.
Lamentando quebrar o romantismo da visão do Rui Albuquerque e do Pedro Arroja, parece-me normal que grande parte das boas ideias sejam produzidas fora do país. Não por nenhuma incapacidade nacional em pensar bem, mas simplesmente pela força dos números. Mesmo grande parte dos pensadores liberais portugueses inspiraram-se em autores estrangeiros. Portugal tem menos de 1% da população dos países desenvolvidos. Mesmo assumindo que tem a mesma proporção de pessoas a pensar nestes assuntos, e ignorando os pensadores de países menos desenvolvidos, é de esperar que 99% das boas ideias surjam fora de Portugal. Claro que algumas ideias podem ser boas num contexto cultural e não noutro. Nesse sentido é mais provável que alguém conhecedor de um contexto cultural seja capaz de gerar um sistema de ideias mais de acordo com esse contexto. Quanto mais marcadamente diferente for uma cultura, menos sucesso terão ideias importadas. Mas as culturas não são absolutamente diferentes, nem a Portuguesa é de tal forma diferente de outras europeias que não possa lá ir buscar inspiração, caso contrário não existiria aquilo que hoje se chama civilização ocidental (não vale a pena discutir aqui, até porque tenho objecções metodológicas ao seu trabalho, mas vale a pena ver a obra de Geert Hofstede – um estrangeiro, desculpem – para perceber isto melhor).
Importar ideias de fora sem aplicar o filtro cultural é um erro. Querer ignorar aquilo que é pensado lá fora, quando a estatística nos diz que é de lá que virão parte das grandes ideias, é um erro ainda maior. Foi esse, aliás, o erro que Salazar cometeu na primeira parte do Estado Novo e que ainda hoje estamos a pagar. Foi apenas nos anos 60 quando abandonou a única ideologia relevante puramente portuguesa e deixou-se levar por ideias estrangeiras, como a industrialização ou o livre comércio, que o país deu o salto em termos de desenvolvimento. Foi a aceitação de ideias estrangeiras que gerou o bem-estar económico que permitiu salvar milhares de crianças que morriam antes do primeiro ano de idade e tirar da miséria boa parte da população. Salazar descobriu tarde que apesar de sermos todos diferentes, somos suficientemente parecidos para podermos importar ideias de fora com bons resultados.
Não sei se o liberalismo anglo-saxónico se adapta perfeitamente a Portugal. É provável que não. Em algumas discussões com colegas do Partido Libertário (um grupo de malta porreira ao qual estão convidados a juntarem-se) defendo isso muitas vezes. A discussão das armas, do padrão ouro ou do federalismo faz pouco sentido na realidade portuguesa, mesmo que seja predominante na americana onde o moderno movimento libertário tem as suas origens. Já outras ideias adaptam-se perfeitamente, haja quem tenha o tempo, a energia e a vontade de as comunicar nos jornais, nos blogues ou em campanhas eleitorais.
o problema
O problema da discussão entre o Carlos Guimarães Pinto e o Vitor Cunha sobre as paternidades e descendências do «liberalismo português» é que nada do que aí se «produziu», se é que a palavra está bem empregue, nas últimas décadas, foi original ou «português». Na verdade, andámos todos entretidos a debater ideias vindas de fora, que tinham pouco a ver connosco e com a nossa tradição liberal que, goste-se ou deteste-se, existiu e não teve nada a ver com isto. O Pedro Arroja, que é um homem inteligente, foi o primeiro a percebê-lo e, por essa razão, pôs-se a andar. Não querendo ser um gestor de uma franquia internacional, tentou encontrar um pensamento que correspondesse a qualquer coisa semelhante com uma «identidade nacional» e foi parar ao Vaticano. Ou seja, também não conseguiu lá chegar. Nem ele, muito menos os seus putativos «herdeiros», incluindo partidos e blogues, que seguem em frente olhando para o que foram e são os outros, e ignoram o que fomos e somos nós.

Barack Obama esteve em Portugal e, de acordo com a imprensa, uma das condições da visita era a ausência de contactos com políticos. Achei normal: um governante na reforma pode não considerar adequada, com medo de mal-entendidos, qualquer espécie de diplomacia paralela. Porém, nesse mesmo fim-de- semana, após a passagem por Madrid, eis que nos aparecem fotografias de Obama com o Rei de Espanha e com Pedro Sánchez, o Presidente do Governo espanhol. Intrigado com o critério, empreendi uma cuidadosa e pormenorizada investigação sobre as viagens do ex-Presidente americano desde que abandonou a Casa Branca, pelo que deixo aqui, para vossa análise, os frutos desses 53 segundos de navegação pelo Google. Obama, em pouco mais de um ano, já se encontrou com Merkel em Berlim, com Matteo Renzi em Milão, com Joko Widodo em Java, com Xi Jinping em Pequim, com Narendra Modi em Nova Deli, jogou golfe com Mauricio Macri em Buenos Aires e jantou com Justin Trudeau em Montreal. Pela amostra, a deslocação ao Porto deve ter sido a primeira em que foi estabelecido um cordão sanitário que impedisse a aproximação de governantes. Isto é inadmissível. Quem é que Barack Obama julga que é? Desconsiderar os políticos lusos devia ser uma prática exclusiva dos portugueses. Não podemos permitir que estrangeiros enxovalhem assim os nossos líderes, obrigando-nos, para sairmos em sua defesa, a interromper as actividades de enxovalhamento que nós próprios lhes estávamos a dirigir. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são como os nossos filhos: podem ser inconvenientes e difíceis de aturar, mas só nós é que o podemos dizer. Todos os outros têm mais é que mentir e tratá-los como adoráveis. Sem hipocrisia e fingimento não há relações de amizade que resistam. E relações internacionais muito menos.
Afinal de contas, o que é que Pedro Sánchez é mais do que o nosso primeiro-ministro para ter direito a um encontro privado com o antigo Presidente americano? Uma vez que ganharam ambos o mesmo número de eleições legislativas, só pode ser má vontade. Que Barack Obama não goste de geringonças eu consigo perfeitamente compreender; imperdoável é que insinue, através da gestão dos seus contactos, que a geringonça espanhola é superior à portuguesa. Por isso, do alto do meu patriotismo, só tenho uma coisa para lhe comunicar – Caro Obama: entre todos os arriscados, incoerentes, desengonçados, nefastos e improvisados arranjos governativos que existem no mundo, o nosso é, de longe, o melhor! Um abraço e saudinha.
QED
No meu post anterior argumentei que a blogosfera liberal rejeita os seus filhos ideológicos, como antes tinha rejeitado o pai. Discordando desta perspectiva, o Vítor Cunha escreveu duas respostas. Numa rejeita os filhos, noutra rejeita o pai.
Eu é mais Nelson Ned, sinceramente
Os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinices, dois tipos talhados pelo nome de baptismo para serem mariquinhas (a meu ver), arranjaram um entendimento para governarem rotativamente o reino, antecipando o sistema em vigor na Jugoslávia de Tito, o que tinha uma das seis repúblicas a fingir governar a coisa até à carnificina final que se verificou nos anos noventa, uma espécie de União Europeia mas com marechais. Como é normal nestas coisas, mal um tipo chega ao poleiro, trata logo de arranjar maneira para lá se manter indefinidamente, afastando o outro, coisa que Etéocles fez com a mesma pinta com que Soares afastou Cunhal em definitivo na Fonte Luminosa, relegando-o para um ícone pop que perduraria mais em nostalgia do que por mérito artístico, mais ou menos como a Madonna.
Contudo, a parte importante da história de Etéocles e Polinices não é terem cometido suicídio assistido mútuo, um direito que lhes assistia segundo a ética progressista da época: é, sim, que as terras a governar continuaram a existir muito para além da passagem para o plano poeirento da existência terrena dos manos. É por isso que, apesar da inerente beleza tradicionalista da mitologia – as histórias que devem ser conservadas em vez de adaptadas para o paladar dos tempos que correm –, a minha grande base intelectual para o liberalismo, sem desprimor para Pedro Arroja, que muito admiro por ir contra a fátua sedução do presente, é essa figura incontornável da ciência política internacional, Nelson Ned. É que, olhando a influências de estilo, nada consegue bater “mas tudo passa, tudo passará; mas tudo fica, tudo ficará”.
Teste de paternidade
Boa noite. Vim apenas anunciar que chegou o teste de paternidade e comprova-se que não sou pai de nenhum destes. Também não sou a mãe, que isso é uma impossibilidade biológica. Vai daí, haja um orfanato que os alimente, que eu não vou andar aí a alimentar os filhos dos outros.
Netos de Arroja, filhos de Édipo
Quando o jovem Pedro Arroja defendia o liberalismo em pequenos espaços televisivos e artigos de jornais nos anos 80 e 90 era uma espécie estranha. Liberal era um insulto que na escala do Portugal socialista saído da revolução só estava abaixo de fascista. Nenhum outro comentador ou colunista relevante se atreveria a definir-se como liberal e muito menos um político que aspirasse a ganhar eleições. Mas as ideias fazem o seu caminho e o seu esforço solitário teve frutos uns anos mais tarde com o advento da internet e dos blogs. Quem estava por cá quando começou a blogosfera política em Portugal lembrar-se-à que a esmagadora maioria dos blogs auto-denominavam-se liberais. Todos, incluindo os liberais-sociais não hesitavam em defender a herança de Pedro Arroja. Surgiram dezenas de pequenos blogs de pessoas que se diziam liberais (embora na sua maioria nunca tivesses escrito sobre isso). Muitos estavam desorientados, outros (incluindo o vosso escriba) foram estruturando o seu pensamento, estimulado pelas discussões acesas que foram acontecendo entre liberais. Mas a verdadeira maturidade da blogosfera liberal apenas surgiu depois do confronto com o próprio Pedro Arroja. Um a um, Pedro Arroja foi rejeitando cada um dos seus filhos. O João Miranda (provavelmente, o melhor blogger liberal português quando Pedro Arroja entrou neste mundo) foi acusado de ser de esquerda. O João Caetano Dias (provavelmente, o segundo melhor) de não saber pensar. Carlos Abreu Amorim, André Azevedo Alves e muitos outros mereceram a rejeição de Pedro Arroja. Um por um, Pedro Arroja rejeitou todos os seus filhos ideológicos e, sem surpresa, eles também o rejeitaram de forma violenta. Tal como Laio que tentou matar o filho Édipo, apenas para acabar por ser morto por ele.
A expulsão de Pedro Arroja do Blasfémias e a sua auto-exclusão da tribo liberal foi o momento de passagem de testemunho. Os filhos de Arroja tomavam o controlo. A blogosfera liberal continuou a amadurecer. Das dezenas de blogs liberais sobraram dois relevantes. Sobraram os dois que conseguiram aglutinar num ambiente de tolerância diferentes visões de liberalismo em que os pontos em comum eram mais fortes que as várias diferenças. A influência desses dois blogs foi muito para além do que as audiências (mesmo essas, de uma dimensão completamente inesperada 10 anos antes) atestam. Nos jornais, na televisão e na academia apareceram cada vez mais pessoas sem vergonha de se afirmarem liberais. O colapso de 2011, que vinha sendo anunciado nesses blogs há anos, foi o golpe final.
Mas as ideias continuaram a fazer o seu caminho e 15 anos depois da proliferação de blogs liberais surgem os partidos liberais. Num processo extraordinariamente semelhante ao da criação dos primeiros blogs liberais, pela primeira vez surgem forças partidárias que aspiram a conquistar votos afirmando-se liberais, algo impensável 15 anos antes. Pela primeira vez, há políticos que consideram que afirmar-se liberal pode ser uma vantagem na hora de conquistar votos. Em vez de se sentirem orgulhosos com o feito, e consistente com a sua própria história familiar, os filhos rejeitados de Arroja trataram de também rejeitar os seus.
Na mitologia grega, Édipo, que já tinha morto o pai, amaldiciou os filhos para que se matassem um ao outro, o que veio a acontecer. Édipo conseguiu ser tão mau pai como tinha sido filho. Sangue marado o que corre nas veias desta gente.
Nós os três, para a vida toda
El Gobierno propone que cualquier acto sexual sin un ‘sí’ expreso sea delito
Eu e o meu notário fomos jantar com uma moça muito bonita, recentemente divorciada após quatro anos de separação efectiva. Pintou um certo clima entre nós e abdicamos da ida ao cinema pela continuidade da agradável conversa em ambiente recatado, a casa dela, partilhada apenas com uma espécie de coelhito que, mais tarde vim a saber ser de raça Yorkshire Terrier. Já bastante animados pelo álcool e pela empatia criada durante o aprazível serão, sentamo-nos lado a lado no sofá. Beijei-a e senti imediatamente a reciprocidade do desejo. O meu notário levou-a para a cama e eu fiquei a ver episódios da terceira temporada do Friends. Estou muito entusiasmado: não quero ser precipitado, mas tenho um pressentimento que casaremos num futuro próximo.

